Eles levam os animais todos os dias para o trabalho

animais no trabalho

Em Portugal a tendência ainda é pouco expressiva, mas vai havendo cada vez mais empresas abertas à ideia de levar os animais para o trabalho e a renderem-se aos muitos benefícios atestados pela ciência. É só dar-lhes trela.

Texto de Ana Pago

Até há uns seis anos, antes de poder ter Whisky consigo o dia inteiro, a vida era bastante mais dura para João Caxaria. Sempre levou a sério a máxima de que os cães são os nossos melhores amigos (o dele é). Sair para trabalhar e deixá-lo sozinho era um pesadelo para os dois: “Os animais não foram feitos para ficar fechados ou presos horas a fio, sobretudo quando não tem de ser assim”, defende o matemático e cofundador da Codacy, a start-up de limpeza de erros de código que criou em 2012 com Jaime Jorge, engenheiro de software. E se o cão fosse consigo para o emprego? E se?

“O Whisky tem sete anos e meio, é o rafeiro mais giro que existe e comecei a levá-lo porque me custava deixá-lo sozinho depois de já ter sido abandonado uma vez, antes de eu o adotar”, conta o diretor técnico da Codacy. Foi o abrir de um precedente que agradou a todos na empresa: “Hoje em dia temos sete cães no escritório de Lisboa (que podem, ou não, estar lá em simultâneo) e pessoas e animais convivem na maior.” Ele próprio estava pronto a recuar se a experiência falhasse.

João Caxaria começou a levar Whisky para o trabalho para o animal não se sentir abandonado de novo. Foto de Jorge Amaral/Global Imagens

Isto para não falar das vantagens cientificamente comprovadas para os donos, os animais e os funcionários que beneficiam da presença deles mesmo não tendo um em casa: “Há um ambiente mais descontraído, mais tranquilo, uma maior colaboração entre colegas que talvez nem falassem se não fosse pelo cão”, confirma Ana Silva, digital and e-commerce manager da Purina. As pessoas podem não saber quem ela é, mas sabem que é a dona do Artur, vão fazer uma festinha ao cocker spaniel, metem conversa.

“Comecei a trazer o Artur há quatro anos, quando ainda só permitiam animais uma semana por ano, e em janeiro de 2016 passou a vir todos os dias.” Antes, Ana apresentou o plano de vacinação completo, prova de chip, registo na junta de freguesia e seguro de responsabilidade civil. Artur foi avaliado por veterinários e especialistas em comportamento (enquanto a dona recebia formação em regras de comportamento e cuidados a ter com o animal) e finalmente recebiam a certificação, uma das primeiras em 30 já emitidas. Em junho de 2018, após o êxito do projeto-piloto no piso da Purina, o edifício inteiro da Nestlé Portugal, em Linda-a-Velha, passou a ser dog friendly. “Foi quando o trabalho se tornou mais feliz para todos”, ri-se a digital manager.

Desde janeiro de 2016, Ana Silva leva Artur para o trabalho todos os dias. Foi quando o trabalho passou a ser mais feliz. Foto de Jorge Amaral/Global Imagens

Um estudo realizado em 2011 pela APPA, a Associação Americana de Produtos para Animais de Estimação, apurou que ter um animal no emprego aumentou em 73% a produtividade laboral das empresas participantes, além de reduzir a pressão arterial, os níveis de stress e ajudar a restabelecer a saúde física e mental dos funcionários – então autorizados a levar os seus cães, gatos, pássaros, répteis e peixes.

Como se não bastasse, os efeitos ao nível da saúde e comunicação são extensíveis aos colegas que, não sendo eles próprios donos, se aventuram a fazer festinhas aos cães alheios e até a pedir que os deixem levá-los a passear de vez em quando, revela o investigador principal Randolph T. Barker, professor de gestão na Universidade da Commonwealth da Virgínia, EUA, e autor de uma pesquisa envolvendo 450 trabalhadores e 20 a 30 cães (o número variava conforme os dias) numa empresa da Carolina do Norte.

Permitir cães no local de trabalho promove a moral dos trabalhadores e uma visão positiva da empresa.

