«Não trata o cancro ou as bactérias só com a mente. Eles estão a borrifar-se para o placebo»

O efeito placebo continua a gerar discussão entre a comunidade científica e médica. Um novo estudo sugere que há traços de personalidade mais suscetíveis de reagir com sucesso ao referido efeito. O reumatologista José António Pereira da Silva discorda da necessidade de definir personalidades favoráveis ao placebo e vai mais longe ao afirmar que «não há qualquer hipótese ética de usar o efeito placebo abertamente.»

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de iStock

Uma pesquisa publicada na Nature Communications concluiu que um grupo de pessoas com dor de costas crónica que tomou comprimidos placebo reduziu a dor como se tivesse tomado um analgésico.

E vai mais longe. O estudo identificou alguns traços de personalidade que respondem melhor ao efeito placebo. Esta descoberta pode ter implicações futuras na forma como os médicos lidam com os pacientes. E se o seu médico definisse o seu tratamento consoante a personalidade de cada um?

Metade dos pacientes que receberam o tratamento «placebo» sentiram uma redução da dor em cerca de 30% – o equivalente ao que acontece quando tomam medicamentos.

A investigação recrutou 63 pacientes com dor crónica de costas. 43 tomaram um comprimido de açúcar e 20 não tomaram nada. Ninguém tomou qualquer analgésico. Durante oito semanas, cada um dos pacientes teve consultas e controlou a sua dor diária através de uma aplicação no smartphone.

Resultado: metade dos pacientes que receberam o tratamento «placebo» sentiram uma redução da dor em cerca de 30% – o equivalente ao que acontece quando tomam medicamentos.

Nas pessoas que sentiram redução da dor identificou-se uma assimetria nas áreas que controlam a emoção.

Através de exames, notou-se que certas características individuais poderiam prever se o efeito placebo iria funcionar.

Em relação ao cérebro, nas pessoas que sentiram redução da dor identificou-se uma assimetria nas áreas que controlam a emoção, como a amígdala cerebral, núcleo accumbens ou hipotálamo.

Traços de personalidade também foram determinantes para essa redução. Pacientes que demonstraram equilíbrio emocional, consciência do seu corpo e mindfulness em relação ao ambiente sentiram o efeito placebo.

José António Pereira da Silva
«Não há qualquer hipótese ética de usar o efeito placebo abertamente»

O efeito placebo funciona?
Os estudos têm demonstrado que o efeito é real. Durante muito tempo, os médicos estavam convencidos de que os doentes diziam que estavam melhor, mas não estavam. Queriam agradar os médicos e mostrar bons resultados. A verdade é que a investigação atual tem vindo a demonstrar, acima de qualquer dúvida, que o efeito placebo existe.

Como?
Pode provar-se isso através da ressonância magnética funcional que observa as áreas do cérebro que estão ativadas e nota uma diminuição de atividade nos núcleos que estão relacionados com a dor. Não é no núcleo da imaginação, não é no núcleo da linguagem. E ainda há estudos que mostram outra coisa extraordinária: o cérebro, por si só, faz uso de mecanismos muito idênticos àqueles que os medicamentos reais utilizam para induzir a melhoria da dor.

O efeito placebo deriva da esperança criada. Eu tenho uma expetativa de certa coisa, que é positiva, e isso leva a um efeito concreto positivo.

Isso é de facto extraordinário.
É. E os placebos não têm efeitos secundários, não podem fazer mal às pessoas, como o estudo indica. Mas um doente melhoraria se eu lhe dissesse que estou a dar-lhe placebo? Sinceramente, não acredito. Porque o efeito, em si, deriva da esperança criada. Eu tenho uma expetativa de certa coisa, que é positiva – por isso chamo-lhe esperança -, e isso leva a um efeito concreto positivo.

