E quando são os homens que não querem ter sexo?

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Há homens que não desejam ter sexo, tal como existem mulheres que não querem fazê-lo. Mas se nelas essa falta de vontade é considerada normal, eles angustiam-se e silenciam a sua como podem. A sociedade não é muito branda com o “não” masculino.

Texto de Ana Pago

A força de um casal forja-se na adversidade, tanto quanto na intimidade, e Marta Sousa fez-se mais mulher naquela relação, tem a certeza disso. Por ela, bastava pensar no namorado para querer tocar-lhe, o coração acelerado no peito, as noites sem se largarem. Até ao dia em que ele passou a evitar o sexo e a fez perder-se no medo de desistir deles – ninguém aguenta tanta rejeição – e num medo, muito pior, de desistir dela própria.

“Estou com o Pedro há cinco anos, nos últimos dois fizemos sexo três vezes, e eu não sei explicar isto, não sei”, desabafa a assistente imobiliária, resignada com a possibilidade de nunca vir a perceber o que se passou: “Tentei falar várias vezes com ele para entender o que sente, porque deixou de me tocar, mas o que comecei a ouvir foi ‘tenho sono, estou cansado’.” De resto, nada. Não lhe responde a mais nada, não diz o que sente. E ela esgotou-se nessa falta de ligação, mais até do que na falta de sexo.

“Parece uma verdade de La Palice, mas quanto menos se faz e menos se conversa, menos apetece fazer e conversar”, explica o psiquiatra Francisco Allen Gomes, especialista em sexologia e no que afeta a libido masculina. Para o médico, não há volta a dar: ou se alimenta o desejo com regularidade ou ele acaba morto pela pressão esmagadora da vida moderna – sendo que a falta de sexo arrastará invariavelmente uma série de outros problemas para a relação.

O casal chega a casa exausto, adia, deixa de querer, e ao dar por isso passaram-se três meses, quatro, cinco sem haver contactos.

“Sabe como é: o casal chega a casa exausto, vai adiando, deixando de querer, e ao dar por isso passaram-se três meses, quatro, cinco sem haver contactos”, sublinha Allen Gomes, que hoje em dia aponta a falta de desejo masculino como a terceira queixa dos homens nas suas consultas de psiquiatria/sexologia, logo a seguir à ejaculação precoce e à disfunção erétil.

“Sempre foi uma característica da nossa sociedade assumir que são as mulheres que não querem ter sexo e é a elas que falta a vontade de se envolverem com o parceiro, mas a realidade não é assim tão linear”, reconhece o psiquiatra. Mais vezes do que supomos é o homem que não está disponível: “Retrai-se por stress, incapacidade de cultivar uma relação, vergonha de falhar – sobretudo se há disfunção erétil e ejaculação prematura”, diz. A dada altura, a coisa descontrola-se nas relações.

Com Pedro e Marta foram praticamente dois anos com o sexo reduzido aos mínimos, até deixarem de o fazer de todo. “Comecei por tentar ser mais sedutora, ficar sexy para ele, mas não me correu bem”, conta a namorada, que tentou convencer-se de que passava bem sem ser tocada para não o pressionar. “Pedi-lhe para fazermos terapia de casal: não quis. Depois sugeri que fosse sozinho a um psicólogo, para explorar o que quisesse no íntimo dele, e ficou ofendido comigo.”

Ao fim de uns meses, estava ela num psicoterapeuta para conseguir lidar com o vazio e a autoestima em farrapos. “Dormimos na mesma cama sem nos tocarmos e o que eu sinto é que, mais do que uma questão de ter deixado de gostar de mim, é uma questão de ter deixado de gostar dele mesmo, de não se reconhecer o direito ao prazer”, supõe. Nunca se apercebeu de nada que não funcionasse com o seu homem. Nenhuma doença. Nenhuma amante. “Simplesmente, apagou o sexo até se tornar algo fora da sua vida e do seu interesse.”

Neste ponto, excluídas a ejaculação precoce e a disfunção erétil de que falava Allen Gomes, a psicóloga clínica Ana Carvalheira enumera diversas causas que favorecem a perda de desejo sexual masculino – segundo ela uma equação complexa que depende de variáveis biológicas, emocionais, cognitivas, psicossociais e culturais, conforme concluiu num estudo inédito em que pôde comparar os moldes do desinteresse sexual em 5255 homens portugueses, noruegueses e croatas, dos 18 aos 75 anos.

O stress profissional é a razão mais apontada por homens de todas as idades para a falta de desejo.

“O stress profissional é a razão mais apontada por homens de todas as idades, mas sobretudo na faixa dos 30-40 anos”, revela a investigadora em sexualidade do ISPA – Instituto Universitário. Outros fatores são conflitos na relação; questões de poder (quando um homem se sente inibido face a uma parceira mais dominadora); ansiedade e depressão (a maioria dos antidepressivos são inibidores da libido); dores físicas (decorrentes da idade e não só); fármacos para a diabetes, hipertensão, colesterol; a apatia sexual da própria parceira (capaz de desmotivar o mais insistente).

“Um outro aspeto que lhes perturba o apetite é o consumo de pornografia online associado a padrões de masturbação”, acrescenta Ana Carvalheira. Sendo uma prática rápida, fácil e económica, que deixa aliviar tensões sem nenhum investimento relacional, não lhe custa perceber a adesão: “Já tive pacientes no consultório que me dizem ‘gosto da minha mulher, de viver com ela, mas não quero fazer amor porque já me masturbei hoje com o telemóvel’”, conta, rebatendo o mito de que os homens estão sempre prontos para o sexo.

Também Marta Sousa desconhece a origem deste pressuposto que os enche de angústia só de pensarem que podem falhar na manifestação da sua virilidade. “Não está certo”, afirma. É de uma violência tremenda para eles – e para elas. “O que eu acho é que tal como não é justo pressionar os homens para fazerem sexo, é injusto achar que as mulheres não precisam disso.”

Entretanto, veja aqui quais as outras queixas que surgem com maior frequência nas terapias de casal (e como resolvê-las).