E se não comprássemos mais nada?

Talvez seja demasiado radical pôr as coisas em termos de tudo ou nada, numa espécie de anticonsumismo extremo. Porém, podemos parar de continuar a comprar mais e mais, sem critério, sob pena de acabarmos sufocados – e o planeta connosco. Exemplos, dicas e perguntas que se devem fazer antes de comprar algo.

Texto de Ana Pago

Shopaholics e consumidores médios de centros comerciais sabem bem o que a casa gasta: marketing mirabolante que oferece uma gola a quem comprar dois casacos de que não precisa. Escadas rolantes apinhadas de gente de olho nas promoções. Lojas que às 24.00 só fecham porque os funcionários têm de ir dormir, não por falta de clientes. Concordamos que é muito aprazível uma vida que responde a todas nossas necessidades (incluindo aquelas que pensamos ter e nos fazem acumular mais coisas desnecessárias). O único problema é isso estar a matar-nos aos poucos, o que leva já milhões de consumidores a abster-se de comprar tudo o que lhes apetece, sem critério.

“Nas nossas sociedades desenvolvidas, um número cada vez maior de cidadãos planeia modificar os seus hábitos de consumo. Não só os hábitos alimentares, mas de consumo em geral”, confirma o sociólogo e jornalista galego Ignacio Ramonet, atento ao fenómeno crescente que surge em resposta a uma maior consciência ecológica, ao medo das alterações climáticas e à crise económica que, em 2008, abalou violentamente a confiança dos países ricos. “Esta nova tendência aponta para a redução, o desapego, a desintoxicação. Como se começasse o declínio da sociedade de consumo e entrássemos no que começa a chamar-se de sociedade do desconsumo”, reflete o pensador.

A apresentadora Fernanda Freitas é madrinha do movimento Giving Tuesday” em Portugal

Por cá, os portugueses aderiram pela primeira vez ao movimento GivingTuesday, a 3 de dezembro, para equilibrar o consumismo desvairado da Black Friday e Cyber Monday, em dias anteriores. “O que o GivingTuesday quer é que isto seja uma loucura de dar, porque dar é mudar, a começar logo pelas mentalidades”, explica a apresentadora Fernanda Freitas, orgulhosa madrinha desta ação de solidariedade lançada em 2012 pela Fundação das Nações Unidas e pelo centro comunitário 92StreetY, em Manhattan, Nova Iorque (com o apoio da Fundação Bill & Melinda Gates).

“O GivingTuesday constitui um apelo a agir pela positiva. Uma vaga de sensibilização que pretende inspirar Portugal inteiro a apoiar as suas causas de eleição, que façam a diferença”, sublinha Sofia Mascarenhas, responsável pela implementação nacional deste que é já o maior movimento solidário do mundo, presente em mais de 70 países (entre eles EUA, Canadá, Reino Unido, Rússia, Alemanha, Espanha, Singapura, Austrália ou Brasil), numa onda de generosidade fora de série. “Há sempre uma causa que nos toca e a que podemos dar voz, tempo, experiência, bens ou algum apoio financeiro”, diz.
De resto, é nos EUA que têm nascido os grandes grupos e ações de luta contra o capitalismo selvagem – em que uma ínfima parcela de gente muito rica decide os destinos da maioria em proveito próprio -, promovendo um consumo mais responsável a nível internacional. De lá partiu o movimento freegan (de free, grátis + vegan), focado em reaproveitar os alimentos e objetos descartados pela sociedade de consumo a fim de reduzir o desperdício (os freegans fazem voluntariado em vez de trabalhar, trocam bens e serviços, ocupam imóveis abandonados e comem o que plantam e encontram nos caixotes em boas condições, junto a restaurantes e mercados em hora de fecho).

Dia Mundial sem Compras foi criado pelo artista canadiano Ted Dave, em 1992. Nesse dia os aderentes comprometem-se a não comprar nada durante 24 horas

Também americano mas menos radical, na medida em que não contempla vasculhar o lixo, é o movimento Vida Simples (Simply Living no original), criado em 1972 para arrancar o Natal das garras do consumismo e incentivar as pessoas a levarem uma vida simples, sem excessos nem grandes ambições, gratas pelo que têm. Um pouco à boleia desta filosofia surgiu no Canadá o Buy Nothing Day (Dia Mundial sem Compras), pela mão do artista Ted Dave, em 1992, em que os aderentes se comprometem a não comprar nada durante 24 horas numa afirmação do nosso poder como consumidores. Em 1997, a data nos EUA fixou-se no dia a seguir ao de Ação de Graças (um dos mais consumistas no país), enquanto no resto do mundo calha no último sábado de novembro.