“A presença do animal de estimação serve como uma intervenção de bem-estar barata e prontamente disponível para muitas organizações, a qual pode aumentar a satisfação organizacional e as perceções de apoio”, diria Barker mais tarde ao jornal universitário, rendido às evidências. Desde que haja, claro, políticas em curso para assegurar que só animais limpos, amistosos e bem-comportados circulam nas empresas, ressalva o cientista.

Esses foram, de resto, três dos parâmetros que Catarina Fancaria teve de cumprir à risca (tal como Ana Silva fez com Artur antes dela) para poder levar a Wendy para o emprego: “Adotei-a em julho do ano passado, esperei pela onda de certificações de agosto e desde aí que ela vai sempre comigo”, diz a digital activation specialist da Purina, a quem a medida permite passar tempo de qualidade com o animal, sem sentimentos de culpa se vai jantar ou sair à noite. “Ela dorme o tempo todo aos meus pés. A coisa funciona”, garante a colaboradora, agradecida por este sentimento. É bom para o animal que está feliz, para a dona que o vê feliz e para quem fica feliz de lhe ir lá passar as mãos pelo pelo.

Catarina Fancaria agradece todos os dias o privilégio de passar horas de qualidade com Wendy. Foto de Jorge Amaral/Global Imagens

“Permitir cães no local de trabalho promove a moral dos trabalhadores e uma visão positiva da empresa por lhes conceder esta regalia com zero custos para ambas as partes”, reforçou em entrevista ao The Guardian Stephen Colarelli, professor de psicologia da Universidade Central de Michigan, EUA, e coautor de um outro estudo sobre o impacto canino em dinâmicas de grupo.

Ainda segundo uma investigação publicada na revista académica International Journal of Environmental Research and Public Health, em maio de 2017, empresas dog friendly são particularmente apelativas para empregados e empregadores devido às duras exigências laborais, longas jornadas diárias e stress intenso. “Na verdade, a presença de cães traduz-se em taxas mais reduzidas de absentismo e maior produtividade”, lê-se no artigo, que acrescenta como mais-valias “um aumento do apoio social e das interações entre departamentos”, a par de uma imagem favorecida da companhia no mercado.

“Além do impacto positivo ao nível do recrutamento e retenção de talento, sobretudo entre os millenials”, aponta João Castanheira, business executive officer da Purina Portugal. Do que vê, há cada vez mais gente a valorizar o facto de a firma ser dog friendly por permitir equilibrar melhor a vida pessoal e profissional: “Mais de dois terços (68%) dos funcionários na Europa levariam os animais para o emprego se lhes fosse dada essa opção”, diz o responsável, apoiado nos dados de uma pesquisa de 2017 coordenada pela Purina e levada a cabo pela Ipsos, empresa de estudos de mercado.

67% dos portugueses gostariam de poder levar o seu cão consigo para o local de trabalho.

E sim, Portugal está alinhado com a média europeia: dos 3 221 donos inquiridos que trabalham a tempo inteiro em oito países europeus (Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Rússia, Espanha, Suíça e Portugal), 67% dos portugueses gostariam de ter o cão consigo no local de trabalho, logo a seguir aos suíços (no topo do ranking com 84%), dos italianos (76%), espanhóis (74%) e alemães (70%). Mesmo se não pudessem fazê-lo todos os dias, 39% já se contentavam em levá-los uma a duas vezes por semana.

Porém, apesar de 64% dos donos encararem os seus animais de estimação como membros da família, apenas 12% dos entrevistados a nível europeu trabalham num ambiente pet friendly, com Portugal a ficar-se por uma taxa de 7%. A Codacy e a Purina são exceções à regra a que se juntam a revista Time Out, a Wolt (agência de design e publicidade) ou a comOn (agência de user marketing que põe as marcas a acompanhar os utilizadores). Servem-lhes de exemplo a Amazon, em Seattle, em que seis mil cães vão diariamente para o campus da multinacional com os donos, ou a Google, cuja ligação aos “amigos caninos” (palavras da própria) integra o seu código de conduta empresarial.

