Dietas irrealistas e soluções milagrosas: os erros de quem quer uma vida saudável

A preocupação alimentar está a crescer em Portugal? Há realmente um crescimento no que diz respeito à atividade física? Mas, se assim é, porque continuam os números de obesidade e excesso de peso a aumentar no país? Rita Verdasca, nutricionista, Joana Viveiro, farmacêutica e Rita Terruta, responsável técnica da Fhit Unit – empresa especialista em treino funcional -, esclarecem quais os erros que continuamos a cometer quando procuramos uma vida saudável.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia ShutterStock

«É cada vez mais comum os portugueses associarem uma alimentação saudável a algo que contribui para o seu bem-estar diário e para a prevenção de certas doenças, como a diabetes, o colesterol elevado ou obesidade. Quem o diz é Rita Verdasca, nutricionista, que vê a mudança de paradigma em relação à alimentação como algo «muito positivo».

Rita Terruta, responsável técnica da Fhit Unit, percebe também que há uma maior disponibilidade para a prática de atividade física, considerando que é fundamental que as pessoas entendam o «exercício tem muitos outros benefícios, além dos fisiológicos, tais como o bem-estar psicológico, melhorias na saúde e aptidões sociais».

Esta crescente preocupação com o corpo e o bem-estar tem levado cada vez mais pessoas às farmácias. Joana Viveiro, da Associação Nacional de Farmácias, diz que é «frequente, principalmente utentes do sexo feminino, pedirem ajuda para resolver problemas relacionados com o peso.

Entre as principais preocupações de quem quer perder peso, está a gordura localizada, as pernas pesadas e cansadas e a celulite. No entanto, para solucionar este tipo de problemas, diz Viveiro, é frequente a «procura de uma solução milagrosa, especialmente antes do verão».

«Muitas vezes os utentes acabam por compram produtos ou suplementos alimentares sem aconselhamento de um profissional de saúde, que muitas vezes não adequados para o seu caso ou que podem até agravar alguma situação clínica presente», esclarece a especialista.

«A falta de procura de ajuda especializada e a gestão de expectativas, muitas vezes irrealista» podem condicionar a sua dieta e tornar o processo mais doloroso

Rita Terruta lembra que a perda de peso nada mais é que o défice calórico diário (consumo de menos calorias que a energia gasta) e, para isso, são necessários ter em conta alguns fatores essenciais. «Ter uma restrição calórica personalizada e aconselhada por um profissional, gastar energia com exercício físico, com um plano elaborado por um profissional da área de exercício e saúde, e, além disso, ter um dispêndio energético proveniente da atividades física realizada ao longo do dia», diz a personal trainer.

Mas como posso gastar energia durante o dia? A realização de atividades domésticas, de lazer ou de deslocação podem contribuir para chegar aos resultados pretendidos. Terruta lembra ainda que deve também «aumentar o metabolismo basal».

Na teoria tudo parece mais simples. A responsável técnica da Fhit Unit lembra que uma das tarefas mais difíceis deste processo passa pelo «aumento da sensação de fome» depois de treinar. «Quantas vezes não ouve a expressão: ‘posso comer porque já treinei hoje’?». É por isto que a especialista aconselha a que se faça um «um planeamento e produção de refeições em antecipação», para que consiga «reduzir os snacks menos saudáveis e os cravings (vontade extrema e desmedida de comer)».

Mas não é só nos pós-treino que esta vontade súbita de comer tudo pode surgir. A nutricionista Rita Verdasca considera que a «adaptação inicial ao plano alimentar pode ser um dos passos mais importantes (e difíceis) do processo». «A redução da quantidade de hidratos de carbono na alimentação diária, bem como das gorduras, tem impacto nos primeiros dias e pode aumentar a ansiedade», frisa.

Sabia que o sono e o stress também podem dificultar a obtenção de resultados? Rita Terruda explica porquê

Além da perda de peso, Verdasca sublinha a importância da manutenção do peso perdido. «É essencial programar as refeições ao longo do dia, evitar alimentos com açúcares simples, manter os snacks saudáveis no dia-a-dia e inovar na confeção dos alimentos, usando, por exemplo, especiarias ou alternativas a certos alimentos», indica a especialista alimentar, que considera que os portugueses cometem ainda erros graves no que diz respeito à sua dieta.

«Algumas pessoas ainda iniciam o seu dia com um bolo recheado com creme e há crianças que levam nas suas lancheiras escolares alimentos cheios de açúcar e gordura», diz, acrescentando o excesso de fritos e sal também como prejudiciais para qualquer dieta.

Afinal, quais os erros mais comuns de quem quer iniciar um estilo de vida saudável?

Para Rita Terruta, os erros mais graves são a «falta de procura de ajuda especializada e a gestão de expectativas, muitas vezes irrealista, tanto em relação ao compromisso como ao tempo necessário até à obtenção dos resultados».

«A procura de saídas fáceis e milagrosas, em que se opta por dietas extremistas, comprimidos ou técnicas infalíveis que não impliquem esforço» são também apontados pela responsável.

Então, como se podem evitar este tipo de falhas? «Em primeiro lugar seria importante o utente perceber o pretende: perder peso, aumentar a massa muscular, eliminar gordura localizada ou outros. Depois, é fundamental compreender se a pessoa em causa tem alguma doença, como hipertensão, problemas renais, diabetes ou insuficiência cardíaca», indica a farmacêutica Joana Viveiro.

«A partir desta fase, poderemos recomendar, por exemplo, alguns suplementos alimentares que podem ajudar o utente a conseguir os seus objetivos, conjuntamente com alguns conselhos de alimentação saudável. Tais como? Joana Viveiro enumera:

  • Beber cerca de 1,5 litros água/dia;
  • Comer várias vezes ao dia;
  • Limitar o consumo de hidratos de carbono e gordura;
  • Pratica exercício físico diariamente;

Para aumentar o número de vezes que come diariamente, a nutricionista Rita Verdasca dá algumas sugestões de snacks que podem ser «indicadas para cada caso». São eles, por exemplo, «ovos cozidos, palitos de cenoura ou aipo ou gelatina sem açúcar.

Há também uma dica da especialista para aumentar o consumo de água, que passa por «alternar a ingestão de água com infusões ou água aromatizada (usando limão, canela ou hortelã)».

Fotografia FHIT UNIT

Além do exercício e alimentação, o que pode condicionar a perda de peso?

«O sono e o stress também podem dificultar a obtenção de resultados», começa por dizer Rita Terruta. «Padrões irregulares e poucas horas de sono podem permitir dias maiores, mas que são acompanhados de maior tempo de ecrã e a um número superior de refeições ao dia».

«Há também um comportamento hormonal associado aos padrões do sono que aumentam a produção da grelina e diminui a produção de leptina que são hormonas responsáveis pelo apetite e saciedade», alerta a especialista de fitness.