Pedir respostas ao Dr. Google? Deve fazê-lo com cuidado

É um hábito nos dias de hoje. Pesquisar através do Google porque teve uma dor de cabeça repentina ou quanto dura em média uma constipação pode levá-lo a uma enchente de respostas (e stresses).

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

Em 2016, a Google anunciara que 1% das suas pesquisas – que correspondem a milhões de pesquisas – estavam relacionadas com sintomas de doenças. Nem sempre, no entanto, as respostas deixavam os internautas mais esclarecidos.

Na tentativa de alterar esse panorama, a gigante tecnológica prometeu fornecer informação mais útil, recolhendo informações médicas junto de médicos da Universidade de Harvard e da Clínica May.

As pesquisas feitas através do Google nem sempre apresentam informação fidedigna ou são cientificamente comprovadas.

«O objetivo é ajudá-lo a navegar e a explorar as doenças ligadas aos seus sintomas e assim chegar rapidamente ao ponto em que pode fazer pesquisas mais aprofundadas ou conversar com profissionais de saúde», podia ler-se no anúncio, que apresentara inovações apenas nos EUA e Reino Unido.

Ainda assim, as pesquisas feitas através do Google nem sempre apresentam informação fidedigna ou são cientificamente comprovadas. Foi a pensar nessas pesquisas que Robert Shrimsley, diretor do Financial Times, decidiu partilhar a sua experiência através de um artigo de opinião.

«Enquanto estava deitado, a vomitar num tubo de 12 milímetros que estava a ser colocado dentro da minha garganta, tinha boas razões para reconsiderar o benefícios do diagnóstico do Dr. Google», começa por escrever o jornalista.

Robert Shrimsley, levado pelas pesquisas na Internet a fazer uma endoscopia, revela que não é seu hábito fazer pesquisas sobre sintomas. Contudo, as «dificuldades ocasionais em engolir e as longas horas de pesquisa» levaram-no a consultar o médico e, posteriormente, a convencer o especialista que deveria fazer o exame de diagnóstico.

«Todos dizem que a endoscopia é um procedimento desagradável. Digo-lhe já: não estão a brincar. Pode durar apenas cinco minutos, mas são cinco longos minutos. Quando não estava a lutar para controlar a minha respiração, estava a pensar que não me sentia bem sob tortura», revela o diretor.

Por fim, indica ainda que felizmente os resultados foram positivos, ainda que os momentos de espera o despertassem para um cenário terrível: «sabes que mesmo que tenhas entrado numa sala sentindo-te bem, podes sair com um diagnóstico mortal. Se isso não me enervava, despertou-me ainda que poderia haver potenciais complicações, o que me fez refletir sobre a estupidez de insistir num diagnóstico que não encontrou nada, mas que me poderia matar. Semelhante ao que acontece com todas as pessoas que morrem a tirar selfies».

Apesar da lição, Robert Shrimsley diz ainda que o «googling» não desapareceu da sua vida e que continua a procurar novas causas dos sintomas que lhe vão aparecendo.

Em Portugal, um estudo feito pela Comissão de Tecnologias de Informação em Saúde do Parlamento da Saúde realizado no ano anterior, revela que 88% dos portugueses utiliza a Internet para fazer pesquisas sobre saúde.

Em 2017, o Google revelou quais são as principais questões relacionadas com a saúde que surgem no motor de pesquisa. O que causa cálculos renais ou quanto tempo dura uma gripe são apenas algumas das dúvidas mais frequentes entre os cibernautas.

Em Portugal, um estudo feito pela Comissão de Tecnologias de Informação em Saúde do Parlamento da Saúde realizado no ano anterior, revela que 88% dos portugueses utiliza a Internet para fazer pesquisas sobre saúde, sendo que apenas seis por cento considera que esta é uma fonte tão credível como um médico.

Em entrevista ao Diário de Notícias, a propósito desta análise, a médica e coordenadora do estudo Sofia Couto da Rocha explicou, na altura, que a Internet, utilizada de forma correta, pode «quebrar muitas barreiras que existiam no acesso ao doente», mas lembra que «há também o risco de as pessoas deixarem de procurar o médico por estarem convencidas de que estão esclarecidas sobre a sua situação, o que pode atrasar o diagnóstico real».