Da criatividade ao autoconhecimento: os benefícios de estar só

Da criatividade ao autoconhecimento: os benefícios de estar só
Ricardo Beja, de 42 anos, vive sozinho. No início não foi uma escolha, mas depois passou a ser. (Foto de Maria João Gala/Global Imagens)

A solidão é considerada a nova epidemia das sociedades modernas. Vários estudos têm vindo a demonstrar os danos do isolamento social na saúde: diabetes, doenças cardiovasculares, problemas de sono, morte prematura. Mas passar tempo sozinho também pode trazer muitos benefícios para a vida pessoal e profissional. Desde que seja uma escolha consciente.

Texto de Joana Capucho | Fotografia de Maria João Gala/Global Imagens

Há mais de duas décadas que Ricardo Beja, de 42 anos, vive sozinho. No início não foi uma escolha, mas depois passou a ser. “Gosto muito de estar sozinho, mas num sítio onde rapidamente possa socializar com outras pessoas”, conta o engenheiro mecânico.

Procura estar regularmente com amigos e conhecidos, mas passa muito tempo só. A trabalhar, por exemplo, só está acompanhado 30% do tempo. E sente que é mais produtivo quando está sozinho. “Apercebo-me que consigo fazer muito mais coisas. A rentabilidade é muito maior”.

Para quem escolhe passar tempo sozinho de forma consciente, a investigação diz que existem inúmeros benefícios – quer para a vida profissional quer para o bem-estar emocional dos indivíduos.

As ideias – “o embrião” – costumam surgir nesses momentos de solidão, embora evoluam e se materializem quando as partilha. “Os outros abrem-te o espaço criativo”, sublinha. O estar só, prossegue, permite também conhecer-se melhor: “Quando estás sozinho, avalias-te. Ficas com uma consciência muito grande. Sabes do que precisas, das tuas fraquezas e qualidades. Evoluis muito no autoconhecimento, porque quando estás rodeado de pessoas diverges e perdes consciência”.

Tal como Ricardo, há pessoas que não veem os momentos de solidão como uma fonte de tristeza, mas de oportunidades. Os casos graves e involuntários de solidão – considerada por alguns a nova epidemia do século – têm vindo a ser associados ao aparecimento de doenças cardiovasculares, diabetes, problemas de sono, entre outras. Mas, para quem escolhe passar tempo sozinho de forma consciente, a investigação diz que existem inúmeros benefícios – quer para a vida profissional quer para o bem-estar emocional dos indivíduos.

“Tendemos a ficar um pouco assustados com a ideia de solidão, porque vemos a solidão no sentido de isolamento, de alienação, com medo dos outros, um medo de rejeição. Mas a solidão pode muito bem não ser abandono, isolamento, não ser alienação. A solidão é a capacidade de ficar sozinho ou estar solitário, de ser um – sem estar perdido no nosso relacionamento com as outras pessoas”, diz Vítor Bertocchini, presidente da Sociedade Portuguesa de Meditação e Bem-Estar (SPMBE).

Os seres humanos são “uma espécie social, que exponenciam as suas capacidades quando vivem e trabalham em pequenas equipas”. Por isso, quando não há conformidade com as normas dos grupos em que os indivíduos se inserem, as pessoas acabam “vulneráveis, deprimidas, solitárias e às vezes suicidas”. E é neste sentido que a solidão pode ser patológica. Contudo, diz o psicólogo, a capacidade de escolha faz toda a diferença. “É uma decisão dos outros, do grupo ou parte da própria pessoa? Quanto maior a possibilidade de escolha consciente menor impacto negativo terá a solidão”.

Impulsiona a criatividade

Para ter grandes ideias, será preferível passar algum tempo sozinho do que estar rodeado de pessoas, a saltar de reunião em reunião e agarrado ao telemóvel. Ao longo dos anos, o afastamento social (voluntário, note-se) tem vindo a ser associado à criatividade.

Julie Bowker, psicóloga na Universidade de Buffalo (EUA), conduziu um estudo que concluiu que a insociabilidade – preferência pela solidão – pode ter um efeito positivo na criatividade.

Algo que Gregory Feist, professor de psicologia da Universidade Estatal de San Jose (EUA) também defende: as pessoas mais criativas têm menos vontade de socializar, sendo a solidão de extrema importância para o processo criativo.

“Crianças e jovens deviam ser educados para ter uma relação natural com a solidão” – e não cair na tal solidão patológica.

Adalberto Dias de Carvalho, presidente do Observatório da Solidão do ISCET – Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo, lembra que “há artistas, criadores, filósofos que procuram o isolamento para os momentos de reflexão, de criação estética”.

Falamos de uma espécie de solidão positiva. “Mas esse isolamento, que conduz à criatividade, também passa muitas vezes por sofrimento, que não tem de ser trágico. A criatividade filosófica, estética, é uma busca de sentido, sabendo nós que, sempre que encontramos o sentido, aparecem mais campos de mistério”.

Defende que a solidão faz parte da vida: é experimentada no momento do nascimento, quando se toma consciência da separação – aos 3 anos -, na adolescência, em diferentes fases da idade adulta, na morte. Por isso, “crianças e jovens deviam ser educados para ter uma relação natural com a solidão” – e não cair na tal solidão patológica.

