É esta a idade (surpreendente) em que crianças começam a pensar na reputação

Quem o diz é a ciência: somos muito mais sensíveis ao que os outros pensam a nosso respeito do que alguma vez poderíamos supor. Coisas de crianças…

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Aos 24 meses as crianças completam a primeira dentição. Já não são bebés, mas ainda precisam de dormir mais de 11 horas por dia. Sabem usar as birras, socializar cada vez mais e até perguntar o que as inquieta, no que contam com um vocabulário de até 300 palavras, com verbos e adjetivos.

Só não supúnhamos ser esta a idade – bastante precoce – em que começam a preocupar-se também com a sua reputação, apurou agora um estudo conduzido na Universidade Emory, EUA, e publicado na revista científica Developmental Psychology, da Associação Americana de Psicologia. Por outro lado, a consciência é tudo.

Quando começam a formar orações de duas palavras, as crianças percebem que o seu comportamento pode ser avaliado positiva ou negativamente por outros.

«A nossa investigação sugere que aos 24 meses, quando começam a formar orações de duas palavras, as crianças percebem que o seu comportamento pode ser avaliado positiva ou negativamente por outros», explica Sara Valencia Botto, especialista em cognição e desenvolvimento em Emory e uma das principais autoras do estudo.

Isto quando até agora se pensou que esse era um comportamento reservado a crianças mais velhas de 4 ou 5 anos, nunca menos. «A nossa preocupação com a reputação é algo que nos define como humanos», sublinha Botto, considerando que só gastamos rios de dinheiro com maquilhagem e roupas de marca por temermos a forma como os demais nos avaliam.

O que nos leva diretamente ao medo de falar em público, mais recorrente entre os adultos do que qualquer outro medo, inclusive o da morte.

O que nos leva diretamente ao medo de falar em público, mais recorrente entre os adultos do que qualquer outro medo – inclusive o da morte – justamente pelo terror de podermos não cumprir os padrões impostos pela sociedade, sempre de olho em nós de dedo apontado, atenta às falhas (ou pelo menos assim o julga a maioria).

«Estas nossas descobertas deixam-nos mais próximo de compreender quando e como nos tornamos mais ou menos sensíveis à avaliação de outras pessoas, além de reforçar a ideia de que as crianças são bem mais inteligentes do que poderíamos pensar», conclui Sara Valencia Botto.

No final, o sucesso da criança dependerá de como ela vai ser capaz de afetar os que a rodeiam de forma mais ou menos positiva.

E tem boas razões para isso, segundo a psicóloga clínica e investigadora em pedagogia Teresa Andrade. Crianças capazes de ler o mundo à sua volta estão a aprender a ir ao encontro daquilo que precisam e desejam, desenvolvendo a cada passo a inteligência emocional.

«No final, o sucesso irá depender de como a criança, no exercício da sua vontade, vai ser capaz de afetar os que a rodeiam de forma mais ou menos positiva, mas este é um ponto que pode ser aproveitado, desde logo, para ela desenvolver uma forte apetência para a autonomia e a liderança», acrescenta.

Uma coisa é certa: os filhos só aprendem se os pais lhes apresentarem alternativas construtivas que os façam sentirem-se valorizados, em vez de críticas constantes. Razão por que lhe deixamos na fotogaleria algumas dicas simples de como agir com eles no dia-a-dia.