Cuidadores informais: «Estas pessoas têm que ter mais ajudas, mais dignidade»

Maria dos Anjos Catapirra, presidente da mesa da Assembleia da Associação Nacional de Cuidadores Informais, diz que há pessoas a viverem sem condições porque têm de apoiar familiares e amigos próximos que não têm como viver sem a sua ajuda. Que apoios se esperam do Estado e como (sobre)vivem estas famílias?

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia iStock

Maria dos Anjos Catapirra, presidente da mesa da Assembleia da Associação Nacional de Cuidadores Informais, defende que é urgente o debate sobre os apoios aos cuidadores informais. «Existe uma grande falta de apoio e reconhecimento público para com os cuidadores informais. Há pessoas com níveis de pobreza dramáticos. Acabam por viver dos subsídios e pensões das pessoas que cuidam que são muito escassos», diz.

O III Patient Day – evento que pretende apoiar associações de doentes em Portugal – realizou-se hoje sob o mote «Cuidadores Informais». A evolução e os principais desafios para o futuro, bem como, a concretização do estatuto do cuidador informal foram alguns dos temas debatidos na iniciativa.

A 27 e 28 de setembro irá realizar-se também uma vigília em frente à Assembleia da República, em Lisboa, promovida pela Associação Nacional de Cuidadores Informais, para se considerar os apoios a estas pessoas.

«Existe uma grande falta de apoio e reconhecimento público para com os cuidadores informais. Há pessoas com níveis de pobreza dramáticos»

Os dados mais recentes indicam que existem 827 mil cuidadores em Portugal, dos quais 207 mil a tempo inteiro. Um estudo divulgado pela Entidade Reguladora da Saúde indica que Portugal é o país da Europa com a maior taxa de cuidadores informais.

Ainda assim, a presidente da mesa da Assembleia acredita que o número de cuidadores informais é bastante superior e diz que, ao contrário de Portugal, a maioria dos países da Europa tem apoios destinados especificamente aos cuidadores.

«Em Inglaterra, França ou Bélgica existem apoios designados para os cuidadores informais», frisa, acrescentando que têm que existir mecanismos para apoiar tanto nas despesas diárias, como na formação para ser cuidador e ainda ajudas para lidar com a morte dos doentes que estiveram a acompanhar.

Quando os doentes morrem é como se os cuidadores ficassem sem nada. Dedicaram muito tempo a cuidar e precisam de ser acompanhados psicologicamente», diz Maria dos Anjos, também ela cuidadora, da irmã, diagnosticada com Alzheimer aos 48 anos.

«Consideramos na associação que é importante o cuidador ter o mínimo de dignidade e por isso deve ter um subsídio para viver. É também importante que existam mais formações para estas pessoas, que de repente se deparam com uma doença que muitas vezes desconhecem. E depois é preciso avaliar algo em que as pessoas não pensam muito: quando os doentes morrem é como se os cuidadores ficassem sem nada. Dedicaram muito tempo a cuidar e precisam de ser acompanhados psicologicamente», explica Maria dos Anjos, também ela cuidadora, da irmã, diagnosticada com Alzheimer aos 48 anos.

Nessa altura, sentiu o dever de ajudar a irmã, que tinha a seu encargo três filhos, «dois dos quais menores [com 14 anos]». Sem respostas das instituições que contactou, Maria dos Anjos teve que usar o seu dinheiro para «tomar conta dela e dos filhos».

Maria dos Anjos Catapirra mudou totalmente a sua vida depois de a irmã ter sido diagnosticada com Alzheimer.

«Tive que pagar uma formação para conhecer a doença e qual a melhor forma de lidar com a situação, paguei os instrumentos inerentes aos cuidados a um doente com Alzheimer e ainda paguei tudo o que estava relacionado com a formação dos meus sobrinhos», explica à DN Life.

«A sociedade e o governo não se envolvem neste tipo de problemas e infelizmente isto é muito grave», conclui Maria dos Anjos.

A Associação Nacional de Cuidadores Informações continua a lutar pelo reconhecimento do estatuto de cuidador informal, estatuto esse que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, defende e que espera ver realizado «antes do final da legislatura».

«Em 2018, em pleno Estado Social, fazer de conta que não existem os cuidados informais e os que por eles são acompanhados é não só um erro imperdoável, é um atropelo incompreensível a um valor fundamental que se chama respeito pela dignidade humana. Acredito que, antes do final da legislatura, haverá um estatuto do cuidador aprovado na Assembleia República. (…) Será uma vitória da Constituição, do Estado Social, da Justiça, de um Portugal menos desigual e mais justo», disse no passado sábado o Chefe de Estado português.

A 27 e 28 de setembro a Associação Nacional de Cuidadores Informais convida todos os interessados a participar na iniciativa de luta pela aprovação do estatuto junto à Assembleia da República.

NOS DIAS 27 e 28 DE SETEMBRO JUNTEM-SE A NÓS NA VIGÍLIA JUNTO À ESCADARIA DA ASSEMBLEIA DA REPUBLICA.PELA APROVAÇÃO DO ESTATUTO D CUIDADOR INFORMAL!

Publicado por Associação Nacional Cuidadores Informais em Terça-feira, 11 de Setembro de 2018