Os retiros de mindfulness oferecem “uma possibilidade, um treino, de solidão – em que se valoriza o papel do silêncio enquanto promotor de maior espaço mental e de uma regulação emocional mais eficaz”.

Vítor Bertocchini diz que “nas grandes tradições espirituais a prática da solidão foi incentivada, por vezes durante anos em retiros de silêncio com enormes benefícios – sendo um fator importante para o despertar”.

Os retiros de mindfulness, de silêncio, que organiza e nos quais participa, oferecem “uma possibilidade, um treino, eu diria, de solidão – em que se valoriza o papel do silêncio enquanto promotor de maior espaço mental e de uma regulação emocional mais eficaz”.

E é daí que “advém a possibilidade de uma maior criatividade. Uma mente mais tranquila, mais clara, mais conhecedora da sua própria forma de funcionamento, menos perturbada pelos eventos internos e externos”.

Reforça as relações

Ricardo Beja reconhece que nem tudo é positivo quando se passa muito tempo sozinho. Refere, por exemplo, o facto de “só fazeres o que te apetece e não estares habituado e ceder” e de teres menos rotinas, o que pode ser prejudicial para a vida em sociedade. Mas, no que diz respeito às relações, considera que “o estar sozinho aumenta a sensibilidade. Quando estás com a pessoa, é como se estivesses sempre enamorado”.

Uma ideia que tem vindo a ser defendida pelo sociólogo Eric Klinenberg [que já foi entrevistado pela DN Life – leia aqui], professor da Universidade de Nova Iorque que se tem dedica ao estudo dos que moram sozinhos: quem vive só desfruta de relações com mais qualidade e tende a investir mais nos seus relacionamentos.

E existem outras investigações que apontam no mesmo sentido. O El País lembra um estudo de Erin Cornwell, da Universidade Cornell, em Ítaca (Nova Iorque), que revela que pessoas com mais de 35 anos que moram sozinhas têm maior probabilidade de sair com amigos que as que vivem como casais.

Quanto mais solitários podemos estar, de forma consciente, realmente maior é o nosso sentido de conexão com outras pessoas.

“A pessoa que vive só, que não se relaciona tão facilmente, tem tendência a procurar os outros onde eles estejam. Socializa de outra maneira”, refere Adalberto Carvalho, destacando que “as relações próximas, de reciprocidade, conseguem-se com apenas duas a três pessoas”.

Quando há um certo gosto pela solidão, “nas poucas relações que se tem, há menos alienação e maior valorização da representação que faço dos outros e que os outros fazem de mim”.

Para Vítor Bertocchini, há um paradoxo interessante neste campo: “Quanto mais solitários podemos estar, de forma consciente, realmente maior é o nosso sentido de conexão com outras pessoas. E, na verdade, só podemos ter um profundo relacionamento com os outros quando tivermos aprendido a ser solitários”.

Aumenta a produtividade e consolida a memória

Susan Cain, autora do livro Silêncio – O poder dos introvertidos num mundo que não para de falar, tem vindo a defender o potencial dos introvertidos nas empresas. Assegura que os bons empreendedores não têm medo da solidão, pois esta permite-lhes agir de forma criativa e original. Vários outros sociólogos e psicólogos admitem que a solidão pode potenciar o foco mental e a produtividade, já que implica menos distrações para o cérebro. E também tem benefícios ao nível da memória.

O diretor do Observatório da Solidão explica porquê: “No isolamento criativo, aquilo que nos marca, o que está gravado na memória [e que nem sempre se recorda] condiciona imenso o que penso. Se o isolamento for prolongado, mais forte, permite trazer à recordação aquilo que estava esquecido na memória”.

É por isso, diz Adalberto Carvalho, “que há muita gente que não gosta de estar só, porque estarmos sós confronta-nos connosco e com as nossas memórias”.

Promove o autoconhecimento

Há quatro anos que Joanne Palma, 51 anos, participa em retiros de silêncio. Chama-lhes “retiros de reset“. Para esta psicóloga, a solidão “é absolutamente essencial: não estamos sozinhos, estamos verdadeiramente connosco”. Na correria do dia-a-dia, “não temos tempo para estar connosco mesmos, mas o silêncio permite-nos isso”. São momentos “de autodescoberta”.

Além do retiro anual de silêncio, Joanne procura ter momentos de solidão no seu quotidiano. Medita entre 20 a 40 minutos por dia e faz pequenas pausas sozinha – “bolhas de oxigénio para fazer um check-in comigo e sentir os pés no chão”. Práticas que têm sido transformadoras, reconhece. “Ficamos mais produtivos, mais criativos, mais abertos”.

Vítor Bertocchini diz que “quando estamos muito ocupados a fazer muitas coisas torna-se muito difícil verdadeiramente conhecermo-nos”. “Considero muito útil cultivar momentos de solidão, sair e ficar sozinho. Dar um passeio na floresta ou num espaço com horizonte aberto ou ir até à praia ou simplesmente fechar a porta do quarto e ficar por uns momentos em solidão”, sugere.

Estar isolado de pessoas – a solidão física – “pode, por vezes, resolver as coisas, esclarecendo e destacando o que está realmente a acontecer na nossa vida”. Se quiser um desafio maior, Vítor convida-o a participar no próximo retiro de silêncio organizado pela SPMBE, que irá decorrer em outubro.