De que serve um adulto morto a uma criança em apuros?

Como podemos cuidar dos outros, se mal conseguimos respirar?

Escolhemos alguém para amar, e é nessa pessoa que depositamos o nosso carinho, mimos e atenção. A quem nos dedicamos e em quem investimos sem esperar nada em troca.

Decidimos (ou o destino decide por nós) ter filhos e é a eles que nos entregamos. De uma forma incondicional, estamos sempre presentes e disponíveis, com um amor que extravasa tudo aquilo que possa ser imaginado.

Rodeamo-nos de família e amigos, os nossos portos seguros que nos ancoram e, ao mesmo tempo, nos impulsionam para dar. E damos de nós, sempre.

Escolhemos profissões que nos apaixonam e a elas dedicamos também aquilo que somos. Trabalhamos dias e horas sem fim, entregues a projectos, desafios, clientes e doentes.

E cuidamos. De formas diversas, cuidamos de quem nos rodeia.

Recordo agora as instruções de segurança a bordo dos aviões. Para além das saídas de emergência, dos coletes e dos cintos, somos instruídos sobre como e quando devem ser colocadas as máscaras de oxigénio. Primeiro os adultos colocam as máscaras em si próprios e, só depois, as colocam nas crianças.

“Estranho”, pensei eu na primeira vez que ouvi tal coisa. “Então as crianças não deviam receber as máscaras de oxigénio em primeiro lugar?”

Este talvez seja o pensamento imediato que temos perante estas instruções. Crianças em primeiro lugar. No entanto, as crianças apenas poderão ser ajudadas a sobreviver se os adultos que as rodeiam estiverem bem: vivos e a conseguir respirar. De que serve um adulto morto a uma criança em apuros?

Se nos assumimos como cuidadores, sendo que o podemos fazer de tantas formas, temos de assumir também que cuidar de nós mesmos é uma prioridade. Sob pena de tudo aquilo que fazemos ficar claramente comprometido.

Se aplicarmos esta regra das máscaras de oxigénio ao nosso dia-a-dia, rapidamente percebemos que andamos a fazer tudo ao contrário. Damos primeiro a máscara aos outros e ficamos para trás. E quando o fazemos de uma forma sistemática, pergunto, como cuidamos se mal conseguimos respirar? Como cuidamos quando a nossa saúde, física e mental, está em segundo plano? Como cuidamos quando, no fundo, precisamos que cuidem de nós?

Se nos assumimos como cuidadores, sendo que o podemos fazer de tantas formas, temos de assumir também que cuidar de nós mesmos é uma prioridade. Sob pena de tudo aquilo que fazemos ficar claramente comprometido.

Tirar tempo para nós não é um luxo. Descansar e fazer coisas que nos geram prazer é uma necessidade. Estar com as pessoas de quem gostamos, fazer coisas só porque sim, porque nos apetece e nos fazem sentir bem. Oferecer a nós próprios uma massagem, um passeio, um café numa esplanada, um bom livro ou um bom filme. Uma tarde no sofá ou no ginásio, um bolo de chocolate gigante ou outro mimo qualquer. Permitirmo-nos também olhar para dentro, perceber o que nos faz sentir mal e o que podemos mudar. Escolher outros caminhos, arriscar e se preciso for voltar atrás. Porque aprender com os erros também nos ajuda a crescer.

Por isso, faça uma pausa e coloque a sua máscara de oxigénio.
Acabei de colocar a minha.


Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, a crónica segue as regras do antigo Acordo Ortográfico.