Dizer asneiras faz-nos bem a todos (chimpanzés incluídos)

Nada exprime melhor dor, raiva ou alegria do que asneiras ditas na altura certa. São intensas. Proibidas. Mais potentes do que quaisquer palavras, daí chamarem-lhes palavrões. Seja como for, se tem menos de 18 anos, é melhor não ler este artigo.

Texto de Ana Pago

Naquela tarde, há cerca de um mês, a mãe não sabia se devia rir ou ralhar: «Os meus filhos estavam na rua com o skate, ele instável, ela a atrapalhar. Acabaram os dois torcidos no chão», conta Inês Costa, comercial. Pedro, 12 anos, fazia por não atropelar a irmã. Maria, de 6, insistia em pôr-se à frente, apesar dos avisos. «Quando lá cheguei só o ouvi desabafar: “Grande, grande merda, mana”. Ele sabe que não pode dizer asneiras, mas se até a mim me apeteceu…»

Não há melhor válvula de escape do que os palavrões, confirma a neurocientista computacional Emma Byrne.

E é natural que apetecesse: não há melhor válvula de escape, confirma a neurocientista computacional Emma Byrne, autora de Swearing Is Good for You (Praguejar É Bom para Si).

É algo que nos vem à boca de uma forma tão autêntica que até os chimpanzés as usam se estão zangados – ou pelo menos repetem o gesto que associam às fezes (ao aprenderem a controlá-las em cativeiro) com o significado de «merda».

São palavras especiais, de facto, enraizadas nas emoções. «Carregam mais conteúdo emocional do que quaisquer outras, razão por que as pessoas as utilizam para insultar, aliviar ou exprimir sentimentos extremos de felicidade, tristeza ou surpresa», diz-nos Melissa Mohr, especialista em literatura medieval e renascentista e autora de Holy Sh*t: A Brief History of Swearing (Grande M*rda: Uma Breve História do Asneiredo).

Asneiras fortalecem a coesão dentro de grupos e exprimem confiança e afeição.

Ao contrário do que se poderia pensar, as asneiras fortalecem a coesão entre membros de um grupo: estudos mostraram um aumento da moral no trabalho quando funcionários praguejam juntos contra as chefias.

«São também termos de confiança e afeição, com os homens britânicos a chamarem muitas vezes cunt (cona) uns aos outros, ou os afro-americanos a tratarem-se por nigger (preto) entre si», sublinha Melissa Mohr, fascinada com a flexibilidade deste nosso reportório linguístico.

Emma Byrne acrescenta ainda que gerir o stress e a dor com «uns quantos palavrões bons para caraças» é do mais eficaz que existe.

Sim, eles provêm da região do cérebro que controla as emoções básicas e regula os impulsos, diferente daquela onde nascem os pensamentos elevados.

E sim, aproximam-nos de sentimentos viscerais – por isso são tão catárticas. O que significa que não estaríamos melhor sem elas, por muito proibidas que sejam.

«Os palavrões são transversais a todas as classes sociais e gerações. Não há nenhuma cultura que não tenha os seus», diz o linguista João Veloso.

«Os palavrões são transversais a todas as classes sócio-económicas e gerações. Não há nenhuma cultura que não tenha o seu reservatório», adianta o linguista João Veloso, professor do departamento de Estudos Portugueses e Românicos da Faculdade de Letras do Porto.

A verdade é que toda a gente o conhece, sem exceção, desde tenra idade: «Só muda o uso mais criativo ou mais privado que fazemos dele.»

Claro que uma expressão pode ser terrível num dado lugar ou momento histórico, e perder essa carga noutro. «Na Idade Média, profundamente religiosa, não havia nada pior do que jurar pelas chagas de Cristo ou mandar alguém para o diabo», sustenta a especialista em literatura medieval e renascentista Melissa Mohr.

Hoje em dia, os insultos raciais e homofóbicos são os mais ofensivos.

Da mesma forma, a partir do momento em que o império romano foi cristianizado e a tradição dos banhos públicos se perdeu, o tabu social face à nudez gerou também um tabu linguístico em relação a certas partes do corpo, destaca o linguista João Veloso, para quem os insultos raciais e homofóbicos são os mais ofensivos atualmente. Uma coisa é certa, diz: qualquer dicionário bem feito deve incluir as asneiras.

E por falar em uso mais ou menos criativo dos palavrões, descubra na nossa fotogaleria quem são os famosos que não prescindem do colorido que eles trazem à comunicação.