Porque é que o primeiro filho nunca é “só” o primeiro filho?

Entre o deslumbramento e os medos…
Porque mais ninguém nos põe, nunca mais, fazendo de Deus assim, como só ele é capaz de fazer com que se faça.

Porque é tão precioso e tão delicado – e é tão frágil! – que é uma dádiva e é um milagre contemplá-lo, com a alma aberta, de todas as vezes que olhamos para ele.
Porque, por mais bonito que ele fosse, sempre que o sonhámos, é a primeira vez que alguém é, verdadeiramente, “mais que tudo”. E mais, até, que o melhor dos nossos sonhos, para nós.

Porque – de cada vez que ele adormece nos nossos braços, a olhar (bem fundo) os nossos olhos, todas as nuvens que eles traziam se desencorajam, se atrapalham e fogem. E, então, sentimo-nos mágicos, duendes ou fadas, ou, até, maiores que os feiticeiros. E, de certo modo, capazes (até!) de mudar o mundo. E tudo o mais que a nossa imaginação, por timidez, nunca alcançou.

E, de repente, a vida começa do zero.

Porque, de todas as vezes em que sorrimos para ele e lhe falamos com os olhos, e ele – atento – nos escuta sem pestanejar, como mais ninguém, voltamos a ter fé que o nosso amor o faça acreditar que o melhor do seu sorriso – um dia, quando ele o queira dar – será, sem mais ninguém saber só nosso. E só para nós.

Porque quando ele geme, mesmo a dormir, e nos levantamos e corremos para o pé de si e, ofegantes, ficamos ali, quase sem respirar, a olhá-lo, longamente (porque alguma coisa em nós nos diz que um bebé, por ser amado, não pode chorar) todos os nossos medos se desvanecem. E, de repente, a vida começa do zero. Sempre que tudo aquilo que entendíamos parecer ser próximo de nada, ao pé de todo o bem que ele nos traz.

Originalmente publicado em eduardosa.com. Leia aqui mais artigos do autor.