Deixe-se de preocupações: a maioria delas nunca vai acontecer, diz estudo

preocupações

Estar alerta é importante e recomenda-se, mas não é o mesmo que viver apreensivo por tudo e por nada. Sobretudo quando preocupações a mais só trazem doença.

Texto DN Life

Custa a crer que o ser humano se preocupe tanto ao longo do dia: com eventuais zangas no trabalho, a bateria do carro, o trânsito que pode apanhar, o açúcar a mais nos iogurtes, o Brexit, a conta do gás, o que fará para o jantar, a natação dos miúdos, as alterações climáticas, a escassez de água, os pesticidas nos alimentos, a ideia de vir a ter um cancro devastador, ou Alzheimer, ou sofrer um acidente grave, ou ser despedido.

E isso quando a grande maioria do que nos aflige não chegará a acontecer, a avaliar por um estudo da Universidade Estadual da Pensilvânia, EUA, que descobriu que todos estes “e ses” diários nas nossas vidas consomem demasiada atenção desnecessariamente, tendo em conta que 91% das preocupações nunca irão ocorrer.

Excesso de angústia resulta em depressão e transtornos de ansiedade com maior frequência do que supomos.

Mais grave ainda do que deixarmo-nos consumir por elas a cada instante: excesso de angústia resulta em depressão e transtornos de ansiedade com maior frequência do que supomos, alerta a pesquisa norte-americana, sublinhando o impacto fulminante do stress na saúde de todos quantos vivem nas sociedades ocidentais. É urgente desligar o complicómetro, dizem.

“Há muito que as teorias da terapia cognitiva postulam que aqueles que sofrem de transtorno generalizado de ansiedade alimentam expectativas desajustadas em relação à vida em geral”, explicaram ao El País Lucas LaFreniere e Michelle Newman, investigadores em psicologia comportamental e os autores do estudo. Posto isto, a sua própria formulação era a de que se os confrontassem com provas objetivas desses desajustes, os sintomas iriam diminuir e traduzir-se numa melhoria significativa dos tratamentos.

E a teoria de LaFreniere e Newman confirmou-se, de facto: após acompanharem indivíduos com transtorno generalizado de ansiedade durante um mês, pedindo-lhes que anotassem as suas preocupações por escrito, muitos foram os que constataram que nem uma só se concretizou. Em média, segundo os investigadores, 91,4% das inquietações não se tornaram realidade, o que na prática levou à redução dos níveis de ansiedade e a uma melhoria do estado de saúde.

Preocupações são uma espécie de alarme que nos diz que um problema precisa de ser tratado.

Um resultado que, de resto, se aproxima muito do que dizia o locutor americano Earl Nightingale na década de 50, com base no seu interesse por questões existencialistas e de desenvolvimento do caráter humano: 40% do que nos preocupa jamais irá acontecer, 30% é passado e não nos permite alterar as preocupações, 12% são preocupações desnecessárias a respeito da nossa saúde e 10% são as aflições pequenas e desconexas. O que nos deixa com uns meros 8% de preocupações legítimas (menos de uma em cada dez) às quais lá teremos de dedicar alguma atenção.

Porque nascemos, então, programados para nos apoquentarmos? Qual o propósito desse estado?

Para o psicólogo clínico Frank Tallis, autor de Como Travar as Preocupações e Reduzir a Ansiedade (ed. Bookout), “pode funcionar como um alarme que nos diz que um problema precisa de ser tratado” – como quando pensamos que talvez tenhamos ofendido alguém com uma piada, por exemplo, e não descansamos até ir ter com a pessoa a pedir desculpa.

Ao mesmo tempo, também nos prepara para resolver esse problema, ou pelo menos para enfrentá-lo mais facilmente: “Se os pensamentos ou imagens relacionados com uma situação desagradável habitarem a sua mente, isso pode ajudá-lo a lidar com a situação quando esta realmente ocorrer”, esclarece Tallis, salientando o efeito positivo de se controlar, por antecipação, o estado de medo associado àquilo que receamos.

Em última análise, acrescenta o especialista, a preocupação é recorrente, desagradável, aflitiva, mas não forçosamente má: “Ela apenas se torna em algo de nefasto quando surge desnecessariamente ou se mantém por um longo período”, diz.