Diana Prata: «A empatia é uma vantagem evolutiva, não convém nada perdê-la»

Aos 39 anos, tem um laboratório com o seu nome no Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Diana Prata’s Lab, na área da neurociência biomédica. Ali, com uma equipa multidisciplinar, estuda o cérebro e a biologia do comportamento social. Mais precisamente, estuda uma hormona chamada oxitocina e o papel que esta desempenha na forma como nos relacionamos uns com os outros e em sociedade. Os resultados poderão revolucionar a terapêutica de doenças mentais como a esquizofrenia, o autismo, a depressão ou a ansiedade.
Entrevista Catarina Pires | Fotografia Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

86 mil milhões de neurónios. Milhões de sinapses por minuto. O cérebro é um órgão muito complexo. Por que decidiu estudá-lo?

Sempre estive dividida entre Biologia, Psicologia e Medicina e sempre me interessei pelo cérebro e o comportamento humanos. Quando acabei o curso de Biologia, fui para o Reino Unido com uma bolsa europeia e lá [no Instituto de Psiquiatria do King’s College of London] comecei a trabalhar com geneticistas, psiquiatras, físicos, engenheiros biomédicos [na neuroimagiologia] e diversos especialistas e fiz, com uma bolsa da FCT, um doutoramento em genética neuroimagiológica, muito pioneiro na altura, para perceber como certas mutações genéticas têm efeito na estrutura e função do cérebro humano.

Descobriu um gene ligado à esquizofrenia. Deu que falar, há 10 anos. O que é que essa descoberta trouxe?

O impacto da descoberta para o tratamento ainda é preliminar. Na área da esquizofrenia, estamos a tentar saber quais os fatores de risco genéticos que aumentam a probabilidade de a pessoa desenvolver a doença.

O objetivo é que um dia – e isto foi também um trabalho que fiz com uma empresa de fármacogenética no pós-doutoramento –, antes de o médico receitar o tipo e dose de medicamento, possa fazer um screening das mutações genéticas do doente para perceber qual o medicamento mais eficaz para aquele perfil genético.

A empatia cognitiva é a capacidade de perceber a intenção do outro, o que ele está a pensar, e a empatia emocional é a capacidade de sentir o que o outro está a sentir.

Está agora no Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica, onde tem o seu próprio laboratório, a estudar o papel da oxitocina no comportamento social e na relação entre as pessoas. Porquê a mudança?

O meu interesse virou-se para a cognição social porque esta é uma competência que está alterada na esquizofrenia, assim como no autismo ou em doenças do envelhecimento como a de Alzheimer.

Na verdade, a cognição social está comprometida em quase todas as doenças mentais e a sua disfunção tanto pode ser fator de risco como sintoma ou consequência e eu achei interessante estudá-la do ponto de vista biológico. É muito estudada pela sociologia e pela economia, mas não pela biologia.

E onde entra aí a oxitocina?

Até há pouco mais de uma década, a oxitocina era tida apenas como uma hormona que circulava no sangue e favorecia as contrações do útero durante o parto e a amamentação. Mas descobriu-se que é afinal produzida tanto por mulheres como por homens e que, além de circular no sangue, também circula no cérebro e tem um papel fundamental no comportamento social.

Que papel?

Os resultados de diversos estudos demonstram que o sistema da oxitocina está implicado nos processos cognitivos relacionados com a confiança, com a cooperação, com o altruísmo, com a comunicação e com a empatia – a empatia cognitiva, que é a capacidade de perceber a intenção do outro, o que ele está a pensar, e a empatia emocional, que é a capacidade de sentir o que o outro está a sentir.

Antes de se perceber que tinha um papel na cognição social em humanos, fizeram-se estudos em animais, nomeadamente roedores, morcegos vampiros e chimpanzés.

Os resultados de diversos estudos indicam que níveis de oxitocina elevados favorecem o altruísmo, a confiança e a cooperação.

