Dentro da gigante «casa» da IKEA

Grande parte das famílias portuguesas (à semelhança de muitos milhões pelo mundo inteiro) têm em casa móveis, brinquedos ou objetos da IKEA. É aqui que eles são pensados, desenhados e testados. Visita ao centro de design do famoso fabricante sueco de mobiliário barato e prático, numa pequena vila onde mais de metade dos nove mil habitantes trabalham para a empresa.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens

Colocamos a seguinte questão ao leitor: quantas peças IKEA tem em casa? Das camas às cómodas, secretárias, candeeiros e até plantas, é difícil encontrar quem nem um garfo ou um copo tenha da marca sueca.

Os números podem dar uma ajuda. Em 2017, o IKEA Group vendeu 34,1 mil milhões de euros em todo o mundo, com 355 lojas espalhadas por 29 países. São muitas, mesmo muitas, almofadas e prateleiras. Como explicar este sucesso? Indo à origem.

Durante os já 75 anos da empresa, a sede nunca saiu da pequena vila de Älmhult (8500 metros quadrados e cerca de nove mil habitantes). A força motora da localidade é a IKEA, que alberga 4700 trabalhadores, distribuídos por treze unidades de negócio. Entre as famosas almôndegas e o salmão fumado, esta equipa trabalha diariamente para encontrar novas soluções de design e decoração. Por ano, são criados cerca de dois mil produtos novos e a exigência é cada vez maior. Por isso, são feitos estudos anuais para avaliar como é que as pessoas pensam a sua casa e como essa relação tem evoluído ao longo do tempo.

«Agora vivemos em espaços abertos em que o trabalho, a brincadeira e o lazer se juntam»

Se antes havia hierarquização e divisão dos espaços por género (mulher na cozinha, homem no escritório), hoje a vida num loft é o oposto desse conceito. «Uma sala de estar era a representação da família e, inclusive, as crianças não podiam ir para lá. Agora vivemos em espaços abertos em que o trabalho, a brincadeira e o lazer se juntam. Existe uma diversidade cada vez maior dos tipos de famílias (monoparentais, pais separados, pais do mesmo sexo, etc.) e da forma como estas pessoas vivem a sua casa. Nós tentamos acompanhar e oferecer soluções», explica Helen Duphorn, diretora-geral
 da IKEA Portugal.

Segundo uma pesquisa feita pela IKEA a nível mundial, 49 por cento das pessoas admitem que a grande causa das discussões domésticas reside nas opiniões distintas em relação à arrumação. Em Portugal, 58 por cento das pessoas admitem discutir por causa da casa e 46 por cento dizem não se sentir confortáveis em definir limites espaciais com a pessoa com quem vivem. Mas o número mais alarmante talvez seja este: nove por cento das pessoas sentem que nunca estão «mentalmente presentes» em casa.

Por «design democrático» entenda-se os cinco princípios que regem toda a criação: forma, qualidade, baixo preço, função e sustentabilidade

A forma como encaramos o nosso espaço particular influencia a capacidade de descanso e de «desligar». James Futcher, creative leader da IKEA, na Suécia, garante que «a casa que estamos a criar é um lar aberto, sem muitas portas, em que as crianças podem estar em qualquer lado. Se seguirmos os propósitos do “design democrático” que rege o nosso trabalho, conseguimos que as pessoas se sintam realmente bem».

Por «design democrático» entenda-se os cinco princípios que regem toda a criação: forma, qualidade, baixo preço, função e sustentabilidade. Esta última tornou-se uma das principais bandeiras da empresa. Tornar os lares não só adequados às novas realidades socioculturais, mas também mais sustentáveis é o grande objetivo dos próximos anos. E não vamos demorar muito a ver resultados.

Marcus Engman, o chefe dos designers

«Há três coisas que consideramos sempre em tudo o que aqui é feito: famílias com crianças, espaços pequenos e organização da vida», diz o head of design. «Estas são as três questões fundamentais para toda a gente, não importa em que parte do mundo viva. Preocupamo-nos também em tornar as coisas acessíveis para as carteiras e os pais. Quando tive o meu primeiro filho (hoje, tenho três), de repente, alguém que vivia bem vê-se sem dinheiro. Estamos a pensar também nessas pessoas.»

James Futcher, o chefe dos criativos

«Trabalho na IKEA há vinte anos», diz o creative leader. «Comecei no Reino Unido, fui para os EUA, para a área de design de interiores das lojas que estávamos a abrir no mercado de lá. Até que recebi o telefonema para vir integrar a equipa de desenvolvimento de produto na sede, na Suécia. Pensei que era a minha grande oportunidade.

Na altura a minha mulher estava grávida e não foi fácil convencê-la a deixar os EUA. Não sabia muito sobre o país e muita gente desaconselhou-nos, mas a verdade é que a nossa vida melhorou. As minhas filhas eram muito novas. Sylvie tem agora 14 anos e tinha pouco mais de um ano e a Lana, que tem 12, tinha 5 meses. Cresceram a subir a árvores, na natureza. No início, foi difícil para a minha mulher porque ela deixou o trabalho e não falava a língua. Mas aprendeu depressa e começou a trabalhar na IKEA, foi subindo e hoje estamos muito felizes. Conhecemos muita gente na mesma situação e tornámo-nos uma comunidade.»