“Dormir mal contribui para o aumento de doenças inflamatórias, da obesidade e do cancro”

Henrique Veiga-Fernandes é investigador do Centro Champalimaud, em Lisboa

Uma equipa do Centro Champalimaud de Lisboa, liderada por Henrique Veiga-Fernandes, estudou a razão por que pessoas com horários desregrados, como os trabalhadores noturnos, são mais propensas a obesidade e inflamações intestinais. As suas descobertas, que estabelecem uma relação entre a função imunitária e o relógio circadiano do cérebro, cuja atividade é gerada em resposta ao ciclo noite-dia, foram publicadas hoje na revista científica Nature.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Natacha Cardoso/global Imagens

A sua equipa acaba de descobrir a razão pela qual horários de sono desregrados podem contribuir para uma maior propensão para obesidade e inflamações intestinais. Qual é?

Sabe-se que os horários desregrados têm impacto na saúde e a vários níveis. Este trabalho explica porque é que noites mal dormidas podem provocar alterações no metabolismo que estarão na origem de doenças metabólicas e obesidade e causar inflamações intestinais. O que descobrimos foi que há um tipo de células no intestino, as chamadas células linfoides inatas de tipo 3 (ILC3, na sigla em inglês), que desempenham funções importantes naquele órgão: lutam contra as infeções, controlam a integridade da parede intestinal e regulam a absorção de lípidos. São uma espécie de glóbulos brancos, vigilantes do intestino, que reparam danos e, quando estão presentes, bloqueiam a absorção dos lípidos da dieta.

E o que acontece a essas células quando os ritmos de sono são desregulados de forma sistemática?

Verificámos que, quando o relógio biológico [em que o período de vigília acontece de dia, quando há luz, e o de sono à noite, quando é escuro] está alterado, o número destas células no intestino diminui significativamente, alterando quer a absorção de lípidos, quer a reparação das paredes intestinais, o que leva a um aumento das inflamações e à acumulação de gordura. Isto explica uma maior tendência para a obesidade em pessoas com horários desregulados, porque trabalham por turnos, por exemplo, em comparação com as que respeitam o relógio circadiano do cérebro, mesmo que tenham uma dieta semelhante.

Esta descoberta, que estabelece uma ligação entre a função imunitária e o relógio circadiano do cérebro, pode ser uma explicação para o crescimento das doenças autoimunes nas sociedades mais desenvolvidas (em que os horários e os padrões de sono são muitas vezes em contraciclo com a natureza)?

Poderá ser uma das razões e dou-lhe um exemplo concreto da doença inflamatória do intestino, que é crónica e para a qual não há terapêutica eficaz. Há períodos em que os doentes têm episódios agudos, com agravamento dos sintomas e manifestações clínicas preocupantes, e estes episódios estão geralmente associados a períodos de maior stress e a alterações de padrões de sono e repouso.

A inflamação crónica aumenta significativamente as doenças oncológicas, nomeadamente do intestino.

Sabe-se que os processos inflamatórios do organismo podem a longo prazo ser responsáveis por doenças oncológicas. A regulação do sono também desempenha aí um papel importante?

Absolutamente. Os modernos ritmos de vida e a falta de horas de sono contribui não apenas para aumento de doenças inflamatórias e metabólicas como está relacionada com o aumento de cancro. Nós, neste estudo, não abordámos esta questão, mas é plausível que exista uma ligação. A inflamação crónica aumenta significativamente as doenças oncológicas, nomeadamente do intestino. Mas neste trabalho abordámos apenas as consequências mais automáticas – obesidade e inflamação – para perceber de que forma podemos interferir para defender o organismo.

Quando alteramos o ciclo de sono, entramos em contraciclo e é isso que causa problemas como a inflamação ou obesidade.

É mais grave a mudança de ritmo ou de fuso horário – porque não permite que o organismo se adapte – ou um padrão regular, mas fora do ritmo circadiano? Dormir oito horas de noite não é o mesmo que fazê-lo de dia?

Tem mais que ver com o ciclo de sono do que com a sua duração. O nosso organismo funciona de acordo com as ritmicidades do relógio biológico e com a manutenção das regras de sono. Quando falamos em ritmicidade, falamos em manter o ritmo, manter uma vida regrada em termos de sono e de ritmo biológico, que permite ao organismo antecipar o que vai acontecer. O organismo habitua-se a acordar àquela hora e já nem precisa de despertador. Quando alteramos o ritmo, entramos em contraciclo e é isso que causa os problemas que referi.

O que acontece no organismo quando o sono não acompanha o ritmo circadiano?
Ambas as situações são problemáticas, mas diferentes. As disrupções abrutas – o trabalho por turnos ou a mudança frequente de fuso horário – estão em contracorrente com o que o organismo precisa. O grande problema surge quando as alterações circadianas são constantes, porque o organismo nunca tempo de se adaptar, está sempre a correr atrás do prejuízo, o que faz que as células não estejam no intestino quando deviam estar, nem onde deviam estar e isso é o que está na origem da obesidade e inflamação.

Ao conhecer as moléculas envolvidas podemos pensar em alterar a sua função ou intervir de forma terapêutica em doenças em que estas células sejam necessárias ou dispensáveis.

Que portas abre esta descoberta?
Permite compreender o fundamental daquilo que é a condição normal de saúde e revela mais uma vez que o nosso organismo vive em comunhão com o ambiente e que uma vida regrada e em consonância com o ambiente que nos envolve – ciclos naturais de luz e escuridão – é determinante para a saúde. Não o respeitar tem consequências desfavoráveis. Mas, sobretudo, revela pela primeira vez que há uma autoestrada de comunicação entre o cérebro e o intestino e o papel que esta desempenha na regulação das células que são determinantes para o metabolismo e proteção do intestino. A descoberta de um contacto privilegiado entre o cérebro e o intestino é uma pedrada no charco. Ao conhecer as moléculas que estão envolvidas podemos pensar em alterar a sua função ou intervir de forma terapêutica em doenças em que estas células sejam necessárias ou dispensáveis.

Cada vez é mais clara a importância que o sistema nervoso tem na coordenação ou regulação do sistema imunitário? Isso significa o quê?

Durante muitas décadas o sistema nervoso e o sistema imunitário foram considerados como entidades muito distintas e que raramente interagiam. Cada um destes sistemas desempenharia funções muito distintas, por exemplo cognição e imunidade, e estas últimas eram estudadas de forma isolada. Posteriormente começou a perceber-se que certas células do sistema imunitário têm um papel importante no desenvolvimento e manutenção de um cérebro saudável. Mas só recentemente percebemos que o sistema nervoso comunica de forma bidirecional com células imunitárias, e isto em muitos órgãos distintos, desde a pele ao intestino, passando pelos pulmões e o tecido adiposo.

A descoberta destas interações abre todo um leque de novos alvos terapêuticos até agora desconhecidos.

Qual o significado destas descobertas? Em primeiro lugar estes estudos demonstram que estes dois sistemas estão muito mais interligados do que pensávamos, usam linguagens moleculares semelhantes e influenciando-se mutuamente. Em segundo lugar, a descoberta destas interações abre todo um leque de novos alvos terapêuticos até agora desconhecidos. É um novo campo de investigação que se abre no nosso horizonte.

Leia também a entrevista que Henrique Veiga-Fernandes deu ao DN, em novembro do ano passado, quando recebeu o importante prémio Allen Distinguished Investigator, criado pelo cofundador da Microsoft, Paul Allen.