Conversas de cabeleireiro

Somos todos muito injustos com as conversas de cabeleireiro. São conversas que têm um estigma associado, descritas como fúteis e superficiais, apenas sobre cabelos, telenovelas e coscuvelhices diversas. Entendemos ainda que se baseiam, acima de tudo, no “Diário de Maria” e nas “iolas” (e digam lá se não é assim que muitas pessoas pronunciam esta revista?), onde se procuram, quais voyeurs, os vestidos e as casas das pessoas ricas. Mas não é verdade. Estamos a ser muito injustos com as conversas de cabeleireiro.

Costumo ir ao cabeleireiro munida do meu portátil, porque cada minuto vale ouro e enquanto se corta ou seca há sempre forma de escrever uma linha. No entanto, fiz hoje uma experiência. Sim, sim, quase uma experiência social. Fui de mãos a abanar e sentei-me com a firme convicção de que iria apenas ouvir. Mas ouvir mesmo tudo, cada palavra, cada comentário, cada silêncio.
Pois bem, eis o que ouvi.

Entre as conversas sobre uma apresentadora de televisão, que grita como tudo, mas até tem um bom coração, o outro apresentador que parece que está a perder as audiências e a sua colega que tem um sotaque do norte, o Benfica e o Sporting, ouvi coisas muito interessantes.

Ouvi falar de suporte social. Entre a coloração castanho avelã e a depilação das sobrancelhas, alguém falava da importância que têm os amigos e os vizinhos, a rede informal que tanta diferença pode fazer na vida de alguém. Seja um suporte mais afectivo, com quem se desabafa, mais instrumental, a quem se pede ajuda concreta, ou mais cognitivo, porque nos ajudam a pensar e a tomar decisões. Seja ainda um suporte de lazer, porque são as pessoas que nos fazem companhia e ajudam a distrair.

Ouvi falar de tolerância à frustração. Entre as unhas de verniz gel de cor “strawberry” e o corte escadeado que fica a matar, alguém falava em como é importante aprender a esperar e a lidar com os fracassos. Perder e falhar faz parte da vida e é muito importante passar por isso. E que as crianças não sejam poupadas, por amor de todos os santos.

Se não amar, então não sofro. Pois é, mas assim também não ama. Ora bolas.

Ouvi falar de educação parental. Entre um corte de franja que parece que está na moda e as madeixas louras californianas, alguém falava em como os miúdos precisam de limites e de ouvir um “não” a toda a hora. Ao mesmo tempo que precisam de mimos, muitos mimos, porque isso de dizer que os mimos estragam é coisa de gente maluca que não sabe o que diz.

Ouvi falar de afectos. Entre a prancha que estica (e como estica!) o cabelo e a pedicure apurada porque as sandálias assim o exigem, alguém falava em como as pessoas têm medo de amar. Têm medo de perder e de ser rejeitadas e, então, jogam pelo seguro, que é o mesmo que dizer que não se entregam. Se não amar, então não sofro. Pois é, mas assim também não ama. Ora bolas.

Ouvi falar de lutos. Entre a lavagem à cabeça com direito a massagem e tudo e o “brushing” encaracolado que dá um trabalhão, ouvi falar em morte. Em como é difícil chegar à tão desejada fase da aceitação, depois da negação, da revolta e da tristeza. Em como o tempo passa e a dor perdura. Diferente, é certo, mas perdura. E em como as saudades são algo tão difícil de gerir.

Não, as conversas de cabeleireiro não são fúteis nem superficiais. São, muitas vezes, momentos de reflexão e partilha

Ouvir falar em inclusão. Entre um corte de barba, que agora é mesmo a nova tendência, digam lá o que disserem, e as ampolas para ajudarem o cabelo a crescer cheio de força, alguém falava do dia contra a homofobia e contra as outras fobias, porque agora são muitas e nem sempre as sabemos pronunciar. As pessoas têm o direito a amar quem quiserem, ora essa, então agora são os outros que se metem na vida privada de cada um? Isso era dantes, no tempo dos nossos avós.

Não, as conversas de cabeleireiro não são fúteis nem superficiais. São, muitas vezes, momentos de reflexão e partilha, desabafos feitos que apenas o podem ser naquele contexto, longe de tudo e de todos, quase numa realidade paralela, abafada pelo barulho dos secadores que é tão bem-vindo.

Está decidido. Nunca mais levo o portátil para o cabeleireiro.