E depois de se cortar o cordão umbilical?

É o momento em que o bebé se separa fisicamente da mãe, a mãe se separa da mulher que era antes de ser mãe. E o momento em que o pai diz adeus ao rapaz despreocupado que foi em tempos, enquanto dá colo ao bebé e à mulher que choram. Uma longa caminhada começa com este pequeno corte.

Texto de Ana Pago

Antes de ser mãe, quando se imaginava a ter filhos e só pensava nos documentários mais sanguinolentos de vida selvagem, com uivos de dor até à expulsão final da cria, Susana Almeida supunha que nunca passaria por nada pior do que o parto. Não podia saber, não ainda, que o medo maior vem depois, ao cortar-se o cordão umbilical e ver os filhos pela primeira vez. “A mãe também acabou de nascer. Tal como a minha filha, eu era uma mãe recém-nascida e não foi nada do que estava à espera”, conta a autora de Ser Supermãe É Uma Treta (ed. Influência), considerando que a Susana que era antes ficou para sempre no bloco de partos para ali nascer outra mulher. A mãe.

Isto porque a barriga desaparece, o bebé torna-se externo ao corpo e a mulher precisa de reestruturar a perceção da sua imagem e identidade. “Agora ela é mãe “real” de um ser totalmente dependente, o que é muito complexo, confuso, solitário, mesmo assustador”, defende a psicóloga clínica Ana Correia, investigadora na área do luto. Durante a gravidez, a mãe proporciona ao seu bebé um ambiente seguro em que ele cresce e se desenvolve, numa união simbiótica a nível físico que comporta uma ligação emocional e afetiva muito forte. “O corte do cordão umbilical tem uma carga simbólica fortíssima porque ali termina, de facto, a fusão com a mãe”, diz a especialista. Trinta e nove semanas de filho no útero deixam marcas quando finalmente os separam.

“A gravidez e o parto são cada vez menos uma questão exclusivamente feminina e cada vez mais um assunto de família, com um aumento da participação ativa dos homens”, reconhece a psicóloga Ana Correia, apologista de se fomentar a participação do pai em todas as etapas. (Fotografia Reinaldo Rodrigues/Global Imagens).

“Num dia estava a preparar o enxoval e no outro tinha uma criatura estranha nos braços. Fiquei sozinha com a minha filha, olhei para ela a dormir e continuava a ser uma estranha”, recorda Susana Almeida, que durante algum tempo sentiu que estava dentro de um corpo que não lhe pertencia, numa realidade que não era a sua. “O que as mães vivem nesse período é muito mais do que recuperar o corpo após o parto. É renascer, fazer o luto da mulher que conheciam e descobrir quem são agora”, garante a blogger, que entretanto aprendeu que podemos ter medo e errar à vontade, sem razão para culpas. Ninguém mais volta ao estado anterior à gestação, pelo que bem podemos chorar um bocadinho de vez em quando para aliviar.

Ser “desligado” quando o cordão umbilical é cortado custa tanto ao filho como à mãe, garante a psicóloga clínica Ana Correia.

Sendo certo que este embate de ser “desligado” custa tanto ao filho como à mãe, lembra a psicóloga Ana Correia: “Comparado com outros primatas, independentes em poucas horas ou dias, o bebé é o que nasce mais imaturo por necessitar do apoio constante de um adulto para sobreviver nos primeiros meses.” Os especialistas falam de um quarto trimestre de gravidez fora do útero, impossível de ocorrer lá dentro já que a cabeça não passaria no canal vaginal. “Durante o tempo de gestação vive quente, confortável, embalado pelos movimentos e pelos sons da barriga da mãe, mas este cenário protetor termina mal o bebé nasce, o que pode ser muito assustador e fraturante para ele também”, diz.

Na verdade, o cordão umbilical tem muito que se lhe diga.