 

Ignacio Ramonet, sociologo e jornalista, acredita que as razões ecológicas e uma nova crise económica que possa surgir pode iniciar uma fase de “desconsumismo”.

“O consumismo é consumir consumo. É uma atitude impulsiva em que não importa o que é comprado desde que se compre”, explica o sociólogo Ignacio Ramonet, ciente de se estar a acender, apesar de tudo, uma luz de consciência coletiva quanto à forma de consumir. “Diante da aberração de continuarmos a esbanjar de modo absurdo, o minimalismo de consumo é um movimento mundial que propõe comprar somente o necessário e, aqui, o exercício é simples: devemos olhar para o que temos em casa e determinar aquilo que de facto usamos”, sugere o pensador galego. O resto não passa de amontoado. Veneno a eliminar.

Começa por alguns objetos relativamente simples de subtrair das nossas vidas: eletrodomésticos nunca usados, ainda nas caixas. Dezenas de chávenas, talheres e tachos a mais na cozinha. Livros que não nos lembrávamos de ter. Sapatos que não calçamos há anos. Roupas que comprámos por impulso e guardámos no armário sem tirar as etiquetas – um sinal bastante óbvio de que talvez esteja na altura de nos desfazermos dessas e tantas outras coisas acumuladas na qualidade de símbolos de status social e riqueza (como se ter sempre o último smartphone lançado desse a medida do nosso valor como pessoas).

“Só posso falar por mim, claro. No meu caso, cheguei a comprar roupa apenas pelo desejo de ter mais, como se ao usar uma peça nova me reinventasse nesse dia”, revela a jornalista, escritora e influencer Helena Magalhães, formada em Políticas Sociais. Ao ir morar sozinha, contando cada euro gasto, apercebeu-se desta necessidade quase obsessiva de responder a uma tendência que nos incentiva a ter cada vez mais, pressionados pelas redes sociais e os influenciadores. “O Instagram, então, é uma ode ao consumo por vaidade, para mostrar que se tem”, lamenta.

Segundo Mafalda Munhá, autora da tese Manifestações de Resistência ao Consumo: da crença à prática, qualquer criança nascida na sociedade ocidental será identificada de imediato como potencial consumidor. “Até atingir a idade adulta terá sido confrontada com milhares de objetos consumíveis, uma panóplia interminável de imagens publicitárias e um sem-fim de discursos manipuladores cujo único propósito é elevar a ideia de que nascemos para consumir”, afirma a autora, reconhecendo que “a aquisição de certas peças de indumentária ou o consumo de certos objetos tecnológicos poderá ser tão relevante para a integração num grupo como a partilha de ideias”.

As próprias marcas, nesta ânsia de produção e venda acelerada, esquecem com frequência a vertente da responsabilidade social. Fica fácil sentir que não temos nada para vestir/calçar/usar quando a cada semana as lojas têm roupas novas e o casaco que comprámos há 15 dias já passou de moda. “Gerações anteriores não se preocupavam com roupa na adolescência porque não havia esta necessidade de se expor, ao passo que hoje as raparigas de 16 anos crescem com as redes sociais e a validação pela aparência”, nota a jornalista freelancer Helena Magalhães. Sendo mais difícil adotar um consumo responsável com tanta pressão, não é impossível.

Jane Fonda e os seu casaco vermelho tornaram-se simbolos na luta contra o excesso de consumo.

“Estão a ver este casaco? Necessitava de algo vermelho, saí e descobri-o nuns saldos. É a última peça de roupa que vou comprar”, anunciou a atriz e ativista americana Jane Fonda, detida frente ao Capitólio por diversas vezes em protestos contra o consumismo e as alterações climáticas. Aos 81 anos, disposta a não entrar em centros comerciais nos próximos 19 (caso viva até aos 100), acredita que os excessos resultam de se tentar comprar uma identidade ao vermos falhar a segurança e a autoestima. “Digo às pessoas que não precisamos de mais coisas e darei o exemplo”, promete. Ainda que não inspire outros a reduzir o consumo, ao menos ajuda-os a tomar consciência do atoleiro em que estamos metidos.

“Ninguém vai deixar de comprar de todo, então a mudança passa por adotar hábitos de compra mais conscientes”, concorda a influencer Helena Magalhães, para quem ter impacto não requer extremismos de maior: “Se em vez de cinco peças novas por mês uma pessoa levar duas, estará a fazer a sua parte.”

