Detox digital: aproveite as férias para repensar a sua relação com o smartphone 

Responder a mensagens a conduzir. Pegar no smartphone para tirar uma dúvida rápida e ser apanhado no vórtice da internet por duas horas. Ignorar as crianças para ler um post de Facebook. Ver e-mails de trabalho durante o jantar. Quem nunca? Sim, transportamos o mundo no bolso, mas não estará a tecnologia a torná-lo mais pequeno?

Texto de Sofia Teixeira | Fotografia Shutterstock

No verão passado, Rita Jorge entrou na Offline House, em Aljezur, enfiou o seu smartphone num cacifo à chegada e só foi buscar cinco dias depois, na altura de regressar a Lisboa. A analista científica de 39 anos assumia-se como «uma super-agarrada à tecnologia, capaz de estar de televisão ligada, portátil ao colo e smartphone na mão», por isso, consciente deste uso que já lhe parecia excessivo, agradou-lhe a ideia de ir passar férias a um sítio que promove o conceito de «disconnect to reconnect» (desligar para voltar a ligar com a vida real) e convida os hóspedes a fazer um detox digital: o uso de smartphones e computadores portáteis não é bem-vindo no espaço.

Durante as férias na Offline House conversou com os outros hóspedes da casa (todos eles também sem smartphones); leu capítulos inteiros do livro que levava, sem interrupções, e adormeceu com mais facilidade. Mas desligar não só não foi imediato como foi penoso: os dois primeiros dias foram difíceis.

Pegamos no telemóvel 150 vezes por dia e tocamos no botão para ver o ecrã 2600 vezes

«Senti que havia momentos em que não sabia o que fazer com as mãos e já não estava habituada a estar aborrecida: o smartphone não nos deixa ter esses momentos. Mas estas dores de ausência e esta estranheza de não ter o que fazer também nos mostram a nosso nível de dependência.»

Os tempos médios de utilização do smartphone têm vindo a subir de ano para ano. O Brasil é o campeão: segundo dados de 2016, a utilização está perto das cinco horas diárias. Em Portugal, os tempos médios situam-se entre as duas horas e meia e as três horas diárias. Há estudos que nos dizem que pegamos no telefone mais de 150 vezes por dia e tocamos no botão para ver o ecrã umas estonteantes (e não percecionadas) 2600 vezes.

Apesar disso – e das implicações que comporta – o uso excessivo do smartphone não é considerado uma dependência. A American Psychiatric Association (APA) – que edita o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM) – e a Organização Mundial de Saúde (OMS) – que publica a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) – apenas consideram patologia, dentro deste âmbito, a dependência dos videojogos online.

Em Portugal, os tempos médios de utilização de um smartphone situam-se entre as duas horas e meia e as três horas diárias.

«Há uma banalização do termo “dependente de tecnologia”. Se alguém deixa o telefone em casa e fica preocupado por perder chamadas ou por não conseguir ver o email, rapidamente lhe chamam “dependente” ou “viciado”, mas isso não corresponde a uma definição clínica: a maioria das pessoas não é dependente de tecnologia», defende João Faria, psicólogo clínico do Núcleo de Intervenção na Internet e nas Telecomunicações do PIN- Progresso Infantil.

Mas o especialista também defende que o facto de o uso excessivo não caber num critério clínico de dependência não significa que não represente um problema individual, familiar e social. «Há hoje um desafio acrescido para que as famílias possam estar unidas e pais e filhos arranjem tempo para estar uns como os outros.»

«Já temos apps que nos ajudam a desligar, que nos dizem quantas horas ou quantas vezes usamos determinada aplicação e até que podem bloquear o telefone por um número de horas, para não termos acesso»

A nível social, defende, há uma reflexão que tem de ser feita relacionada com a acessibilidade e com o imediatismo. «A capacidade de espera está a ser diminuída. Nas formações nas escolas faço uma experiência: levo um jogo que jogava em criança e que demora cinco minutos a carregar. Peço aos miúdos que ponham o braço no ar quando estiverem saturados de estar à espera e 80% tem o braço levantado antes do primeiro minuto. O tempo que é tolerável esperar por alguma coisa está a diminuir e preocupa-me esses efeitos.» Por isso, defende que criar alguns mecanismos de autocontrolo faz todo o sentido.

