“Costumo dizer que sou uma ucraniana portuguesa. Nunca me senti estrangeira aqui”

Nataliya Khmil vive há quase 20 anos em Portugal. Foi das primeiras a chegar vinda da Ucrânia e hoje é presidente de uma associação de apoio ao imigrante que a própria criou.

Texto de Cynthia Valente

De sorriso fácil e com leveza no olhar, Nataliya Khmil não transparece a história pesada de vida que carrega. Veio do Leste passou por quase todas as experiências difíceis de quem um dia decide abandonar a família, os amigos e a sua terra para procurar uma vida melhor. Nataliya Khmil faz parte de um grupo de cerca de 33 mil ucranianos (dados do Gabinete de Estratégia e Estudo do Ministério da Economia) que decidiram migrar para Portugal.

Contudo, foi “das primeiras a chegar”, numa altura em que “havia pouca informação e uma grande escassez de associações de apoio a estrangeiros em Portugal”. Em 2001, quando fez as malas, a internet e a facilidade de contacto estavam longe da realidade atual. “Não podíamos falar ao telefone todos os dias nem fazer videochamadas”, relembra. Nataliya, casada, com um filho menor, tinha 32 anos e estava em situação de desemprego, bem como o marido.

O marido chegou primeiro à cidade de Rio Tinto, Gondomar, em fevereiro de 2001. A ucraniana, licenciada em Ensino de Biologia e Química, ficou a aguardar feedback do companheiro.

Sem fontes de rendimento, o casal optou pela migração. Portugal foi o país eleito porque “estavam a legalizar muitos imigrantes na altura”. O marido chegou primeiro à cidade de Rio Tinto, Gondomar, em fevereiro de 2001. A ucraniana, licenciada em Ensino de Biologia e Química, ficou a aguardar feedback do companheiro. “Ele foi na frente para ver como era. Dizia-me que a vida era boa e que tinha uma grande casa. Arranjou logo trabalho na construção e um canto para nós. O meu filho ficou com a minha irmã até que o pudéssemos ir buscar também.”

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Com um cenário “agradável”, Nataliya decidiu juntar-se ao marido dois meses depois da chegada do parceiro ao norte. Tinha criado “uma ideia na cabeça”, de que “Portugal era um país rico, muito luminoso”. “Pensei também, pelo que me tinha dito o meu marido, que ia viver numa boa casa, melhor do que a que tínhamos na Ucrânia”, conta. Contudo, mal aterrou no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, a imigrante ficou em choque. “Um amigo do meu marido foi buscar-me num carro velho e pequenino. Era de noite e eu só via zonas meio abandonadas. Estava sempre a perguntar quando chegávamos ao Porto e o meu marido dizia que aquilo já era o Porto”, recorda. Se a viagem do aeroporto até Rio Tinto foi “estranha”, a chegada a casa não registou melhores memórias. “Era uma casa velha, que só tinha chão de madeira porque o meu marido tinha estado a pôr e tinha só uma cama, uma mesa e 16 cobertores que tinham sido oferecidos pelos vizinhos por causa do frio. Fiquei em choque. Tinha uma ideia romanceada da imigração”, afirma.

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Os dias seguintes foram passados a tratar de papéis nas repartições públicas, mas também aqui a experiência foi marcante. “Tínhamos de apanhar um autocarro para a Loja do Cidadão, mas não tínhamos dinheiro para mudar de linha. Tivemos de andar muito a pé e tentar pedir indicações, mas não percebia nada do que me diziam. Optei por dizer sempre que sim a tudo”, relembra, a rir .

A dificuldade linguística continuou durante largos meses. “Um dia entrámos numa pastelaria e uma senhora tentou ensinar-me a dizer a palavra pão. Como não conseguia dizer bem, todas as pessoas presentes (e eram muitas) começaram a dizer a palavra alto. Teve muita piada, mas a verdade é que, para além dessa palavra, não percebia nada do que tentavam explicar-me”, sublinha.

Aprender português

Nataliya arranjou rapidamente trabalho numa fábrica de produtos para a pesca, mas percebeu que teria de aprender a falar português se queria melhorar de vida, mesmo sabendo que não conseguiria voltar a ser professora. Conseguiu juntar pessoas suficientes para abrir uma turma de português para estrangeiros. “Fomos os primeiros no Grande Porto a aprender. Íamos para as aulas à noite, depois de sair da fábrica. Chegava a casa à meia-noite e tinha de sair de casa às 05.30 da manhã para ir para a fábrica. Esses meses foram os mais difíceis. Estava muito cansada e pensava que não ia aguentar. Emagreci muito. Não por passar fome, mas pelo excesso de trabalho”, conta.

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A magreza repentina levou os vizinhos da ucraniana a acreditar que a família passava fome e começou a ser convidada para almoços e jantares, que só mais tarde entendeu de onde tinham surgido. “Dois anos e meio depois aconteceu-me o mesmo quando fui à Ucrânia de férias pela primeira vez. As pessoas perguntavam se estava bem em Portugal porque estava magra”, afirma. A imigrante decidiu, por isso, mudar de emprego. Arranjou trabalho como empregada doméstica e conseguiu ter mais tempo de descanso.

Nessa viagem, o filho Paulo, à data com 9 anos, foi surpreendido pela chegada dos pais que não via há mais de dois anos. O objetivo era trazê-lo para Portugal, mas apesar de terem comprado o bilhete não havia garantia de que conseguisse passar na fronteira da Hungria. Tudo correu bem e o menor conseguiu chegar ao destino.

Ultrapassada a barreira linguística, Nataliya começou a auxiliar muitos conterrâneos na fase inicial da imigração. Incentivada pela população de Rio Tinto, portuguesa e estrangeira, decidiu criar uma associação de apoio ao imigrante, a Associação Amizade, que assinalou o seu 15º aniversário recentemente. Desde a sua fundação, Nataliya é a presidente e dedica-se a cem por cento a ajudar, não apenas estrangeiros, mas também portugueses carenciados. Foi numa ação de doação de géneros alimentícios que encontrou, na fila, uma das pessoas que a tinha ajudado quando chegou a Portugal. “Fiquei chocada quando a vi ali. Tinha-me ajudado tanto quando cheguei que, na altura, pensei que devia viver muito bem. Afinal sempre tinha tido dificuldades, mas ainda assim ajudava os outros”, recorda.

A Associação Amizade apoia centenas de imigrantes de várias partes do mundo, dando suporte jurídico gratuito, cursos de português para estrangeiros, entre outras ações. E aposta ainda na vertente cultural, assinalando as datas festivas da Europa do Leste. Têm, também, um grupo de danças tradicionais “quase profissional”. “Sou portuguesa e ucraniana. Não me esqueço da minha gente, do meu país, da minha língua e da minha cultura e quero que as novas gerações também não esqueçam. Por isso, também temos cursos de ucraniano para as crianças e jovens que já nasceram aqui”, explica.

Apesar da saudade que sente da Ucrânia, Nataliya Khmil, de 51 anos, 19 deles passados em Portugal, não vai regressar ao seu país de origem porque se sente “em casa”. “Costumo dizer que sou uma ucraniana portuguesa. E todo o corpo do português é coração. Nunca me senti estrangeira aqui. Nunca mesmo”, conclui.