Divididos ao meio: viver em residência alternada, todos na mesma casa

Esta é uma realidade cada vez mais frequente. Falamos de casais com filhos que, pelos mais variados motivos, decidem não se separar mesmo quando já nada funciona na relação. Seja por questões económicas (a casa para pagar, as dívidas que foram contraídas, o receio de, sozinhos, não conseguirem sustentar os filhos), seja pelo facto de as crianças serem ainda pequenas e, por essa razão, acreditar-se que uma separação parental poderá ser traumática. Existe ainda a pressão familiar e social, a dependência emocional, o receio em ficar sem suporte ou em perder o contacto regular com os filhos.

Perante tudo isto, estes casais decidem que vão permanecer juntos. Mas como a tensão e o conflito são já monstruosos, acordam um regime de alternância nos cuidados aos filhos. Embora todos vivam na mesma casa.

Às segundas, quartas e sextas a mãe leva à escola, e o pai vai buscar.

Às terças e quintas é ao contrário.

Nos fins de semana, um deles permanece fora de casa o maior tempo possível, enquanto o outro assume os cuidados das crianças. No fim de semana seguinte trocam.

As férias são repartidas, metade com cada um dos pais.

E assim se vive em residência alternada, todos na mesma casa.

Estas são famílias que procuram transmitir uma aparência de normalidade (seja lá o que isso for), mantendo-se juntas apenas em alguns eventos familiares ou sociais (quando tem mesmo de ser e não existe outra alternativa).

O que dizer sobre isto?

Bem, percebemos as motivações destes pais, que resolvem (ou pensam resolver) desta forma um problema de casal. Tentam manter a ideia de família, correspondendo a padrões e estereótipos que a sociedade tão bem inculca nas pessoas. Desta forma, correspondem às suas próprias expectativas e às dos outros também. Porque aquilo que os outros pensam é sempre muito importante. Demasiado importante.

E sobre as crianças, o que dizer?

Estas aprendem que aquele é o seu modo de vida e também elas se ajustam. Vão estando com ambos os pais e não questionam o que se passa. Por vezes fazem umas perguntas incomodas, é verdade, recebem umas respostas vagas (pois os pais nem sempre sabem o que responder!) e assim se leva a vida.

As pessoas mais próximas da família também acabam por perceber o que se passa. Avós, primos, tios, todos se questionam. Também estes fazem algumas questões incómodas, que o casal aprende a evitar. Com o tempo, todos percebem que estão perante um assunto tabu e que o melhor mesmo será varrer a coisa para debaixo do tapete. Se fingirmos que não existe, pode ser que deixe mesmo de existir.

Mas não, não deixa de existir.

E que impacto tem para todos, a médio ou longo prazo?

Nos pais, o sentimento de insatisfação cresce de forma exponencial. Cada dia que passa é mais difícil de suportar do que o anterior. Os conflitos acentuam-se, discute-se por tudo e por nada e o tempo com os filhos é regateado ao minuto.

À medida que o tempo decorre, torna-se também mais evidente para as crianças aquilo que se passa. As crianças crescem e percebem que a sua família tem uma dinâmica muito própria, caracterizada pela distância emocional, dificuldades na comunicação e rigidez na forma como se resolvem os problemas. Aprendem, por exemplo, que apenas têm um dos pais consigo nas festas da escola ou dos amigos. Que as suas próprias festas de anos são divididas em momentos distintos. A parte boa, dizem as crianças, «é que temos festas e prendas a dobrar!»

Mas esta parte boa não suaviza o impacto negativo de tudo o resto. Crescer num ambiente dividido ao meio obriga a que também as crianças se sintam divididas. Potencia sentimentos ambivalentes e conflitos de lealdade. Como me disse uma vez uma jovem adolescente, «é como se tivesse um fecho de correr que vai da cabeça aos pés e os meus pais quisessem à viva força que eu me divida em duas».

As crianças precisam de estabilidade emocional, tranquilidade, amor e segurança. De vínculos afectivos seguros com os seus cuidadores, que lhes permitam arriscar e explorar o mundo lá fora. E não de se sentirem cortadas ao meio, coartadas também na sua liberdade em amar ambos os pais, independentemente do local onde cada um reside.