«No IPO, tornei-me melhor pessoa e enfermeira. Fazer a diferença na vida de outros é fantástico»

Não esquece o primeiro banho que deu a um doente, despido de tudo o que não era essencial. Não esquece o Carlos, 16 anos, de quem foi família de acolhimento, e que na despedida lhes disse «não estejam tristes, vai correr tudo bem». Não esquece a menina que dias antes de morrer lhe perguntava «Dora, vais ser sempre a minha enfermeira, não vais?» nem o advogado, na pneumologia, que lhe pedia, cúmplice, «avise-me quando chegar a hora». Traz consigo todos os doentes que cuidou, como traz todas as dores que aliviou, feridas que tratou, vidas que ajudou a salvar. Cuidar de pessoas com cancro tem singularidades e foi para as perceber que passámos uma tarde com enfermeira Dora Franco no IPO de Lisboa.
Texto de Catarina Pires | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O passo acelera enquanto se dirige para o hospital de dia da pediatria. Vai ver Alicia, jovem de 17 anos, que está a estudar Os Maias, tem cancro e feridas nos pés causadas pela quimioterapia.

Dora Franco, 38 anos, trabalha na Consulta Multidisciplinar de Estudo e Tratamento de Feridas do IPO de Lisboa (constituída por duas enfermeiras a tempo inteiro, três médicas – duas cirurgiãs e uma dermatologista –, uma farmacêutica e uma dietista) e coordena a Unidade de Investigação em Enfermagem do mesmo instituto.

Faz quilómetros por dia, partilhados com a enfermeira Helena Vicente, coordenadora da referida consulta, entre os diversos serviços do hospital, e não se cansa.

«Trabalhar em ambulatório permite funcionar em rede com os enfermeiros de todo o IPO, conhecer todas as realidades e fazer uma diferença efetiva na vida das pessoas e isso é fantástico», explica, já na pediatria, sorriso aberto para Alicia.

«Sim, a pediatria é duro, mas é tão duro como compensador. A resiliência das crianças, a sua capacidade de lidar com o sofrimento, são uma lição de vida»

Além do alívio da dor e do aumento da qualidade de vida, tratar uma ferida oncológica pode significar a diferença entre poder fazer tratamento ou não, entre ser sujeito a uma cirurgia ou evitá-la. «É uma grande responsabilidade.»

«Está muito melhor», diz a enfermeira Dora, passando a mão pelos pés de Alicia que, talvez intimidada pela presença de estranhos, não reage. Aline, a mãe, dá conta das dificuldades por que a filha tem passado devido às feridas nos pés, Dora observa, ouve as queixas e as dúvidas, e depois aconselha, conforta e explica os procedimentos a ter. «Tínhamos combinado fazer o resumo d’Os Maias, não é, Alicia? Fica para a semana», promete, à despedida.

«Sim, a pediatria é duro, mas é tão duro como compensador. A resiliência das crianças e a sua capacidade de lidar com o sofrimento são uma lição de vida. Mais difícil é lidar com o sofrimento dos pais», diz a enfermeira, respondendo à tão desnecessária como inevitável pergunta de quem entra pela primeira vez numa unidade de pediatria oncológica.

«A Dra Sara, que é da nossa equipa, diz que há os “ipeóticos” e os não “ipeóticos” e é mesmo isso. Já trabalhei noutros sítios, mas nunca consegui deixar o IPO»

O passo volta a acelerar e as palavras também enquanto regressamos à sala da «consulta das feridas» na outra ponta do hospital. Espera-nos lá a dona Silvina, que há um ano tem uma ferida aberta pela radioterapia que fez para tratar um sarcoma.

Doença, sofrimento, dor, morte, vida. Estão presentes em todos os hospitais, mas não como aqui, no IPO, onde é de cancro que se trata. É essa a perceção de Dora Franco, que tem como projeto de investigação perceber a singularidade do trabalho de enfermagem num hospital oncológico.

«As vivências na prestação de cuidados ao doente oncológico são intensas, quase como uma tatuagem, ficam impressas em nós e moldam-nos e mudam-nos.»

«De que forma a cultura organizacional dos IPO influencia a prestação de cuidados ou é influenciada por esta, que perceções têm os doentes e os familiares que já estiveram internados noutros hospitais em relação ao enfermeiro oncológico? Era isso que eu gostaria de descobrir. A prática já a sinto como singular. As vivências na prestação de cuidados ao doente oncológico são intensas, são quase como uma tatuagem, ficam impressas em nós e moldam-nos e mudam-nos enquanto pessoas e por isso também enquanto profissionais. Agora quero investigar esta matéria cientificamente».