E quais foram os resultados?

Viu-se que, manipulando o sistema de oxitocina – reforçando a expressão dos seus genes ou recetores ou administrando-a exteriormente –, isso levava a um aumento, nos roedores, do comportamento de nutrir, o número de lambidelas às crias ou o tempo passado com elas; e a preferência pelo mesmo parceiro sexual, ou seja um efeito na estratégia reprodutiva.

Em morcegos vampiro, quanto mais o sistema era estimulado, mais provável era que partilhassem com outros morcegos, que já tivessem partilhado com eles no passado, o sangue em excesso que tinham chupado de vacas, ou seja, um efeito na reciprocidade altruísta.

Nos chimpanzés e outros primatas, verificou-se que o comportamento de se catarem uns aos outros – muito importante nas relações sociais, uma vez que fortalece os laços e acalma conflitos – e até das refeições em conjunto, levava a um aumento da oxitocina.

Isso tem paralelo nos seres humanos?

Sim, além de estudos sobre como o corpo humano reagia a uma interação social e como isso aumentava os níveis de oxitocina, começou a manipular-se também o sistema da oxitocina em humanos, através de um spray intranasal usado na amamentação, para perceber como é que níveis de oxitocina elevados influenciavam os comportamentos.

Os resultados de diversos estudos indicam que níveis de oxitocina elevados favorecem o altruísmo, a confiança e a cooperação. São experiências controladas em que se põe a pessoa a jogar um jogo psicológico ou a ver certos estímulos para perceber como reage quando está sob o efeito da oxitocina versus quando está sob placebo.

Os jogos são dilemas sociais, que levam a pessoa a ter que escolher constantemente entre competir ou cooperar.

A plasticidade do cérebro é uma vantagem evolutiva, é como um acrescento ao determinismo genético: não somos apenas o conjunto dos nossos genes.

Os processos de tomada de decisão perante um dilema ético estão mais relacionados com uma hormona como a oxitocina do que com os valores transmitidos pela educação, o ambiente em que se cresce, os exemplos que se tem? Ou, por exemplo, pessoas que crescem em ambientes afetuosos, com muitos abraços e beijinhos, têm elevados níveis de oxitocina e por isso desenvolvem mais a empatia, a cooperação e o altruísmo?

Ainda não conseguimos caracterizar essas interações quantitativamente e com exatidão, mas o que se sabe é que o cérebro é plástico, sobretudo na infância e na adolescência, e aí o que acontece a um indivíduo em termos de pressões ambientais pode ser mais determinante do que na idade adulta.

A plasticidade do cérebro é uma vantagem evolutiva, é como um acrescento ao determinismo genético: não somos apenas o conjunto dos nossos genes, temos uma camada que nos permite adaptar ao ambiente. Claro que ambiente e genética estão em constante interação.

Vamos pôr pessoas perante dilemas sociais dentro de um scanner de ressonância magnética ou de uma touca de EEG e observar o cérebro quando tomam as decisões de cooperar ou não.

Há um prémio de 100 mil euros. Eu e outro somos colocados perante um desafio (sem saber o que o outro escolherá): se ambos escolhermos partilhar, cada um recebe 50 mil euros; se um escolher partilhar e outro não, este último fica com os 100 mil; se ambos escolhermos não partilhar, perdemos tudo. É nisto que consiste o tal dilema do prisioneiro. Ora, o que leva alguém, quando pode partilhar um prémio e ter a certeza que ganha metade, a arriscar perder tudo para poder ficar com tudo?

Isso é exatamente o que queremos descobrir. E é o tipo de trabalho que estamos a fazer agora: pôr pessoas perante dilemas sociais dentro de um scanner de ressonância magnética ou de uma touca de EEG e observar o cérebro quando tomam as decisões de cooperar ou não.

