Dos Celtas à Ìndia: porque é março o mês da renovação

Tal como acontecia na antiga Roma, o ano novo no Irão começa em março

Já foi o primeiro mês do ano e deve o nome a Marte, deus romano da guerra, porque era quando a primavera chegava que os romanos reiniciavam as suas campanhas militares (tradição que não se perdeu completamente). Mas, mais do que isso, março é mês de equilíbrio, florescimento e recomeço.

Texto de Catarina Pires

No Irão, o ano novo começa em março, como acontecia na antiga Roma, antes da entrada em vigor do calendário juliano, em 45 a.C., e em Inglaterra até 1752, quando foi adotado o calendário gregoriano. Neste ano de 2020, é possível que a ameaça do Covid-19 ensombre os festejos do Nowruz, que significa “novo dia” e cuja celebração dura 13 dias, mas é a 20 de março que os iranianos comemoram a entrada no novo ano.

Faz sentido, uma vez que é nesse dia, às 03h49, que se dá o equinócio, que marca o início da primavera no hemisfério norte (e do outono no sul), para os astrónomos e restantes mortais (para os meteorologistas a primavera começa já amanhã, a 1 de março). Dia e noite terão aproximadamente a mesma duração (daí que se chame equinócio, palavra que deriva do latim aequus – igual – e nox – noite – e significa “noites iguais”), o eixo da Terra far-se-á perpendicular aos raios de sol, que cruza nesse momento a linha imaginária do equador celeste, incidindo igualmente nos dois hemisférios, e o tempo – enquanto as alterações climáticas não dão cabo disto tudo de uma vez – será de reflorescimento e renovação na metade do planeta em que nos encontramos.

O adeus ao inverno e às suas privações e a celebração da primavera que na cultura celta eram assinalados com festividades em honra de Eostre, deusa da fertilidade e da abundância, estão, como se sabe, ligados à Páscoa, que significa passagem e celebra o êxodo, na tradição judaica, a ressurreição de Cristo, na tradição cristã, mas mantém muita da simbologia pagã anterior, relacionada com a fertilidade e a renovação.

Na Índia, o festival Holi enche as ruas de cores para comemorar o fim do inverno e o triunfo do bem sobre o mal.

Por todo o hemisfério norte assinala-se, além da Páscoa, este início de ciclo. Na Índia, por exemplo, o festival Holi enche as ruas de cores para comemorar o fim do inverno e o triunfo do bem sobre o mal e no Japão é tempo de Hanami, tradição ancestral de contemplação das cerejeiras em flor, que atrai milhares de japoneses e turistas estrangeiros. A flor de cerejeira é conhecida como flor da felicidade e não é por acaso que é também a 20 de março que se assinala o Dia Internacional da Felicidade, proclamado através da Resolução 66/281 adotada na Assembleia Geral das Nações Unidas de 12 de julho de 2012 com o “objetivo de reconhecer a relevância da felicidade e do bem-estar como metas e aspirações universais nas vidas humanas em todo o mundo” [ver texto em baixo].

No Japão é tempo de celebrar o Hanami com a contemplação das cerejeiras em flor.

Não é uma ciência, mas influencia o bem-estar e a felicidade de todos quantos nela acreditam. Para a astrologia, março marca também o início de um novo ano porque é durante o equinócio da primavera, quando dia e noite são iguais, que se alcança o equilíbrio e começa um novo ciclo com energias renovadas.

No equinócio da primavera, o Sol entra no signo de Carneiro, o primeiro do Zodíaco, regido por Marte, o planeta que deve o nome ao deus da guerra e que, segundo a astrologia, tem a força e o impulso necessários para começar de novo, e inicia-se o novo ano astrológico.

Acreditando ou não na influência dos outros astros na vida (e destino) de cada habitante da Terra, há que conceder que, se ouvirmos a natureza e entrarmos em sintonia com ela, não há melhor altura do que a primavera para fazer ctrl+alt+delete e começar tudo de novo. Desde que não seja uma guerra, como faziam os romanos, numa tradição que parece ter deixado raízes, pelo menos nos EUA, cujas “intervenções” militares têm tendência a acontecer no mês de março [Vietname, a 8 de março de 1965, Iraque, a 20 de março de 2003, ou Líbia, a 19 de março de 2011].

As sete lições de felicidade de Tal Ben-Shahar *

Lição 1. Dê a si mesmo permissão para ser humano. Quando aceitamos emoções como o medo, a tristeza ou a ansiedade como naturais, é mais provável que as superemos. Rejeitar as emoções, positivas ou negativas, leva à frustração e à infelicidade. Somos uma cultura obcecada pelo prazer e acreditamos que a marca de uma vida digna é a ausência de desconforto e, quando sentimos dor, tomamo-la como sinal de que alguma coisa não está bem. Algo não estaria bem se nunca sentíssemos tristeza ou ansiedade, que são emoções humanas.

Lição 2. A felicidade está na intersecção entre prazer e significado. Os estudos mostram que uma ou duas horas de uma experiência significativa e agradável podem afetar a qualidade de um dia inteiro ou mesmo de uma semana inteira.

Lição 3. Tenha em mente que a felicidade depende sobretudo do nosso estado de espírito, não do nosso estatuto ou do saldo da nossa conta bancária. Excluindo as circunstâncias extremas, o nosso nível de bem-estar é determinado por aquilo em que escolhemos focar-nos e pela interpretação que fazemos dos acontecimentos exteriores.

Lição 4. Simplifique! Geralmente, estamos ocupados de mais, tentando enfiar cada vez mais atividades em cada vez menos tempo. A quantidade influencia a qualidade e comprometemos a nossa felicidade tentando fazer muito. Saber quando dizer não aos outros geralmente significa dizer sim a nós mesmos.

Lição 5. Lembre-se da ligação mente-corpo. O que fazemos – ou não fazemos – com o nosso corpo influencia a nossa mente. O exercício regular, o sono adequado e hábitos alimentares saudáveis facilitam a saúde física e mental.

Lição 6. Demonstre gratidão sempre que possível. Muitas vezes tomamos as nossas vidas como garantidas. Aprenda a apreciar e a saborear as coisas maravilhosas da vida, das pessoas à comida, da natureza a um sorriso.

Lição 7. Saber criar prioridades nos relacionamentos. O indicador número um de felicidade é o tempo que passamos com pessoas de quem gostamos e que se preocupam connosco.

* É escritor, conferencista e antigo professor de Psicologia Positiva e Psicologia da Liderança, em Harvard, onde se formou em Filosofia, Psicologia e Comportamento Organizacional.