Ivone Patrão, doutorada em Psicologia Aplicada, docente e investigadora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e autora de estudos e livros na área das dependências online, lembra, no entanto, que a própria tecnologia também pode ajudar no autocontrolo.

«Já temos apps que nos ajudam a desligar, que nos dizem quantas horas ou quantas vezes usamos determinada aplicação e até que podem bloquear o telefone por um número de horas, para não termos acesso» Entende que o autocontrolo requer treino e motivação, mas que é importante «avaliarmos sobretudo se o estar sempre ligado não será uma estratégia de compensação ou fuga emocional de outros problemas.»

50% das pesquisas no Google em 2016, a nível mundial, foram feitas através de dispositivos móveis

Rita Jorge garante que os cinco dias de autocontrolo nos quais se escolheu obrigar-se a estar sem smartphone fizeram efeito: quando voltou para casa, em Lisboa, passou a estar mais consciente do uso da tecnologia e fez alterações significativas no seu consumo digital. Mas também admite que foi sol de pouca dura, após uma fase profissional mais intensa, que a obrigou a levar trabalho para casa, sentiu-se a ser sugada para o mesmo registo de antes.

«Voltei para mais uns dias de detox no início deste ano, de forma a fazer um “reboot” ao meu próprio sistema», conta. «Vamos ver até quando dura, mas, de momento, não atendo telefonemas nem respondo a mensagens de whatsapps se não estou mentalmente disponível; ando mais com relógio de pulso, para não estar sempre a pegar no telemóvel; se vou passear e quero fotografar levo a máquina fotográfica; desligo o telefone mais vezes e, quando chego a casa, deixo-o à entrada. E isto tudo acaba por ter um impacto muito real e positivo na minha vida.»

«Atividades sem tecnologia, como uns dias de férias, são positivos, mas acabam por ser feitos por pessoas que, na realidade, têm consciência dessa importância», diz João Faria

Ivone Patrão não aprecia o termo «detox digital». Mas percebe o que indica e, do ponto de vista da intervenção psicológica, tendo em conta a sua prática clínica nesta área, vê como «muito importante que os indivíduos e as famílias delimitem atividades sem o recurso à tecnologia».

Brasil: 4h48m; China: 3h03m; EUA: 2h37m; Portugal: 2h09m; Reino Unido: 2h09m; Alemanha: 1h37m

Também João Faria acredita que a criação de momentos nos quais a tecnologia não entra faz todo o sentido. Porém, também alerta: as pessoas que o fazem sozinhas são, à partida, aquelas que têm mais capacidade de se autorregular.

«Esse tipo de momentos e atividades sem tecnologia, como uns dias de férias, são positivos, mas acabam por ser feitos por pessoas que, na realidade, têm consciência dessa importância e encontram aí uma forma divertida e harmoniosa de se autorregularem e não por aquelas que têm uma relação verdadeiramente problemática com o smartphone.»

De acordo com a Statista (dados de 2016), o Brasil é o país que apresenta maior tempo médio diário online: 4h48

Rita Jorge admite que não foi para a Offline House propriamente à procura do sentido da vida ou de abandonar algo que encarasse como um vício, mas diz que foi uma das experiências mais significativas que teve.

«Estamos habituados a fazer as coisas em piloto-automático, sem as questionar e esquecemo-nos que podem ser feitas de outra maneira. Acho que a tecnologia é, em certa medida, anestesiante e controlar o seu uso permite que se redescubra uma paleta de emoções e interesses que estavam esquecidos. Voltei a escrever, a ter uma espécie de diário, por exemplo, coisa que não tinha desde os oito anos.»

Com ou sem critérios de diagnóstico internacionais para chamar «dependência» à utilização de smartphones, o certo é que muita gente, como Rita, começa a questionar o seu uso. E não deixa de ser um sinal do tempos termos passado do pavor de estar em sítios sem wi-fi para a procura de locais onde este não existe. Desligue. E boas férias.