O que este estudo sugere é que podem existir traços de personalidade mais recetivos ao efeito placebo e que os médicos, sabendo-o, poderiam adaptar o tratamento.
Na medicina de hoje isso seria considerado não ético. Este é o problema. Toda a evidência científica foi construída em torno da ideia de que eu comparo um medicamento real com o efeito placebo. Se o medicamento provar que faz bem, mas não é melhor do que o placebo, não é aprovado para uso clínico.

Pode explicar melhor?
Vamos imaginar que, em cada 100 pessoas tratadas com o medicamento A, 20 melhoram 30% das dores. De 100 pessoas tratadas com placebo, 10 melhoram. Subtrai o placebo ao número de medicamento real (20-10=10) e tem o Numbers Needed to Treat (ou NNT que expressa quantos pacientes necessitam ser tratados através daquela intervenção num dado período de tempo para se prevenir certo desfecho). Então eu tenho de tratar 10 pessoas para que uma delas tenha o benefício de melhoria que não teria com placebo. Estamos aqui a falar e a calcular o efeito que o medicamento tem para além do placebo. Agora imagine que eu dou o medicamento real e considero o efeito placebo que lhe está inerente.

nenhum médico passa placebo conscientemente. Nem há nenhum medicamento aprovado que se possa chamar de placebo.

E tem em conta a personalidade de cada um, como o estudo sugere?
Na minha experiência, funciona para toda a gente. Uns mais, outros menos, mas em todos. Porque é que eu preciso de identificar as pessoas passíveis de estar mais disponíveis, quando posso partir do princípio que somos todos recetivos ao efeito placebo? Sinceramente, podemos partir deste princípio. Não é essa a questão.

Então, qual é o problema?
O verdadeiro problema é que nenhum médico passa placebo conscientemente. Nem há nenhum medicamento aprovado que se possa chamar de placebo. Precisamente porque os medicamentos não são aprovados se não forem melhores do que o placebo. Quanto muito, temos a consciência de que esse efeito existe, por si só, e está incutido no tratamento, e exploramos essa possibilidade, dizendo ao paciente que este é o medicamento certo e que tem bons resultados.

As medicinas alternativas não são medicinas. O efeito placebo é a única coisa que têm. não têm mesmo mais nada.

Mas o caminho do placebo não pode ser benéfico, uma vez que estamos, como falámos antes, a poupar o paciente de efeitos secundários?
Repare numa coisa. Por definição, o placebo é uma coisa que faz bem mas o mecanismo é o mesmo para o chamado «efeito nocebo». Se eu lhe disser «tenha cuidado com este medicamento que a maior parte das pessoas tem vómitos», provavelmente, vai sentir-se nauseada. Mais do que se eu disser que isso nunca acontece. O efeito placebo pode funcionar ao contrário. Por exemplo, a maior parte dos medicamentos que utilizamos têm folhetos eternos a acompanhá-los carregados de sintomas maus que, de facto, estão a induzir efeito nocebo nas pessoas.

Não existe um caminho na medicina atual para potenciar a mente a ter a capacidade de regenerar o corpo sem a toma de medicamentos?
Não creio sinceramente que um estudo com placebo possa ser um caminho para isso. E porquê? Só há efeito placebo se você for enganada nas suas expetativas. Eu tenho que lhe induzir esperança, percebe? Não há qualquer hipótese ética de usar o efeito placebo abertamente.

Nas medicinas alternativas, esse é um ponto essencial.
As medicinas alternativas não são medicinas. O efeito placebo é a única coisa que eles têm. É que não têm mesmo mais nada.

Se as pessoas souberem o que estão a tomar, não há placebo nenhum. Ou seja, tenho que as enganar. Uma mentira piedosa deveria ser aceitável? No meu entender, deveria.

