Covid-19: Esta não é altura de mandar mensagens ao seu ex

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Um isolamento em casa dá-nos para pensar na vida e talvez até para mandar uma mensagem ao ex a saber se se está a aguentar em plena pandemia de covid-19. Mas este não é o momento – ou o motivo ideal – para fazê-lo.

Texto de Ana Pago

Após ser declarada a pandemia do novo coronavírus, o mundo como o conhecíamos mudou rapidamente. Passámos a trabalhar em casa mal se percebeu que andar nos transportes públicos e escritórios era irresponsável nesta fase. Eventos sociais que nos animavam foram suspensos. Deixámos de dar beijinhos, de ver os amigos, de jantar fora, de ir às compras (papel higiénico não conta). Assim, não admira que a preocupação nos leve a gestos insensatos como o de escrever ao nosso ex a saber se está bem, um fenómeno que parece ter crescido a avaliar pelas mensagens no Instagram, trocas no Tinder e retweets desde que ficámos de quarentena.

“Cada história terá contornos específicos, mas em termos gerais importa lembrar que o nosso cérebro está programado para construir ligações e que o isolamento nos coloca, a todos, numa situação em que essas ligações estão enfraquecidas”, confirma a psicóloga Cláudia Morais, autora de Os 25 Hábitos dos Casais Felizes (ed. Manuscrito, 2015) e Sobreviver à Crise Conjugal (Oficina do Livro, 2004). Tradução: sentimo-nos mais sós, mais vulneráveis, pelo que procuramos “reconectar” com a desculpa do bem-estar do outro (como se ele fosse ficar melhor ao ler a nossa mensagem).

Pode continuar a haver carinho e cuidado mesmo sem amor, sobretudo da parte que tomou a iniciativa de se separar.

“De um modo geral, um(a) ex-companheiro(a) é alguém de quem nos desligámos do ponto de vista romântico, mas por quem mantemos alguma estima”, admite a terapeuta conjugal, considerando que pode continuar a haver carinho e cuidado mesmo sem amor, sobretudo da parte que tomou a iniciativa de se separar. Já para quem foi largado poderá ser mais delicado: os sentimentos misturam-se. Se esta crise parece ter deixado o ex mais sentimental, a ele então nem se fala.

“Ainda que do ponto de vista racional queiramos saber como o outro está, é praticamente inevitável que trocas de mensagens gerem turbulência”, avisa Cláudia Morais, a lembrar que um dos lados irá sempre ver defraudadas as expetativas de uma suposta reaproximação. O texto, em si, pode nem ser nada de muito abrasador – algo como “Oi, sei que não temos falado, mas pensei em ti e quis saber como estás”, ou um “Tenho tido tempo para pensar aqui por casa e senti saudades tuas”. Mas e o outro, como fica? O mais certo é nem presumir que o ex terá mandado a mesma mensagem a várias pessoas.

Mensagens de texto têm uma grande margem para serem interpretadas de múltiplas formas sem a comunicação não-verbal a ajudar.

“O isolamento sempre andou de mãos dadas com o humor depressivo. Para nos sentirmos seguros, amparados e felizes precisamos de socializar com quem gostamos”, explica a psicóloga, ciente de estarmos todos a viver um cenário absolutamente novo que, pelo contrário, nos deixa cansados, fragilizados e aborrecidos. A combinação torna-se ainda mais explosiva quando se trata de mensagens escritas, nem sempre tão claras como pensávamos que seriam no momento em que as escrevemos.

“Todas elas têm uma grande margem para serem interpretadas de múltiplas formas sem a nossa comunicação não-verbal a ajudar-nos”, sublinha Cláudia Morais. Considerando que um simples ponto de exclamação pode dar azo a várias leituras, uma frase inteira carrega o potencial de uma bomba atómica caso o outro faça uma leitura errada daquela mensagem sem qualquer interesse romântico. E ainda dá para piorar mais um pouco, garante a psicóloga, familiarizada com as complicações do ser humano.

Quem envia mensagem ao ex deve primeiro parar para pensar nas motivações que o levam a fazê-lo.

“Quando um dos ex-membros do casal opta por não responder à mensagem que lhe foi enviada, até pode fazê-lo com a intenção de não alimentar expetativas e, portanto, com uma genuína preocupação pelo bem-estar do outro. Mas isso não impede que a sua atitude seja vista como rude ou de desprezo”, reconhece a especialista em relações. Nem que estejamos melhor sozinhos do que com alguém que só se dignou a escrever por achar que o covid-19 é o fim do mundo.

Na dúvida, diz Cláudia Morais, importa que quem envia a mensagem pare para responder a estas questões antes de o fazer:

“Qual é a minha verdadeira intenção?”

“Que sentimentos tenho pelo(a) meu(minha) ex?”

“O que é que ele(a) sente por mim?”

“Que riscos corro ao enviar esta mensagem?”

“Como posso evitar equívocos de comunicação?”

E que quem a recebe, por seu turno, também se questione, já que colocar perguntas diretas a si mesmo é a melhor forma de se proteger da possibilidade de voltar a sofrer pela mesma relação:

“Como me sinto com esta mensagem?”

“Que expetativas estou a alimentar?”

“Que perguntas posso colocar para ter a certeza de que a minha interpretação está correta?”

“Que riscos corro ao responder a esta mensagem?”