Uma vez uma médica, de fora, que passou uns tempos no IPO manifestou estranheza pela forma como ali se relacionavam os profissionais de saúde. «Sentia que nos relacionávamos de forma diferente, que discutíamos muito, chorávamos muito, nos abraçávamos muito. Às tantas dizia que não sabia se era o IPO que nos moldava a alma ou se era a alma que nos levava a trabalhar ali. Também não sei, mas que há alguma coisa há, e eu vou descobrir o que é», diz Dora Franco.

A enfermeira Dora Franco, 38 anos, trabalha na Consulta Multidisciplinar de Estudo e Tratamento de Feridas do IPO de Lisboa e coordena a Unidade de Investigação em Enfermagem do mesmo instituto.

Nos olhos, a vida toda. A alentejana Dora Franco — a quem uma enfermeira, quando fazia estágio no Hospital de Évora, disse «és boa tecnicamente, mas dás muita confiança aos doentes» — percebeu, mal entrou no IPO, em 2001, que tinha encontrado o seu lugar.

«Aqui posso dar confiança aos doentes. Aqui as pessoas estão despidas de tudo o que é acessório no dia-a-dia. A Dra Sara, que é da nossa equipa das feridas, diz que há os “ipeóticos” e os não “ipeóticos” e é mesmo isso. Já trabalhei noutros sítios, mas o IPO é a minha casa, nunca consegui deixá-lo. E tem sido um processo de autoconhecimento. Tornei-me melhor pessoa e melhor enfermeira desde que trabalho aqui, porque sinto que posso fazer a diferença na vida das pessoas e a gente poder fazer a diferença é fantástico.»

«Cada um à sua maneira aprende a lidar com a parte negativa deste trabalho: o contágio emocional e o contacto diário com o sofrimento e a noção de finitude»

Dona Silvina veio com o filho e já está à espera. A doença e a idade não lhe roubaram a agilidade e é graças a esta que num ápice sobe para a marquesa. A ferida na perna tem um ano, é grande e a enfermeira Dora vai conversando, e mudando de luvas a cada procedimento, enquanto a trata. Dona Silvina sai dali como nova.

As feridas tratadas pela consulta de Dora e Helena podem decorrer dos tratamentos, da patologia ou serem o próprio cancro. «Por vezes é isso que são, a objetivação da doença, que se torna visível, palpável e, nesses casos, além dos sintomas físicos a tratar, há que ajudar a lidar com toda a carga emocional que aquela ferida tem para a pessoa. Preocupamo-nos com as feridas externas e internas», diz Dora Franco.

E como se protegem? A enfermeira hesita pela primeira vez. «Cada um à sua maneira aprende a lidar com a parte negativa: o contágio emocional, o contacto diário com o sofrimento e a noção de finitude, os dilemas éticos e morais», diz.

A greve dos enfermeiros é um grito de alerta. Os enfermeiros estão cansados, há níveis elevadíssimos de burn out e não estão a receber em troca o que deveriam. Eu trabalho há 17 anos e ganho hoje menos do que quando aqui entrei.

Para isso é importante «a valorização pessoal e profissional, a partilha, as catarses e, não querendo repetir-me, mas isto é fundamental, a sensação de que fazemos a diferença na vida daqueles de quem cuidamos», explica Dora.

De acordo com um estudo recente, os enfermeiros que conseguem estabelecer uma relação mais intensa com os pares, com os outros profissionais de saúde, com os doentes e seus familiares experimentam níveis de satisfação mais elevados. «Se calhar passa um bocadinho por aí».

E as greves dos enfermeiros, que tanta polémica têm causado, não contradizem este espírito, considera Dora. «Não há insensibilidade por parte dos enfermeiros. O que há é um grito de alerta. Estamos cansados, há níveis elevadíssimos de burn out na profissão e não estamos a receber em troca o que deveríamos. Eu trabalho há 17 anos e ganho menos do que quando vim para aqui trabalhar. Dito isto, a retribuição económica é importante, mas não é o mais importante, pelo menos para mim», diz a enfermeira. «O que me faz ficar nesta casa e não ir ganhar mais para outro sítio são as vivências, as histórias, os doentes de quem cuido e cuidei e que trago sempre comigo.»