Convulsão febril: o que fazer (além de não entrar em pânico)

São entre 2 a 5 por cento as crianças que manifestam esta condição clínica, normalmente associada a uma doença ou infeção. Acontece entre os 6 meses e os cinco anos de idade, não deixa sequelas, manifesta-se de várias formas e significa uns (longos) minutos de aflição para os pais. Consultámos o pediatra João Brissos e ouvimos o testemunho de Paula Espadinha, mãe de Beatriz, de dois anos, que já teve cinco episódios de convulsões febris.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

«A primeira foi aos 14 meses. Não sabíamos o que estava a acontecer. Lembro-me que ficámos bastante assustados, o meu marido tentava desengasgá-la e até lhe fez compressões torácicas a achar que se tratava de uma paragem cardiorrespiratória».

A descrição é de Paula Espadinha e refere-se à primeira vez que Beatriz teve uma convulsão febril. Só quando os bombeiros chegaram a casa é que percebeu do que se tratava. Até lá, passou-lhe o pior pela cabeça.

«Começou por ter uns tremores nos braços e pernas e a salivar bastante», diz Paulal lembrando o primeiro episódio, relacionado com um vírus que provocou febre a Beatriz.

De acordo com o pediatra João Brissos, especialista do Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas, «estas situações acontecem devido à imaturidade do sistema nervoso central da criança» e estão, normalmente, associadas «a doença aguda em crianças saudáveis, entre os seis meses e os cinco anos».

Beatriz tem dois anos e já teve cinco episódios de convulsões febris, sempre relacionados com o aparecimento de uma doença, como amigdalite ou varicela

Passados seis meses do primeiro episódio, Beatriz voltou a ter uma outra convulsão. «Estávamos de férias no Algarve. Tentámos resolver a situação com compressas húmidas e medicação, mas mesmo assim voltou a ter outra convulsão já no hospital. A médica, com medo de uma encefalite, achou por bem que a menina ficasse internada durante uma semana, para conseguir realizar todos os exames necessários».

A repetição é normal. João Brissos diz que «a partir do momento em que se tem a primeira convulsão existe maior risco de que a situação se repita, ainda que nunca se saiba quando ou se realmente vai acontecer». No caso de Beatriz foram cinco. Já na creche teve uma convulsão provocada por varicela, mais tarde outra devido a uma amigdalite e ainda outra devido a uma laringite.

Os sinais já são conhecidos pelos pais: «começa a salivar bastante, a mastigar, a visão fica parada e deixa de responder». Há outras crianças que chegam também a urinar sem se aperceberem.

O médico pediatra lembra que nestas situações o mais «importante é garantir a segurança da criança. Acautelar que não cai ou que não se levanta, para não ficar numa situação de risco» e diz que «também não deve colocar-se nada na boca», o que acontece algumas vezes porque «os pais têm medo que se trate de um ataque epilético».

«Depois devem também despir a criança, porque normalmente, quando ocorre a convulsão, é sinal que vai começar a ter febre», acrescenta. Ainda assim, Brissos reconhece que esta é uma situação bastante «complicada» para os pais, pois durante 2/3 minutos não podem fazer absolutamente nada para ajudar os seus filhos.

«O que nós pedimos é que os pais esperem cerca de um ou dois minutos e que só se dirijam ao hospital se realmente não passar a convulsão. No entanto, muitas vezes isso não acontece», diz.

Segundo João Brissos, as convulsões não deixam sequelas nas crianças. No caso de Beatriz, sublinha Paula, é precisamente isso que a deixa «mais tranquila».

Paula Espadinha confirma o problema. «É muito complicado. Não podemos fazer muito. Temos que esperar e sentimo-nos muito impotentes», esclarece, acrescentando que a repetição destas convulsões tem condicionado a logística familiar.

«Estes episódios têm, de certa forma, condicionado a nossa vida. Até porque os próprios familiares não ficam descansados quando têm de cuidar da Beatriz e mesmo na creche também sinto que, apesar da educadora e auxiliares já conhecerem a situação, sentem-se inseguros quando esta situação acontece», refere Paula.

Segundo João Brissos, as convulsões não deixam sequelas nas crianças. No caso de Beatriz, sublinha Paula, é precisamente isso que a deixa «mais tranquila». «O que nos mantém calmos é que a Beatriz nunca ficou com sequelas depois destes episódios. Deixe-me que lhe diga que com ela até acontece o contrário. Depois da primeira convulsão, começou a andar. E depois da segunda, a falar».


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