Das escolhas e das palavras que não ficam por dizer

Não foi uma decisão fácil. Nem tomada de ânimo leve. Quando, na preparação da reportagem de capa desta semana, surgiu a ideia de eu ser um dos progenitores que dariam o seu testemunho sobre a condição de «pai recém-nascido», comecei por achar estranho. Desconfortável. Ser objeto de atenção pelas minhas opiniões (e emoções), pela minha imagem e pela imagem da minha filha na própria revista onde trabalho e onde tenho responsabilidades editoriais soou-me muito esquisito. Não se vê. Não se pratica. Não é costume. E, além disso, há aquela velha regra de jornalismo que lembra, em caso de dúvida, que «jornalista não é notícia». Não é que concorde com a máxima, mas ela existe. Depois, porém, as coisas encaixaram-se. As ideias encaixaram-se. Os argumentos encaixaram-se. E eu, que acho que a regra da velha escola deve ser quebrada sempre que se prove que há interesse para o leitor, encaixei também.

O pior veio depois… Estou habituado a escrever sobre comportamentos. A observar hábitos e tendências e a transformar ideias em palavras sobre relações. E, não raras vezes, escrevo sobre a minha família. Sobre as minhas filhas. Se daí se pode tirar uma ilação qualquer e, sobretudo, se a partir daí se pode contar uma história em que os leitores se possam rever e em que fiquem a pensar, eu escrevo. Mas neste caso… Neste caso foi diferente. O texto original da página 37 – entretanto adaptado pela Célia Rosa para ser coerente com os restantes depoimentos recolhidos pela jornalista para aquela reportagem – saiu a ferros. A fórceps, neste caso.

Comecei a escrevê-lo às quatro da manhã do dia em que a minha filha Madalena completou dois meses (uma semana antes de esta revista chegar aos leitores). Até essa hora tinha lamentado vezes sem conta o momento em que tinha dito sim àquilo. Nas cinco horas anteriores escrevi e apaguei uns cinco ou seis parágrafos. E muitas, muitas frases soltas. E por cada uma que apagava, ficavam-me na cabeça todas as pistas que podia agarrar a partir dali para escrever, afinal, o que era preciso: o que é que eu senti quando me tornei pai? Não é coisa que se condense em três mil carateres de texto numa madrugada de domingo, pois não? Além disso, as minhas filhas um dia vão ler o que está ali. Aquelas palavras todas. Talvez o façam num iPad ou noutro qualquer formato distante desta coisa arcaica chamada revista, impressa neste estranho material chamado papel, mas o que está ali escrito já não muda. E isso, essa sensação de perda de efémero – apesar de nenhum jornalista ter ilusões sobre o facto de este papel servir, também, para embrulhar o peixe e forrar a gaiola do periquito, no dia seguinte –, esta ideia de que as letras impressas ficam gravadas, isso engasgou-me os dedos e faz-me vacilar tantas vezes.

Ser pai é também um pouco disso: de escolhas. E de momentos de vacilação. Escolher as palavras certas para dizer às minhas filhas quando elas tiverem dúvidas sobre o que quer que seja. Escolher as frases acertadas para as orientar numa educação equilibrada, num misto de improviso e preparação. Escolher as palavras certas a que elas um dia possam recorrer em memória e que as possa ajudar a tomar decisões para a vida delas. Escolher as palavras certas para dizer neste ou naquele momento, nesta ou naquela situação, perante este ou aquele desafio. É que um dia, num futuro não muito longínquo, elas terão os seus próprios desafios.

E pode ser que as palavras do pai – as que foram ditas ou as que ficam escritas – sirvam para alguma coisa. Para o pai serviram. Serviram para nascer como pai.

[Publicado originalmente na edição de 16 de março de 2014]