Na primeira pessoa: «Não me lembro de alguma vez ter chorado por causa do cancro»

A DOENTE | A escritora Alice Vieira teve cancro da mama. Os médicos disseram-lhe que só viveria três anos. Já passaram trinta. Os mesmos tratamentos que a salvaram nessa altura provocaram outro cancro. Esta é a quarta de seis histórias contadas na primeira pessoa, a propósito do Dia Mundial de Luta contra o Cancro.

Texto de Catarina Fernandes Martins | Fotografias de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Quando tive o cancro na mama esquerda, em 1989, perguntei ao médico quanto tempo tinha para viver. O cancro tinha muitas metástases, estava complicado. Ele disse: «Dois ou três anos.» Despedi­‑me do Diário de Notícias e disse ao meu marido: «Vão ser os melhores anos das nossas vidas.»

Nunca fizemos do cancro um drama, a questão foi sempre aguentar. Não me lembro de alguma vez ter chorado sobre isso. A minha amiga Manuela Maria dizia sempre assim: «Não me apetece nada morrer.» E acho que isso é importante para a evolução da doença. Tive sempre essa atitude.

Alice Vieira teve cancro da mama há trinta anos. Deram­‑lhe três anos de vida. O marido dava-lhe uma caneta por cada ano passado depois da sentença. Recebeu treze canetas, até à morte do marido.

Quando o médico me mandou para o IPO para ser operada, perguntou­‑me: «Como vamos dizer isto ao seu marido?» O médico sabia que a mim me podiam dizer tudo, mas tinha receio da reação dele.

Fui operada num dia 14 de fevereiro e eu e o meu marido íamos sempre almoçar ou jantar nesse dia. Ele oferecia­‑me sempre uma caneta por ter passado mais um ano.

O meu marido apoiou­‑me sempre. De forma inquestionável. Eu viajei, trabalhei muito e ele aguentava a casa e os filhos. Nunca senti rejeição da parte dele, nem mesmo física.

Fui operada no dia 14 de fevereiro e nós íamos sempre almoçar ou jantar nesse dia. Não estávamos a comemorar o Dia dos Namorados porque nunca fomos dessas coisas, mas ele oferecia­‑me sempre uma caneta por ter passado mais um ano. Ano após ano fui percebendo que o diagnóstico inicial estava errado. Recebi 13 canetas, até à morte do meu marido.

Tenho 74 anos, sou vista de três em três meses e ao primeiro sinal marcho logo para lá. Sou doente crónica do IPO.

Há seis anos comecei com dores no osso esterno e o meu oncologista disse de imediato: «Já para o IPO.» Há vinte anos, as técnicas não estavam tão evoluídas como estão hoje e acontece a algumas pessoas que a rádio acumulada durante os tratamentos acaba por potenciar tumores. Sendo no esterno, não são operáveis.

Tenho 74 anos, sou vista de três em três meses e ao primeiro sinal marcho logo para lá. Sou doente crónica do IPO. No primeiro andar tenho a oncologia, no segundo andar tenho a psicóloga. Funciono em todos os andares e sou muito popular por lá. É irónico, mas se não tivesse feito os tratamentos com a rádio há vinte anos se calhar teria morrido.

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Este artigo foi publicado originalmente em www.noticiasmagazine.pt