Divórcio: será que nos está nos genes?

É dos momentos mais complexos na vida dos casais, o divórcio. O fim de um sonho, marcado pela culpa e muitas dúvidas – porquê a mim? Porquê assim? Afinal, parece que a genética também tem culpas no cartório.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Foi um sim para toda a vida, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe. Muitos planos em conjunto. Até filhos. E então o divórcio acontece e deixa-nos de rastos numa cama demasiado grande para uma só pessoa, a comer chocolate às escondidas e a pensar por que raio nenhuma relação parece dar certo nesta família.

A resposta, ao que parece, está no peso decisivo que a genética tem no rumo das relações, nomeadamente na tendência para acabarem (ou não) em separação, apurou um estudo recente dos investigadores Jessica Salvatore e Kenneth Kendler, do Instituto de Psiquiatria e Genética Comportamental da Virgínia, EUA, divulgado na revista académica Psychological Science.

Trabalhando em conjunto com cientistas suecos da Universidade de Lund, os especialistas em comportamento dissecaram os padrões de divórcio de pessoas que eram adotadas, bem como os dos respetivos pais e irmãos adotivos e biológicos. Os resultados – inéditos por irem muito além das influências psicológicas que já se sabia existirem – foram surpreendentes.

Filhos de pais divorciados têm maiores probabilidades de passar por experiências de divórcio devido aos genes partilhados entre ambos.

«Descobrimos que a razão por que os filhos de pais divorciados têm, eles próprios, maiores probabilidades de passar por experiências de divórcio são os genes partilhados entre ambos», revela Salvatore, apoiada nos dados referentes aos casamentos de 19 715 crianças adotadas na Suécia.

Dessas, 20 por cento tendiam a divorciar-se mais quando os pais biológicos também eram divorciados – por comparação com as que ainda tinham os pais juntos –, mas não apresentavam qualquer desvio no caso de serem os pais adotivos a separar-se.

A mesma tendência repete-se em indivíduos com irmãos biológicos separados.

A dar ainda mais força à teoria da genética como explicação para o divórcio, a mesma inclinação repetia-se em indivíduos com irmãos biológicos separados, mas não quando quem se divorciava eram os irmãos adotivos.

«Não existe um gene específico do divórcio que indique se somos mais propensos a sofrer de um no futuro», ressalva Jessica Salvatore, com pena de não poder detetá-lo com uma simples amostra de saliva ou sangue. O mais próximo que temos disso é esta «medida familiar de risco genético».

E são inegáveis as vantagens de se conhecer os fatores genéticos que influenciam um divórcio, diz: a partir do momento em que estão identificadas as causas de anteriores separações na família, como distorções de personalidade ou elevados índices de negatividade, melhor se trabalha sobre os atuais pontos de discórdia e mais facilmente se salva uma relação.

Os genes são apenas um fator numa equação complicada, pelo que podemos superá-los.

Claro que, no final, poderemos nunca vir a passar por um divórcio quando tudo parecia a nosso desfavor, da mesma maneira que há quem escape a uma doença grave diagnosticada ao resto da família. «Os genes são apenas um fator numa equação complicada e podemos superá-los. Não são o nosso destino», conclui a autora da pesquisa.

Se por acaso ele vier, apesar de tudo, especialistas no assunto dizem haver muitas alegrias a retirar de um divórcio quando aprendemos a encará-lo como o início de uma nova forma de liberdade, não o fim. Só o facto de não ter que dividir o roupeiro com ninguém é um ponto a favor.

Ainda falando de divórcios, descubra na fotogaleria alguns aspetos práticos em que raramente pensamos – e devíamos. Quanto mais não seja pelas oportunidades de crescer.