É de homem???

A mais recente campanha da marca L’Oreal tem dado que falar, e não por boas razões. Mas o facto de estar a dar que falar é, já em si, um bom sinal, pois significa que muitas pessoas, homens e mulheres, se indignam por não conseguirem rever-se naquelas mensagens.

Esta campanha mostra homens semi-nus, com músculos bem delineados, fortes e seguros, quais Adónis dos tempos modernos, ao lado de frases como “bolas grandes”, “resistir mesmo quando o clima aquece”, “para dias intensos, tamanho XXL”, “banho é para meninos, duche é de homem”, “jogar com sangue, suor e lágrimas”, sendo que tudo isto “é de homem”.

Pois bem, se “isto” é de homem, então o que será de mulher?

Se a campanha fosse dirigida a um público-alvo feminino, imagino alguma coisa do género “mamas grandes”, “rabo empinado”, “uma verdadeira fada do lar” ou “disponibilidade, sempre…”, isto sim, “é de mulher”.

Ideias certamente retiradas de um qualquer documentário que explica a vida em sociedade e os papeis atribuídos aos homens e às mulheres no período Paleolítico, há cerca de 2,5 milhões de anos… ideias que, certamente, não esperávamos ver defendidas em pleno século XXI.

Estamos, assim, perante um conjunto de mensagens pré-históricas que apenas contribuem para reforçar estereótipos associados ao género. Os homens devem ser fortes e assumir uma posição dominante, enquanto as mulheres, mais fracas, devem assumir um papel de submissão e subserviência. Os homens têm bolas grandes, que é como quem diz, são viris e cheios de desejo sexual. Têm de ter maravilhosas performances, não suar (porque quem sua são os fracos!) e resistir até a climas mais tórridos. As mulheres, coitadas, limitem-se a cuidar da casa e a ter bebés, mantendo o homem activado mesmo quando as bolas são pequenas.

São ainda partilhadas por todos os que aceitam que o seu filho deseje ser astronauta ou piloto de automóveis, e que a sua filha aspire a ser cabeleireira ou princesa. Mas nunca o contrário. Brincadeiras, actividades e expectativas rígidas em função do género.

Mas desengane-se já quem pense que estas ideias são apenas partilhadas pelos criativos da dita campanha. Antes fossem. São partilhadas por todos aqueles que, de uma forma rígida, vestem os meninos de azul e as meninas de cor-de-rosa, que inscrevem os rapazes no futebol e as raparigas no ballet, e que entendem que eles devem brincar com carros e espadas e elas com bonecas e unicórnios. São ainda partilhadas por todos os que aceitam que o seu filho deseje ser astronauta ou piloto de automóveis, e que a sua filha aspire a ser cabeleireira ou princesa. Mas nunca o contrário. Brincadeiras, actividades e expectativas rígidas em função do género. Porque os meninos que se vestem de rosa, choram ou brincam com bonecas são maricas e as meninas que jogam à bola e gostam de lutas são marias-rapaz. E ponto final, parágrafo.

Estamos, então, a educar as crianças e a olhar a sociedade de uma forma dicotómica, dividida em termos de preto e branco, sem cores intermédias. Mas será que queremos nós, mulheres e homens, continuar presos a estes estereótipos? A estas amarras que condicionam o que pensamos e sentimos, a forma como o expressamos e como nos relacionamos com os outros?

Importa ainda pensar no impacto que estes estereótipos têm na forma como os homens se comportam e relacionam. Os comportamentos de risco que adoptam, tantas vezes como uma forma de provar a tão desejada coragem e superioridade.

A resposta é não. Não queremos viver formatados por um conjunto de ideias estapafúrdias que nos impedem de ser livres. As mulheres desejam despir-se, não da roupa, mas sim de uma imagem passiva, caseira e inferior. Os homens desejam despir-se, não da roupa, mas sim de uma imagem de macho alfa brutamontes.

Importa ainda pensar no impacto que estes estereótipos têm na forma como os homens se comportam e relacionam. Os comportamentos de risco que adoptam, tantas vezes como uma forma de provar a tão desejada coragem e superioridade. As relações de violência com as mulheres, acima de tudo caracterizadas pela assimetria de poder e desejo de controlo. A dificuldade em pedir ajuda, porque homem que é homem é forte e resiste a tudo. Procurar ajuda psicológica, por exemplo, admitindo dificuldades que podem ser de natureza tão diversa, surge quase como uma confissão de fraqueza e vulnerabilidade.

Senhores e senhoras da dita marca de produtos para homem, que tal olhar à vossa volta e perceberem que já não vivemos como nómadas, não caçamos com pedras lascadas nem perseguimos mamutes para nos alimentarmos? Que tal ouvirem homens e mulheres reais e perceberem o que estes pensam, sentem e querem?

É de homem? Não, não é de homem. É apenas do homem que, nas vossas cabeças, ainda existe ou deveria existir. Aproveitem, por favor, o poder que vos é conferido para transmitir mensagens que promovam sentimentos de bem-estar, aceitação e inclusão.
Já imaginaram o que sente um homem de bolas pequenas ao passar pelos vossos cartazes?