É o principal elo de comunicação entre a gestante e o(s) filho(s) na placenta, fornecendo um aporte constante de nutrientes, oxigénio e sangue necessários ao crescimento dos órgãos. Quanto à estrutura em si, esta é bastante simples: duas artérias, uma veia e uma substância gelatinosa chamada geleia de Wharton, responsável por manter os canais juntos e impedir que colapsem antes de a cria estar repimpada nos braços da mãe. Uma vez cortado o cordão, espera-se que o recém-nascido seja suficientemente maduro para conseguir respirar e mamar sozinho, enquanto o restante cordão é puxado e contribui para desalojar a placenta. Será nessa altura que mãe e filho se perguntam que salsada é aquela que lhes está a acontecer.

O corte é tão importante a vários níveis – emocional, afetivo, comportamental, motor, cognitivo, até social -, que os próprios médicos não chegam a consenso quanto ao melhor momento de se fixar os dois clampes para cortarem entre eles. Há muito que a Organização Mundial da Saúde aconselha uma espera de um a três minutos, baseada em estudos que relacionam o corte tardio com um aumento do volume de sangue, das reservas de ferro e do desenvolvimento do cérebro da criança, a par de menos hemorragias intraventriculares ou necessidade de transfusões. “Nesse período passam para o bebé 80 a 100 mililitros de sangue da placenta, cheio de anticorpos que o fortalecem, previnem a anemia e evitam infeções”, explica o obstetra Paulo Gonçalves.

No mesmo sentido aponta o estudo Early Versus Delayed Umbilical Cord Clamping in Preterm Infants, revisão sistemática da Cochrane de 2012, ao concluir que “o clampeamento imediato do cordão (prática corrente na maioria dos hospitais) pode privar o recém-nascido de até 25% do volume de oxigénio circulante, especialmente se ainda não tiver iniciado a respiração espontânea”. Também a Academia Americana de Pediatria e o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas sugerem uma pausa de 30 a 60 segundos antes de cortar: o bebé beneficia assim do sangue que fica no cordão e na placenta sem inviabilizar a colheita de células para criopreservação, se for essa a vontade dos pais.

No extremo, há mulheres que recusam ser separadas à força do seu recém-nascido, insistindo em mantê-lo ligado à placenta até o cordão umbilical cair sozinho (o chamado parto de lótus).

Depois, claro, existem as mulheres que recusam ser separadas à força dos recém-nascidos, insistindo em mantê-los ligados à placenta até o cordão umbilical cair sozinho (o chamado parto de lótus, que os médicos desaconselham por propiciar infeções). Clara Riva, de Queensland, foi uma dessas mães: durante cinco dias, a australiana dividiu a cama com o bebé Luke e um alguidar com a placenta, à espera que se soltasse naturalmente. Evan, o marido, ajudava a limpá-la. Quando o cordão se desprendeu, o casal enterrou a placenta sob uma árvore de fruto “para honrá-la”. As pesquisas da primatóloga Jane Goodall sustentam o método, depois de a cientista reparar que as chimpanzés não mastigam nem cortam o cordão umbilical dos seus macaquinhos.

“A par do nascimento biológico podemos falar, em grande medida, num nascimento psicológico para pais e filhos”, sublinha a psicóloga clínica Ana Correia, ciente de que ao longo da vida haverá inúmeros momentos de separação-individuação e está tudo bem, faz parte do crescimento. Se ao início o bebé não vê na mãe alguém distinto dele, aos poucos começa a diferenciar o seu corpo do dela (pelos 6 meses), a querer largar o colo, a recear os estranhos com medo de que ela o abandone. Deste amor resulta um acumular de experiências que a criança vai integrando até ser capaz de cuidar e, sobretudo, de gostar de si mesma: o amor-próprio.

“O corte do cordão umbilical leva a uma separação, mas esta é apenas física. Depois há toda uma outra ligação de envolvimento afetivo que se desenvolve gradualmente no primeiro ano de vida, o recém-nascido não fica desamparado”, acrescenta a terapeuta, inteirada desta dualidade em que o bebé aprende a conhecer-se, e ao mundo, através da mãe. “Além disso, as atuais práticas de humanização do parto visam acolhê-lo de maneira a suavizar, desde logo, o impacto da diferença entre o ambiente intra e extrauterino”, diz.

