«Mais de um terço dos portugueses não tem todos os dentes»

O médico dentista João Tondela assegura que os hábitos dos portugueses ainda não estão suficientemente adequados à importância de uma boa dentição e considera que existem poucos apoios para a população mais idosa, precisamente a que precisa de mais cuidados médicos.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia ShutterStock

«Menos de um terço dos portugueses tem a dentição completa e a mais de 12 por cento faltam mais de oito dentes e mais de metade (57,4 por cento) decidiu não substituir os dentes em falta. Os dados são do barómetro da saúde oral em Portugal, realizado pela Ordem dos Médicos Dentistas em 2017.

No mesmo estudo, pode ler-se que «2,9 por cento dos portugueses nunca visitaram o dentista e 41,3 por cento não o fazem há mais de um ano». Para João Tondela, dentista do grupo Best Quality Dental Centers, estes números não são surpreendentes mas são alarmantes.

Fonte: Barómetro da saúde oral em Portugal de 2017, Ordem dos Médicos Dentistas

«Estes números traduzem a falta de educação na saúde oral dos portugueses, a falta de capacidade financeira e também a falta de noção da importância da boca. Ainda assim, quando as pessoas se deslocam ao dentista reconhecem que é importante ter uma boa saúde oral», diz o especialista à DN Life.

Para o dentista, o panorama português mostra «que há falta de educação e informação» naquilo que à saúde oral diz respeito, mas a tendência, segundo o médico, será de inversão. «Tenho esperança que as coisas vão mudar. Não sei se será já nesta década, mas penso que as pessoas vão habituar-se cada vez mais a cuidar da sua saúde oral».

Mas, afinal, com que frequências se devem fazer as consultas de rotina e porque são tão importantes?

João Tondela indica que, pelo menos, uma vez por ano deve fazer-se uma visita ao dentista, ajudando a diminuir a incidência de novas patologias. «Este tipo de hábitos pode diminuir a incidência de cárie, por exemplo, que é uma doença que surge com muita frequência», diz.

Só metade dos portugueses – voltando aos dados do barómetro da OMD – marca consulta para check-up uma vez por ano. 25,6 por cento não o faz ou fá-lo menos de uma vez por ano.

Fonte: Barómetro da saúde oral em Portugal de 2017, Ordem dos Médicos Dentistas

«Há pacientes portadores de próteses, por exemplo, que simplesmente não vão fazer revisão há anos. Essa ausência prejudica imenso a capacidade mastigatória».

Os casos mais preocupantes estão muitas vezes relacionados com pessoas mais idosas. «Há muitos fatores que condicionam as idas ao médico da população envelhecida: a falta de mobilidade, a falta de acessos, a escassez económica, entre muitos outros», esclarece o médico.

«Há uma percentagem de mais de 40 por cento da população que não substitui os seus dentes e que se vai acomodando a essa realidade. Tudo isto faz com que aumentem os custos com a saúde oral e exista perda de qualidade de vida», alerta João Tondela.

«Podem associar-se doenças gástricas e até obesidade à má dentição, porque os pacientes acabam por fazer dietas mais moles e mais calóricas»

Além disso, existem várias patologias que ocorrem precisamente pela falta de consulta de um especialista em saúde oral, sendo que as mais frequentes são o aparecimento de cáries, problemas gengivais com danos definitivos ou dificilmente irreversíveis, prejuízos nos tecidos de corte e, por fim, perda dentária.

O abandono dos tratamentos de restauração é também uma realidade dos utentes portugueses. «Só quando os dentes são visíveis é que as pessoas decidem recorrer a tratamentos restauradores. É uma ideia completamente errada».

Vejamos: «localmente, pode haver desgaste da dentição, deterioração estética e desenvolvimento de patologias musculares e do maxilar. Além destes, podem associar-se também doenças gástricas e até obesidade, porque os pacientes acabam por fazer dietas mais moles e mais calóricas», conclui o especialista.

Educar a higiene oral desde cedo

Fonte: Barómetro da saúde oral em Portugal de 2017, Ordem dos Médicos Dentistas

No caso das crianças, João Tondela considera que devem adotar-se hábitos relacionados com a higiene oral desde cedo.

«Qualquer hábito que se introduza desde cedo é melhor enraizado. A partir do momento em que têm dentes, as crianças podem começar a escovar os dentes», diz o especialista do grupo Best Quality Dental Centers

Nesta altura, indica ainda, os pais têm um papel de observação que é muito importante e «que nem sempre é feito da melhor maneira».