“É preciso aumentar a consciencialização sobre os direitos das pessoas idosas”

O professor Asghar Zaidi, coordenador do projeto Índice de Envelhecimento Ativo, da UNECE, esteve em Portugal, a convite da embaixada britânica, para participar no primeiro Fórum Portugal – Reino Unido sobre Envelhecimento Saudável. O instrumento de análise comparativa, que pretende ser uma ferramenta que ajude os países a delinear as melhores estratégias para melhorar a qualidade de vida dos mais velhos e tornar a terceira idade mais ativa e independente, diz-nos que Portugal, apesar de estar entre os primeiros no que diz respeito a envelhecimento, não ultrapassa o meio da tabela quando a este se acrescenta a palavra ativo.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de João Silva/Global Imagens

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. A questão do envelhecimento ativo e saudável é uma preocupação há décadas. Que lugar ocupa o país no seu Índice de Envelhecimento Ativo (IEA)?

Ocupa a 16ª posição entre os 28 países da UE, semelhante à República Checa, mas melhor que a maioria dos outros países da Europa Oriental.

O valor do IEA para Portugal é de cerca de 45% relativamente ao país com melhor desempenho, pelo que existe uma grande margem para melhorias através da aprendizagem mútua.

Portugal tem um baixo desempenho, particularmente no segundo domínio analisado, que é o da participação social, que contém vários indicadores de atividades socialmente produtivas entre os mais velhos, como voluntariado, cuidado de crianças e idosos e atividades cívicas. Em comparação com o Reino Unido, Portugal fica aquém no que respeita a voluntariado e atividades cívicas. Em comparação com Espanha, os idosos portugueses saem-se particularmente pior enquanto cuidadores (sobretudo de outros idosos).

Quais são os países com melhor desempenho e qual é o “segredo” para isso?

Os três países escandinavos (Suécia, Finlândia e Dinamarca) são os países com melhor desempenho. Saem-se bem nos quatro domínios do IEA – emprego; participação na sociedade; vida independente, saudável e segura; promoção de um ambiente favorável ao envelhecimento ativo – mas superam os outros países no terceiro domínio, que contém indicadores importantes como segurança física, bem-estar subjetivo e uso das tecnologias de informação. Portugal tem melhores resultados do que os países com melhor desempenho no que respeita às relações sociais.

Qual a importância deste instrumento – o Índice de Envelhecimento Ativo – para apoiar o desenvolvimento de estratégias para o envelhecimento ativo e saudável?

É único na identificação de prioridades políticas. Ao comparar o desempenho relativo de Portugal com o de outros países, permite perceber o que é preciso melhorar e como. Oferece-nos dados e perpectivas de como determinadas políticas públicas podem ter ajudado um país a ter um melhor desempenho. A vantagem desta ferramenta é particularmente forte quando se realiza uma comparação por pares.

O que é prioritário para promover o envelhecimento ativo e saudável?

Na minha opinião, a prioridade mais importante é fortalecer os diferentes aspetos de criar um meio ambiente age-friendly, ou seja adaptado aos mais velhos. Isto pode ser conseguido melhorando o ambiente físico (tanto em casa como no espaço público) ou pela mudança de mentalidades, que privam os mais velhos de oportunidades de saudáveis, social e politicamente envolvidos e independentes.

Em que medida é que o envelhecimento ativo deve ser incluído na luta pelos direitos humanos?

As estratégias para a promoção do envelhecimento ativo e a proteção dos direitos humanos estão alinhadas entre si. Por exemplo, medidas que favoreçam um aumento das oportunidades de emprego para os mais velhos ajudará a proteger o direito ao emprego e as oportunidades de um rendimento decente.

O aumento da idade da reforma, que pode parecer uma medida para promover o envelhecimento ativo, também pode ser visto como uma forma de negar o direito humano de descansar e desfrutar de um envelhecimento saudável e feliz.

Verifica-se que o envelhecimento ativo está associado a uma melhor saúde e bem-estar; em contraste, a solidão está associada a uma pior saúde física e depressão.

A solidão e o isolamento são um dos problemas mais sérios no que respeita à qualidade de vida dos mais velhos. Como combater este problema?

As normas e os contextos são importantes nos fatores facilitadores do envelhecimento saudável; portanto, é necessário realizar mais pesquisas a nível local sobre o que é mais importante para Portugal no combate à solidão e ao isolamento.

As pessoas idosas geralmente não têm consciência dos seus direitos; portanto, sofrem o envelhecimento em silêncio. São necessárias campanhas para aumentar a consciencialização sobre os direitos das pessoas idosas e os mecanismos predominantes do idadismo contra os mais velhos. O bom trabalho de grupos de defesa dos direitos dos mais velhos, como o HelpAge international, tem que ser valorizado.

O idadismo é um conceito recente. Como eliminá-lo?

O idadismo tem três dimensões: o estereótipo, que tem que ver com a forma como vemos os idosos; o preconceito, que tem que ver com o que sentimos em relação a eles; e a discriminação, que tem que ver com a forma como agimos relativamente a eles.

Na minha opinião, mais e melhores oportunidades para os mais velhos, assim como um meio ambiente “senior-friendly” de que já falámos, ajudam a que estes se tornem mais envolvidos socialmente e mais independentes. Com o crescente papel social e económico dos idosos na sociedade, o preconceito e a discriminação contra diminuirão paulatinamente.

Não havendo legislação (convenções) sobre esta matéria, pode faltar capacidade institucional para identificar o idadismo e resolver o problema. É necessário desenvolver convenções juridicamente vinculativas, nacionais e globais, e fortalecer a capacidade institucional estabelecendo como prioridade a proteção dos direitos dos idosos. Vale a pena conhecer o trabalho do UN-OEWG sobre envelhecimento.

As mulheres vivem mais do que os homens, mas vivem pior e mais dependentes. Também nesta área, a desigualdade de género persiste.

A atual geração de mulheres tem um pior desempenho do que os homens no que respeita ao envelhecimento saudável e ativo e isso acontece sobretudo porque têm pensões e rendimentos mais baixos e não tiveram o mesmo nível de oportunidades de emprego no final da carreira. A expectativa é que, no futuro, as mulheres tenham melhores pensões de reforma e os níveis de emprego se tornem semelhantes aos dos homens.

Há anos que estuda e trabalha na área do envelhecimento ativo e saudável. Que balanço faz dos desenvolvimentos nesta matéria?

Do nosso trabalho, resulta claro que o envelhecimento ativo está a crescer em quase todos os países europeus. Também verificamos que temos mais e melhores dados que nos permitem identificar as políticas que tiveram e têm melhores resultados na promoção do envelhecimento ativo.

Quais são os principais desafios para o futuro no que diz respeito ao envelhecimento ativo e saudável?

Precisamos adotar uma linha de pensamento de “regresso ao futuro”: precisamos de melhores dados e instrumentos analíticos, como os modelos de microssimulação. É necessário recolher mais e melhores dados para chegar a conclusões sobre quais as políticas que funcionam na promoção dos direitos das pessoas idosas.