Deixem as crianças aborrecer-se!

Durante o ano lectivo as agendas dos miúdos rivalizam com as nossas e muitas há que as superam. Ao longo da semana, horas e horas na escola ou mesmo no jardim-de-infância, as explicações para que possam subir as notas (e, tantas vezes, uma subida que apenas tem de acontecer para que os pais possam exibir as notas, com orgulho, perante os seus amigos ou familiares) e as trinta mil actividades extra-curriculares.

A verdade é que raro é o dia da semana em que a criança tem “apenas” as aulas. Chegam a casa em cima da hora de jantar, banhos e trabalhos da escola, e caem extenuados na cama. Sem tempo para brincar. Sem tempo livre. Numa desarmonia total entre os tempos de sono, alimentação e exercício físico que os deixa esgotados e desorganizados.

Estamos em férias grandes, como se dizia no nosso tempo, e o que vemos nós? Uma preocupação gigante em ocupar o tempo das crianças.

Chega-se ao fim de semana e o calvário repete-se, com mais actividades extra-curriculares, explicações adicionais em período de testes e, claro, os aniversários de todos os amigos e conhecidos. Chegam a ser duas e três festas por dia… Também ao fim de semana existe pouco tempo livre e, quando o há, os pais preocupam-se em ocupá-lo, de forma quase obsessiva. Ai se a criança tem um intervalo de 2 horas sem nada programado!

Estamos em férias grandes, como se dizia no nosso tempo, e o que vemos nós? Uma preocupação gigante em ocupar o tempo das crianças. Porque os pais têm menos férias do que os filhos, é um facto, e há que entretê-los de alguma forma. Entre ateliers de tempos livres e campos de férias, com a agenda organizada ao minuto e cheia de actividades preparadas previamente, lá se vão passando as férias. As crianças apenas têm de cumprir o que está planeado.

Deixar as crianças sem fazer nada não é mau, muito pelo contrário. Porque o aborrecimento é mestre de engenhos.

No meio disto tudo, onde fica o tempo livre, mas verdadeiramente livre? Aquele tempo em que os miúdos se aborrecem de tanto fazer nada e em que têm de puxar pela imaginação para saberem o que vão fazer a seguir? Onde anda esse tempo precioso em que o aborrecimento acaba por ser um estímulo para a criação e a fantasia, fazendo de conta que se é isto ou aquilo, num mundo mágico que apenas existe na cabeça da criança?

Deixar as crianças sem fazer nada não é mau, muito pelo contrário. Porque o aborrecimento é mestre de engenhos. Uma criança aborrecida, mas mesmo muito aborrecida, sente a necessidade de inventar alguma coisa, sem limitar-se a seguir as instruções de uma caixa ou as orientações de um adulto.

Uma criança entediada terá de aprender a conviver consigo mesma. Falar para dentro, ouvir os seus pensamentos e sentir as suas emoções.

Deixem as crianças brincar sem tutoriais e experimentar o tédio e aquela sensação maravilhosa de “não tenho nada para fazer”. Porque são estes momentos que estimulam a necessidade em descobrir o mundo por si mesmas, com a curiosidade e a pró-actividade que, tantas vezes, as agendas coartam.

Em jeito de nota final, salientar que uma criança entediada terá de aprender a conviver consigo mesma. Falar para dentro, ouvir os seus pensamentos e sentir as suas emoções, num exercício fantástico de auto-descoberta e auto-conhecimento. Aprendendo que, no final de contas, a sua melhor companhia pode ser ela própria.