É o meu carro, conduzo eu. Não gostas, vais a pé.

– Deixa-me levar o carro.
– Não. Tu não sabes onde é que é aquilo.
– Tu explicas-me.
– Não explico nada. Quando estás a conduzir não explico nada. Tu não ouves nada. Depois enganamo-nos e chegamos tarde, como é costume.
– Deixa lá. Eu ouço-te. Desta vez eu presto atenção ao que dizes. Prometo.
– Não promete nada, não sejas parvo. Não me dês música. Sentas-te ao volante e transformas-te noutra pessoa. Vá, esquece, vamos embora.
– É que está-me a apetecer conduzir.
– E a mim também. E então?
– Era só um bocadinho…
– Mau… Depois tu chegas o banco para trás e mexes nos espelhos e fica tudo desregulado e tenho de acertar outra vez.
– Vá lá. Eu volto a deixar tudo no mesmo sítio.
– Não insistas. Quem leva o carro sou eu.
– Mas ontem levaste tu.
– Pois levei. É o meu carro, lembras-te?
– Eu sei que é o teu carro, mas podias deixar-me conduzi-lo. És sempre tu.
– Como?! Sou sempre eu a conduzir o meu carro? Pois sou!! É meu. Era o que faltava agora isso deixar-te chateado.
– Não fico chateado, mas gostava de experimentar uma vez.
– Olha lá, mas eu chateio-te para conduzir o teu carro?
– Podes chatear à vontade, eu deixo.
– Tu deixas, mas eu não quero. É o teu carro, conduzes tu. O meu carro, conduzo eu. Mas porque é que estamos a ter esta discussão?
– Porque ainda não me deixaste sentar ao volante uma única vez desde que o compraste.
– Olha, não deixei, e com essa conversa todo, nem vou deixar. Não quero ficar com o carro riscado. É novo, custou-me a pagá-lo, saiu-me do bolso e não me apetece ficar chateada.
– Mas desde quando é que eu risco os carros?
– Já viste o teu?
– Está riscado porque está na rua. Se tivéssemos garagem não estava riscado.
Está riscado porque tu não sabes estacionar. E cada vez que te aproximas de um muro ou estacionas ao pé de outro carro, deixas lá um bocado de tinta?
– Desculpa? Eu não sei estacionar?
– Não! Tu não sabes estacionar. Pronto, já disse. Estava para aqui para trás e para a frente, para não ferir o teu orgulho masculino de condutor exímio, mas a verdade é que tu és mau condutor. E já estou farta de arranjar desculpas para não pegares nos meus carros.
– Tu arranjas desculpas para eu não conduzir os teus carros? Mas já fazes isto há muito tempo?
– Não, há muito tempo não. Só desde que enviaste o para-choques do outro carro que eu tinha num poste.
– Foi o pé que fugiu do travão. Eu expliquei-te.
– Sim, querido. Eu sei. Mas olha, está na altura de aceitares este facto. Tu não és tão bom como pensas que és. Estou a falar da condução.
– Olha, estás-me a dar uma novidade. Nunca ninguém me disse isso.
– É porque sabem que tu és muito sensível. Tens a mania que és muito bom.
– Mas alguma vez te sentiste insegura, comigo?
– Não, insegura não. Tu não és mau porque és perigoso. Tu és mau porque és aselha. Porque riscas o carro, dás um toque nos outros quando fazes marcha-atrás sobes passeios…
– Eu sou é distraído.
– Não, querido. Tu és mau condutor. E eu gosto muito de ti mas não tenho a mínima pachorra para essa coisa de o homem conduzir e a mulher ir ao lado só porque tu tens um problema de ego. E de condução, também.
– Mas eu não sou assim. Eu não tenho problemas em ir ao teu lado e ser conduzido por ti?
– Ai não? E consegues andar dez quilómetros com a matraca fechada? Sem dar bitaites? Sem dizer para meter uma quarta ou para acelerar? Sem passar o tempo a olhar para o meu velocímetro? Consegues?
– Consigo.
– Então vamos experimentar. Entra. Eu é que levo o carro.