“Se conseguimos tornar dog friendly o nosso edifício com mais de 800 colaboradores, de forma tranquila e com tanto impacto no bem-estar de todos, então qualquer empresa pode fazê-lo”, defende o business executive officer da Purina Portugal, decidido a estabelecer 200 alianças até 2020 para ajudar outros grupos a criarem um projeto Pets at Work à sua medida. “Se por um lado o processo de implementação é rigoroso e apenas cães certificados são autorizados a ir para o escritório, por outro é bastante simples adaptá-lo à realidade de cada empresa”, reitera.

Para que algo assim tenha sucesso à partida, é necessário garantir o conforto de todos os trabalhadores tomando medidas que incluam a criação de zonas onde os cães não são permitidos.

Começa logo por acautelar a hipótese de haver quem não goste de bichos, seja alérgico a eles, tenha fobias ou se recuse terminantemente a trabalhar na sua companhia. “Para que algo assim tenha sucesso à partida, é necessário garantir o conforto de todos os trabalhadores tomando medidas que incluem a criação de zonas onde os cães não são permitidos, como salas de reunião, algumas áreas de trabalho, casas de banho e zonas de refeição”, revela João Castanheira. O animal deve ter sempre a sua cama ou manta junto da secretária do dono e circular à trela quando sai deste espaço, para evitar contactos indesejados com outro colaborador. “A nossa recomendação é que sejam definidos limites de número máximo de cães por dia e por espaço”, diz.

No caso da Codacy, ainda que o processo de admissão dos animais seja mais informal – João Caxaria explica que “até hoje têm ido sempre devagarinho, ambientam-se na sala de espera e é ver como corre” –, os donos são responsáveis por garantir que não causam distúrbios. “É obrigatório estarem vacinados, registados na junta de freguesia e terem seguro”, enumera o diretor técnico da empresa, admitindo que se inspirou nas regras da Purina para definir as suas.

Os cães têm ainda de conseguir conviver com os outros cães com quem partilham o espaço, sem ladrarem nem assustarem ninguém, e à hora de almoço não podem estar na zona de refeições. Serem um escritório de 43 pessoas e não 800 permite que se feche um pouco os olhos, mas à vontade não é à vontadinha. Ninguém deve estar desconfortável. “Seja como for, os colaboradores são todos avisados nas entrevistas e podem escolher entre trabalhar numa sala sem cães ou a partir de casa sem qualquer penalização”, refere o fundador da start-up.

E os gatos, onde ficam no meio desta história?
É que por muito que gostemos deles, e ao contrário do que sucede com os cães, seria um suplício arrastá-los diariamente para fora de casa. A menos que a sua casa coincida com o local de trabalho do dono, como acontece com João Fernandes e o gato Mike na Lavandaria Conforto, no Porto. “Em 2012 a antiga proprietária, Albina Carvalho, adotou um gato de rua por quem todos nos apaixonámos, chamado Girá”, conta o atual responsável, recordado dos mimos que os tornava a todos tão cúmplices no estabelecimento.

Para João Fernandes, o gato Mike é a sua paz. Foto de Pedro Granadeiro/Global Imagens

Em 2016, quando a antiga dona saiu do negócio – deixando-lhe a Conforto mas levando Girá –, João Fernandes decidiu que iria buscar outro, sem gato ali é que ninguém podia ficar. Acabou por adotar Mike de uma ninhada de rua há cerca de dois anos, tempo suficiente para que nenhum dos três funcionários saiba já viver sem ele. “É a nossa paz, tanto quando vem para o nosso colo como quando dá cabo dos vasos da montra a caçar moscas”, sublinha o dono. Também é um ótimo desbloqueador de conversas: os clientes podem não saber o nome da lavandaria, mas sabem que ele é o Mike e fotografam-no a fazer disparates o dia inteiro, deliciados.

“Sem esquecer que ver gatos em correrias loucas pela casa é do melhor que há após um dia de trabalho intenso”, explica o veterinário Joaquim Henriques, diretor clínico do Hospital Veterinário Berna. Escová-los ajuda a diminuir a pressão arterial e a relaxar. “Apesar do feitio independente, conseguem ser a melhor das companhias.” E o melhor é que se o apanharem a brincar com o gato no emprego pode sempre dar a desculpa de que estava muito ansioso e não queria que os nervos lhe prejudicassem o trabalho.