Covid-19. Entre o dever, o trabalho e a família, pais a lidar com fecho das aulas

Nuno Vilaranda covid-19

A classificação como pandemia diz-nos que o coronavírus é grave. Espalhou-se por vários continentes em menos de dois meses, o que justifica estas medidas de contenção para evitar uma infeção generalizada num curto intervalo de tempo. Mas como se gere tudo isto sem stress? A começar pelos pais que, de repente, se veem em casa com os filhos porque as escolas fecharam?

Texto de Ana Pago

O Governo decidiu, está decidido: a partir de segunda-feira e até ao final do mês, todas as escolas, creches e ATL do país, públicos ou privados, terão de suspender as atividades letivas. Há professores e alunos entre os 245 casos confirmados, o que levou já várias instituições a fecharem voluntariamente as portas antes do anúncio oficial feito pelo primeiro ministro António Costa. E os pais, como ficam no meio desta complicação?

Nuno Vilaranda – pai solteiro, com dois filhos menores à sua guarda:

“Ninguém vai deixar de viver as suas vidas, não é o que se pretende”

Ainda o covid-19 estava só na China, identificado na cidade de Wuhan em dezembro de 2019, e já Nuno Vilaranda sentia que íamos ficar em maus lençóis. Foi sempre assim, previdente, um homem que dá a máxima atenção ao mundo à sua volta para ter um mínimo de invulnerabilidades. Bem reza o ditado que pai prevenido vale por dois e ele que o diga, sobretudo desde que se divorciou há 11 anos e ficou com a guarda exclusiva dos filhos, Daniel de 14 anos e Leonor quase com 12, a sua família. De forma que protegê-los desta pandemia até podermos finalmente respirar de alívio é agora a maior preocupação que tem na vida.

“Sou o único garante dos meus filhos, então terei de puxar dos meus galões de pai e pô-los à frente do trabalho, como é óbvio”, afirma o militar da GNR em Évora, dividido entre os seus dois maiores orgulhos por força das circunstâncias.

“Irei sempre ajudar a população, porque foi esse o juramento que fiz à bandeira e adoro a minha profissão, mas isto apenas se tiver a situação dos meus filhos salvaguardada à partida, o que não é nada fácil de gerir”, sublinha. Sobretudo quando se pertence, como ele, a um destacamento de intervenção que usa da força para repor a ordem pública: pode ser chamado a lidar com uma ocorrência e acabar infetado ou de quarentena.

“Temos de estar serenos para ir reagindo às coisas à medida que surgem, consoante a gravidade”, defende o militar Nuno Vilaranda.

“Logo que as escolas fecharem, os dois ficam em casa com os avós maternos – é seguro se não houver contágio –, a respeitar o isolamento, tentando minimizar os danos de propagação do novo coronavírus”, explica Nuno Vilaranda, pragmático.

Já ensinou aos filhos como lavarem as mãos, o que devem ou não fazer, o porquê de nada disto ser uma brincadeira, apesar de não haver motivos para pânico. Ao estúdio de tatuagens que tem em Évora (é artista há muitos anos nas horas vagas), encerrou-o temporariamente por uma questão de responsabilidade, o que também lhe deixa mais tempo para cuidar das crianças.

“Se entretanto ficarem infetadas ou alguém de quarentena, estipulámos que o primeiro piso da nossa casa serve como espaço de isolamento, e já temos as máscaras, os produtos de desinfeção, a despensa recheada para um mês”, diz o militar.

Se por acaso os infetados forem ele ou a namorada – que é enfermeira e já teve de dar o seu nome para ficar de prevenção –, então os miúdos irão para a casa que estiver livre da ameaça do vírus, mesmo que isso implique serem os avós a tomar conta dos netos.

“Ninguém vai deixar de viver as suas vidas. Não é o que se pretende”, garante o pai. Temos é de estar serenos para ir reagindo às coisas à medida que surgem, consoante a gravidade, diz.

João Silva covid-19

João Silva – enfermeiro de Viana do Castelo, duas filhas na escola:

“Temos que tomar precauções muito sérias com toda a calma”

Com a maioria dos casos confirmados de infeção por covid-19 a concentrarem-se na região norte, o tiquetaque dos segundos ecoa dentro da cabeça de todos em Viana do Castelo. Começa logo pela do enfermeiro João Silva, pai de duas filhas de 12 e 16 anos, já à espera de ver as escolas encerrarem.

“Tivemos um caso positivo na academia de música que a minha mais nova frequenta, um professor, mas conseguiram triar-lhe os passos e só puseram de quarentena dois ou três professores e quatro alunos com quem esteve”, conta o profissional de saúde, atento a novos desenvolvimentos. Ainda assim, estava tudo na iminência de fechar as portas, sentia-se isso. “Mesmo quando as últimas diretrizes sugeriam uma avaliação caso a caso”, diz.

Pais e filhos aguardavam, então, esta decisão de se fechar as escolas a partir de segunda-feira, tão expectantes uns como os outros quanto à evolução rápida do número de infetados, embora os adultos se mostrassem bastante menos entusiasmados do que as crianças, atendendo a que os idosos são os mais afetados pelo coronavírus e não seria bom pedir-lhes que cuidassem dos netos se ficassem sem aulas.

“Connosco, o facto de a minha mulher ser nutricionista e ter desmarcado consultas deixa-nos margem para ser ela a acompanhar as miúdas, ao passo que eu ficarei mais disponível para o trabalho no hospital”, diz o enfermeiro da Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM).