Hoje em dia já nem isso compra e, se o faz, procura sempre lojas de atitude consciente e materiais duráveis. “Aos poucos, comprando menos e trocando mais, apelando à segunda vida dos objetos, também as indústrias serão obrigadas a produzir menos”, diz. É grão a grão se engordam as galinhas e conseguimos transformar o mundo.

Dicas simples para evitar os excessos de consumo

 

Cozinhou a mais?
Pode facilmente aproveitar o que sobrou para outra refeição ou até para confecionar um prato diferente, sem necessidade de se desperdiçar o que quer que seja.

Menos embrulhos.
Antecipando desde já o Natal, faça por aproveitar papéis, laços e pacotes do(s) ano(s) anterior(es), ou procure mesmo encontrar formas criativas de evitar os embrulhos.

Presentes indesejados.
Em primeiro lugar, há que ser educado e agradecer sempre todas as prendas, goste-se ou não. Depois disso considere trocar, voltar a oferecer e doar a quem goste ou necessite. Vale tudo menos deitar fora ou acumular tralha escusada.

Evite embalagens.
É fácil dispensar boa parte delas levando as nossas próprias caixas de casa (em comida take away ou nas compras a granel, por exemplo). Na impossibilidade de suprimi-las, opte por embalagens reutilizáveis.

Vida longa aos equipamentos.
Use os seus aparelhos elétricos e eletrónicos durante mais tempo, reparando-os sempre que possível em vez de substituí-los de imediato. Lembre-se: por cada três meses de utilização extra de um smartphone podemos reduzir o consumo de recursos em mais de 10% ao ano.

Compras de proximidade.
Com tanta oferta a chegar dos quatro cantos do mundo, nem sempre privilegiamos os produtos locais e de época (em especial os animais, a fruta e hortícolas), bastante mais económicos, ricos nutricionalmente e com menor impacto ambiental.

Pondere.
Antes de ceder ao apelo consumista que se apodera de nós com frequência, reflita sobre a real necessidade de comprar algo. Caso a resposta seja afirmativa, considere ainda a hipótese de pedir emprestado, alugar ou comprar em segunda mão.

7 Perguntas que todos devemos fazer antes de comprar algo

Preciso realmente disto?

O maior desafio de um consumo consciente começa por sermos capazes de ajustar o pensamento às nossas necessidades efetivas, com sentido de autocrítica: este objeto agrega um valor significativo ou é apenas mais um entre os muitos que estou a acumular à espera de desfrutar/usar/vestir/jogar/ler um dia?

Posso pagar por isto?
Por mais barata que seja uma coisa – uns ténis, um livro, uma roupa, um gadget –, ter uma infinidade dessas coisas impede-nos de apreciar cada uma em pleno. Já para não dizer que, grão a grão, o rombo no orçamento será enorme e inversamente
proporcional ao tempo de que dispomos para fruir delas.

Não estou a querer comprar isto só para me afirmar?
É outra questão que, com a prática, se vai tornando um hábito. A dada altura, começamos a notar as razões por que compramos e a ser mais exigentes com o que acumulamos, cingindo-nos ao que acrescenta valor à nossa vida.

Sei a origem deste produto?
Embora nem sempre fácil de apurar, é importante informar-se sobre os produtos que está a comprar, de que são feitos e quem os produz – sobretudo se são, ou não, grandes multinacionais que contornam as leis para poluir à vontade, fazer testes em animais ou pagar salários desumanos aos trabalhadores.

Estarei apenas a ser escravo da publicidade?
É difícil ter noção de que somos bombardeados com mensagens subliminares a toda a hora, pelo que importa perguntarmo-nos: gosto mesmo disto, ou só porque é igual ao das bloggers A e B ou dos atores X e Y? E até que ponto desejá-lo não é mais prazeroso do que tê-lo?

É uma compra que prejudica o planeta?
Pode nem nos apetecer pensar muito nas consequências globais quando o prazer imediato está ali mesmo à mão de semear. Contudo, não temos como ignorar a evidência de que um terço dos recursos naturais foram esgotados em apenas três décadas, o que exige uma mudança de comportamento urgente.

E quantas mais compras destas vai ele aguentar?
Segundo a organização mundial Global Footprint Network, pioneira em calcular a pegada ecológica resultante das nossas necessidades de consumo, entrámos já em crédito negativo no que respeita aos recursos que asseguram a sobrevivência da humanidade enquanto espécie.