Mesmo em adultos, os filhos continuam a precisar do conforto da mãe, o que os leva muitas vezes a guardar ursos zarolhos e mantinhas sebosas da infância.

O facto de já não haver uma fusão entre dois seres, de forma literal, não significa que a separação seja total ou se possa forçar o desapego. Pelo contrário: mesmo em adultos, os filhos continuam a precisar desse conforto, o que os leva muitas vezes a guardar ursos zarolhos e mantinhas sebosas da infância. “São objetos associados à segurança que os pais dão, razão por que aconchegam em momentos de maior instabilidade sem prejudicar a maturidade”, adianta a psicóloga clínica Teresa Andrade, docente no Instituto Universitário Egas Moniz. As qualidades remetem para a mãe: fofos, quentes, bons de abraçar. Os especialistas chamam-lhes de transição por ajudarem os pequenos a gerir a angústia de ficarem sós, o que justifica o valor sentimental atribuído.

“Apoiam-nos nas transições, nos receios que isso lhes provoca, daí poderem ser úteis a vida inteira ou afastados à medida que a criança aprende a lidar com os seus medos”, reforça a psicóloga. Foi em 1953 que o inglês Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, usou pela primeira vez o termo objeto de transição para se referir à tal etapa em que o bebé descobre que a mãe é uma pessoa diferente dele e nem sempre estará ali para satisfazer as suas necessidades, pelo que mais vale encontrar um substituto digno (o afago de um peluche é melhor do que nada). A experiência mostra a Teresa Andrade que miúdos particularmente afetivos, ou nervosos por se separarem dos pais, tendem a precisar mais de se ligar a um objeto especial durante o crescimento.

E o pai, onde fica nesta história?

Segundo um estudo realizado em 2012 pelo enfermeiro João Nogueira, especialista em saúde materna, obstetrícia e ginecologia, existem três grandes áreas de dificuldade para os homens durante a gravidez: “A primeira refere-se a um sentimento de irreal relacionado com a falta de provas visíveis de um filho que vai nascer, e do seu desejo simultâneo de criar uma ligação emocional com o bebé”, enumera. A segunda diz respeito ao relacionamento com a grávida, dado que expectativas e necessidades divergentes entre o casal conduzem a desequilíbrios inevitáveis. E a terceira prende-se com a formação da identidade de pai, a somar às já existentes de parceiro e filho. Não são apenas as mulheres a ter de descobrir quem são agora.

“A gravidez e o parto são cada vez menos uma questão exclusivamente feminina e cada vez mais um assunto de família, com um aumento da participação ativa dos homens”, reconhece a psicóloga Ana Correia, apologista de se fomentar a participação do pai em todas as etapas. Não há como esquecer que os pais eram abandonados neste processo até há muito pouco tempo, fruto do contexto social e cultural em que vivemos. Porém, também eles são fortemente afetados pelo nascimento do seu bebé. É uma linha tão importante que, se para a mãe o corte do cordão umbilical pode ser uma perda simbólica, para o pai é um ganho, independentemente de assistir ou não ao parto.

Para o pai, o corte do cordão é um ganho porque o bebé se desliga biologicamente da mãe, ligando-se a ele fisicamente pela primeira vez.

“Pela primeira vez, o bebé desliga-se biologicamente da mãe e liga-se fisicamente ao pai, a carga emocional é imensa”, explica a investigadora. Os homens não notam alterações no corpo, não têm a barriga a crescer, não sentem o bebé mexer, no entanto gostam, precisam e têm o direito de serem envolvidos, não apartados. Bem dizia Almada Negreiros que um cordão umbilical não se falsifica: ou há ou não há.

“Como se não bastasse, o aparecimento de um filho traz ainda outro corte impactante, que são os efeitos na relação do casal”, avisa a psicóloga. É necessário acertar muito bem o passo nesta dança para não dar asneira. “Embora agora seja a três enquanto pais, não deve nunca deixar de ser a dois enquanto namorados”, diz. Para separações já nos chega este suplemento.