“Acho que há gente demasiado preocupada e gente demasiado descontraída”, considera o enfermeiro João Silva.

Enquanto isso, faz exatamente o que aconselha aos outros diante das proporções galopantes do surto: lavar as mãos com frequência; evitar locais com grandes aglomerados; manter as distâncias de segurança das pessoas (cerca de um metro e meio); evitar os cumprimentos com apertos de mão, abraços e beijinhos, especialmente difícil por sermos um povo de muitos afetos. “Não dá para facilitar nesta fase. Não acontece só aos outros”, alerta o enfermeiro, coordenador de um projeto de telemedicina em Viana do Castelo que envolve a vigilância, à distância, de pacientes com doença pulmonar obstrutiva crónica de risco elevado.

“Vemos as praias e esplanadas a abarrotar e nem percebemos que, com estas atitudes, a doença irá propagar-se de modo exponencial”, reforça, a prever um aumento de infetados e casos de quarentena na parte do seu trabalho que envolve a hospitalização domiciliária.

Por outro lado, as corridas loucas ao papel higiénico e enlatados revela o stress em que anda o país. “Acho que há gente demasiado preocupada e gente demasiado descontraída”, conclui. E isto quando temos é que tomar precauções muito sérias com toda a calma.

Marta Moncacha covid-19

Marta Moncacha – quatro filhos, em regime de teletrabalho:

“O meu maior medo é saber-se ainda tão pouco deste vírus”

Os últimos três dias fizeram Marta Moncacha sentir que tropeçámos todos na cena de um filme de contágio, com escolas a fecharem, prateleiras vazias nos supermercados e a empresa onde trabalha (Carla Rocha Comunicação) a dar orientações muito recentes aos trabalhadores para começarem em teletrabalho.

Na verdade, antes do covid-19 já davam bastante formação online, a formandos de fora de Lisboa e até de fora do país, pelo que não é uma completa novidade. Marta também dá atendimento presencial e à distância a mulheres em situação de separação e divórcio, de forma que é só passar tudo para o modo online.

“Como imagina, dá-me um tremendo conforto e uma imensa segurança poder ficar com eles em casa aconteça o que acontecer”, admite a autora do blogue Dolce Far Niente e mãe de quatro filhos com 18 anos, 15, 12 e três anos e meio, todos em escolas do concelho de Oeiras, onde moram.

“Temos uma enorme rede familiar de apoio, com avós maternos e paternos reformados que estão sempre disponíveis, mas do que achamos que sabemos do novo coronavírus estão naquela faixa etária de maior risco, pelo que às tantas a solução seria parte do problema”, diz.

“Quando nos mandam trabalhar em casa e fecham as escolas, percebemos que temos mesmo de ser mais responsáveis”, diz Marta Moncacha.

E sendo assim, Marta Moncacha fica muito sossegada por saber que pode trabalhar a partir de casa neste contexto novo em que os pais, tal como as autoridades, têm de tomar decisões em tempo real.

“Ainda há poucos dias insistia com os meus filhos para lavarem as mãos, mas não pensava nisto como a pandemia grave que se está a revelar no momento, até porque não queria ninguém em pânico”, diz. A começar pelos seus próprios pais, já a fazerem filmes de terror na cabeça. Era ela quem servia de contraponto e recomendava que não se enervassem, muita calma, nada de exageros. Agora, sim, está mais preocupada.

“O meu maior medo é saber-se ainda tão pouco deste vírus, pelo que quando nos mandam trabalhar em casa, fecham as escolas e vemos os riscos de andar de transportes públicos, percebemos que temos mesmo de ser mais responsáveis”, concede Marta Moncacha, que todos os dias apanhava comboio e metro entre Oeiras e Lisboa, a horas de ponta.

Sem ser alarmista, reconhece que estas consequências concretas na vida familiar fazem mossa. Especialmente tendo uma amiga em Roma a dizer-lhe “Marta, atenção que há 15 dias em Itália nós estávamos como vocês estão agora, por favor cuida-te”. É o que tenciona fazer, pela família. Segura de que tudo irá correr pelo melhor.

Para isso, é importante seguir à risca as recomendações da Direção-Geral de Saúde.

Estas medidas são suficientes para evitar a ocorrência e propagação do vírus em qualquer parte do mundo, segundo a DGS:

» Lave frequentemente as mãos com água e sabão, esfregando-as bem durante pelo menos 20 segundos.

» Reforce a lavagem das mãos antes e depois de preparar alimentos, antes das refeições, após utilizar a casa de banho e sempre que as mãos estejam sujas.

» Em alternativa para a higiene das mãos, use uma solução à base de álcool.

» Para assoar-se, prefira lenços de papel (de utilização única).

» Deite os lenços usados num caixote do lixo e lave as mãos de seguida.

» Tussa ou espirre para o braço com o cotovelo fletido, não para as mãos.

» Evite tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos sujas ou contaminadas com secreções respiratórias.

» Pessoas que regressem de áreas afetadas devem estar atentas ao aparecimento de febre, tosse e eventuais dificuldades respiratórias.

» Caso estes sintomas surjam, não se desloque aos serviços de saúde. Ligue antes para o SNS24 – 808 24 24 24 – e siga as orientações que lhe forem dadas. Por regra, não se recomenda o isolamento de pessoas sem sintomas.