Está a dizer-me que essa indução de esperança não é ética?
Não, não é, segundo a medicina atual. Não é ético usar o efeito placebo apenas para isso, para que as pessoas melhorem, mentindo-lhes. Isto não é aceitável. Quando me apresenta um estudo destes em que metade das pessoas toma, a outra metade não toma, mas ninguém sabe o que está a tomar, está tudo dito. Se souberem o que estão a tomar, não há placebo nenhum. Ou seja, eu tenho que as enganar. O que questiono é se uma mentira piedosa deveria ser aceitável.

Deveria?
No meu entender, deveria. Mas o pensamento generalizado é que o doente tem de saber tudo. E se o doente souber de tudo, não há efeito placebo. Deixe-me dizer-lhe que o grande fator deste efeito não é o doente, é o médico. É a convicção que eu tenho quando lhe dou as coisas. Isso é que é verdadeiramente importante.

A esperança, como lhe chama.
Sim. Eu tenho de ter a esperança – e transmitir-lhe – que vai curar-se. É aí que está. Se tivéssemos um medicamento chamado placebo, estou convencido que não ia fazer bem a ninguém.

Se falamos de um antibiótico, é 100% efeito químico contra 0% placebo. Tem uma infeção, se tomar o comprimido, melhora. Na dor, o efeito placebo é muito maior.

Estamos a testar a força do efeito placebo, mas nunca poderemos tratar os pacientes com este porque a partir do momento em que sabem que é só disso que se trata, o mesmo perde-se?
Essa é a minha convicção. Eu preciso de ter medicamentos que são melhores do que o placebo para ter a justificação intelectual e ética para os usar. Isto é, eu não a quero enganar, dizendo-lhe «beba a água da fonte de São Cristóvão que isso vai curar as dores de cabeça». Poderíamos chegar ao terreno da trapaça pura e simples.

No fundo, poderíamos dizer tudo.
Exato. Como não há efeito placebo sem algum engano, eu estou num terreno escorregadio. Agora, eu quero usar o efeito placebo que já existe em qualquer medicação real.

Quer realçá-lo?
Sim, quero utilizá-lo. E acho uma estupidez que a medicina e a ciência subtraiam o placebo ao valor real dos medicamentos.

Não se ponha a tratar o cancro só com a mente. Ou as bactérias. Elas estão a borrifar-se para o placebo.
Se pudéssemos medir a percentagem, qual é o valor do efeito placebo e do efeito químico de um medicamento?
Depende do que falamos. Se falamos de um antibiótico, é 100% efeito químico contra 0%. Tem uma infeção, se tomar o comprimido, melhora. Na dor, por exemplo, na maior parte dos medicamentos, estamos a falar de 80% do efeito é placebo. Há muito efeito placebo na dor.

No fundo, não existe a possibilidade de deixarmos de tomar fármacos?
Não. Mas, atenção, estamos aqui a falar de um estudo sobre dor. Poderíamos também falar da depressão, ok? É possível ter efeitos placebo em quase tudo, mas não se ponha a tratar o cancro só com a mente. Ou as bactérias. Elas estão a borrifar-se para o placebo.

Não é muito animador.
Mas escute, acredita que há curas de doenças em Fátima? Eu não tenho a mínima dúvida disso na minha cabeça.

O seu cérebro é o grande maestro do seu corpo e conhece intuitivamente os mecanismos que tem para ampliar e para reduzir os sintomas.

De que doenças?
De várias. Relacionadas com a dor, por exemplo. Em qualquer espaço onde se acredite mesmo em alguma coisa. O que está em causa é a crença.

Consegue explicar de forma simples o que acontece no nosso cérebro quando chegamos a Fátima com a ideia de que vamos curar alguma coisa?
O seu cérebro é o grande maestro do seu corpo. Ele não se limita a sentir as suas articulações, ele controla-as. Ele não se limita a sentir o seu intestino, ele controla-o. O cérebro conhece intuitivamente os mecanismos que tem para ampliar e para reduzir os sintomas.
O que me está a dizer é que a crença desencadeia esses mecanismos.
Não tenha nenhuma dúvida.