Vamos tentar perceber se há ativação da zona de recompensa quando o outro coopera – se não codificar, no cérebro, essa cooperação como prazenteira, talvez não coopere com tanta facilidade. E será que a ativa mais quando está sob oxitocina?

Vamos fazer questionários em relação aos traços de personalidade, para ver, por exemplo, se traços antissociais estão associados a menor ativação de determinada área do cérebro e menor cooperação, vamos observar a ativação do sistema de oxitocina quando se veem determinadas expressões faciais, para perceber se fica hipofuncional ou hiperfuncional com a inalação da hormona, e como isso influencia as decisões tomadas, vamos fazer várias experiências para perceber porque é que as pessoas agem de maneira diferente. Está tudo em aberto.

O nosso sistema de recompensa, que ativa quando comemos doces ou temos sexo ou somos elogiados, parece também ser ativado quando cooperamos e somos generosos.

Mas o que é que já pode adiantar?

Há indícios de que as zonas de recompensa são ativadas quando a outra pessoa retribui a nossa cooperação. Aqui começamos a contrariar os economistas: há algo bom em ajudar o outro e em cooperar com ele.

Há ainda outros estudos que indicam que também é ativada a área da recompensa quando uma pessoa apenas dá, mesmo que não exista reciprocidade, quanto muito a boa reputação. Isto é, há «almoços grátis», porque nos fazem sentir bem.

O nosso sistema de recompensa, que ativa quando comemos doces ou temos sexo ou somos elogiados, parece também ser ativado quando cooperamos e somos generosos. O que estamos a tentar fazer é caracterizar o sistema biológico que faz a pessoa criar filiação, ter confiança no outro, procurá-lo, cooperar. Estamos a tentar perceber quais são as áreas envolvidas.

O sistema de recompensa, dependente da dopamina, está afetado na esquizofrenia e se calhar por isso o sistema da oxitocina também não funciona bem. A grande hipótese dos meus estudos é que os sistemas da oxitocina e dopamina interagem nas áreas da recompensa.

Quais são as áreas do cérebro que mais determinam o comportamento humano?

Há uma que reside justamente nesta interação entre oxitocina e dopamina, que é o estriado: uma área muito interna do nosso cérebro que codifica a motivação, que está envolvida no desejo e no prazer e que é responsável pelos vícios, incluindo os patológicos.

A estimulação dos recetores dopaminérgicos nessa área codifica o desejo – se codificar uma coisa como má, baixa a dopamina e já não procuramos aquilo. Este sistema determina que a pessoa procure o que o cérebro codificou como bom e não procure o que codificou como mau.

Perdoar alguém uma vez (mas só uma vez…) é uma resposta que resulta da plasticidade do cérebro. É segundo os modelos matemáticos a atitude que traz mais vantagens evolutivas e a melhor forma de viver em sociedade.

E qual é o efeito disso?

Como a dopamina é necessária para codificar as coisas como boas, que queremos e vamos procurar mais, preciso dela para codificar como boa – e a repetir – uma interação que libertou muita oxitocina. No estudo, ao manipular estes dois sistemas, vamos ver como o cérebro reage, se ativa mais a área de recompensa ou não.

Outra zona do cérebro importante é a amígdala, que ativa quando há emoções fortes que nos dizem que devemos fugir – medo. Quando se dá oxitocina a inalar, a resposta cerebral de medo baixa, ou seja há um efeito relaxante e aumenta o grau de confiança. Claro que pode ter um efeito nocivo – que é a pessoa não fugir – mas, por outro lado, torna a pessoa mais aberta à ajuda (se vejo uma cara assustada em vez de fugir, procuro ajudar).

O cortéx pré-frontal integra isto tudo. O estriado e a amígdala são sistemas muito antigos, de resposta rápida e instintiva, enquanto o neo-córtex é mais recente e é aí que reside a introspeção (consciência), a tal terceira camada de plasticidade que é importante para as relações sociais. Por exemplo, perdoar alguém uma vez (mas só uma vez…) é uma resposta que resulta desta plasticidade, e que os modelos matemáticos mostram que é a que traz mais vantagens evolutivas e que é a melhor forma de vivermos em sociedade.

O orgasmo é o que provoca os maiores picos de oxitocina, mas todo o contacto físico, o toque, o abraço, o beijo, uma massagem, assim como olhar nos olhos ou confraternizar.

Quais as aplicações práticas da oxitocina?

Pensa-se muito para o autismo. Estudos revelaram que aumenta o tempo que olho outra pessoa nos olhos e poderia ser uma aplicação a ter em crianças com autismo, num estádio mais precoce, para que passem mais tempo a olhar para os olhos de outras pessoas e ganhem mais capacidade para interpretar as emoções.

Talvez também pudesse ajudar na redução do medo e da ansiedade quando em ambientes sociais, no aumento da confiança e da filiação.

A esquizofrenia é outra das doenças em que pode ter aplicações, dados os sintomas paranoicos comuns.

Aliás, eu diria, se quisermos ser mais inclusivos, que poderíamos ajudar pessoas que, por causa de patologia mental já instalada ou não, sofram de isolamento social.

Agora, se é através de spray de oxitocina ou de estimulação de interações sociais positivas e gratificantes que estimulem a sua libertação… Os abraços e os beijinhos também aumentam a oxitocina.

Uma criança, quando ouve a voz da mãe, liberta oxitocina (mais do que com outras vozes), e isso não acontece quando lê uma mensagem escrita.

Pois, consegue-se naturalmente, não é preciso andar de spray no bolso. Como se obtém?

O orgasmo é o que provoca os maiores picos desta hormona, mas todo o contacto físico, o toque, o abraço, o beijo, uma massagem, assim como olhar nos olhos ou confraternizar.

Como disse, os chimpanzés libertam mais oxitocina quando comem em conjunto. Há outra experiência muito engraçada: dá-se oxitocina a um cão, que o leva a olhar para o dono mais tempo e, quando o dono olha, por consequência, para o olhar do cão, o dono liberta mais oxitocina.

Ou seja, as relações sociais boas e com mais contacto físico em geral aumentam os níveis desta hormona. Basta pensar na pessoa com quem temos uma relação positiva para ativar os mesmos circuitos. Por exemplo, uma voz familiar pode levar a um aumento dos níveis de oxitocina. Uma criança, quando ouve a voz da mãe, liberta oxitocina (mais do que com outras vozes), e isso não acontece quando lê uma mensagem escrita, ainda que seja da mãe.

Se desde crianças não nos habituamos a ver o resultado das nossas ações no outro, se não desenvolvemos o sistema da empatia, perdemo-lo.

Nas sociedades atuais, a capacidade de empatia e cooperação parece estar a decair. Isso pode ter a ver com um maior isolamento, menor contacto físico/toque entre as pessoas?

Sim, acho que sim. É mais fácil fazer bullying ou comentários desfavoráveis sentado atrás de um computador sem ver a reação facial da outra pessoa, assim é mais fácil ser mau, não estou a ter o castigo de ver a outra pessoa a chorar ou triste pela tal empatia emocional.

O nosso cérebro tem também essa coisa fantástica que é a empatia cognitiva – adivinhar o que o outro está a pensar ou sentir e sentir o que ele está a sentir – para melhorar a probabilidade de atingirmos objetivos conjuntos, de caça, de defesa, para cooperarmos, para eu perceber porque é que o bebé está a chorar, que isso me incomode, e então tratar melhor dele. Isto é tão instintivo no nosso cérebro, por uma questão evolutiva, tão fundamental para a sobrevivência, que é automático.

Ora, se desde crianças não nos habituamos a ver o resultado das nossas ações no outro, se não desenvolvemos o sistema da empatia, perdemo-lo. E a empatia é uma vantagem evolutiva, não convém nada perdê-la.

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