Elas não querem ter filhos – e são felizes assim

Joana Costa, marketeer, nunca teve o sonho de casar e ter filhos.

Escolheram não ser mães numa sociedade que lhes diz que o propósito da vida deve ser gerar uma criança. Apesar de já existir uma maior aceitação social desta opção de vida, sentem que ainda são olhadas com estranheza. Depois de um cientista britânico ter dado que falar ao dizer que as mulheres são mais felizes sem filhos, três mulheres contam porque continuam a resistir à pressão social para a maternidade.

Texto de Joana Capucho

Quase todos os dias alguém lhe pergunta: “Então e tu?”. Joana, de 33 anos, está rodeada de mulheres que são mães. Na família, na escola onde dá aulas, no grupo de amigas. “E as pessoas ficam muito admiradas quando quando digo que não quero ter filhos”, conta a professora, que sente que “a maior parte das pessoas não entende esta opção”. Desde que se lembra “de ser gente”, Joana nunca quis ter filhos. “E o relógio biológico ainda não funcionou”.

A gravidez, o parto e o pós-parto são processos que lhe “causam confusão”. Além disso, considera que talvez seja demasiado egoísta para ser mãe. “Não sou altruísta o suficiente, ou melhor, sou até egoísta para não abdicar do meu tempo de descanso e de lazer para responder às necessidades de outra pessoa. Não estou preparada para isso”, confessa. Ter um filho “é tão importante que não pode ser uma decisão tomada de ânimo leve”.

Para não correr o risco de engravidar, Joana optou por colocar o dispositivo intrauterino. Tem uma relação estável com um homem mais novo, com quem costuma abordar a questão da maternidade, pelo que não é radical na sua posição. “Posso vir a mudar de ideias no futuro. Se ele quiser muito ser pai, vou ter que decidir”. Por agora, “há discussão sempre que se toca no assunto”. Ele não entende que Joana se recuse a amamentar, por exemplo. “O corpo é meu. Eu é que decido o que fazer com ele”. Tal como os pais também não entendem que não tenha o desejo maternal. “Com eles, não posso sequer falar sobre o assunto”.

“Nós somos uma sociedade em que as pessoas têm filhos. É muito marginal a percentagem de mulheres e homens que não fazem a transição para a paternidade”

Joana faz parte de uma pequena franja da população portuguesa que não sente o apelo da maternidade. De acordo com o Inquérito à Fecundidade, realizado em 2013, 8% dos portugueses em idade fértil não tem nem quer vir a ter filhos. “Nós somos uma sociedade em que as pessoas têm filhos. É muito marginal a percentagem de mulheres e homens que não fazem a transição para a paternidade”, reforça Vanessa Cunha, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, destacando que será importante ver os resultados do novo inquérito para perceber a evolução.

Apesar de existir cada vez menos a perceção de que o casamento é para a vida, existe “a ideia da parentalidade como um laço familiar e afetivo muito importante e o mais sereno, que mais dificilmente se desfaz”. Segundo a coordenadora do Observatório Familiar e das Políticas de Família, “há uma expectativa de que a parentalidade é algo muito gratificante”. Mas será que é mesmo assim?

Paul Dolan, professor de ciência comportamental na London School of Economics, trouxe o tema para a discussão, ao apresentar os resultados de um estudo que revelam que as mulheres solteiras e sem filhos são o subgrupo mais feliz da população. Segundo o conselheiro oficial da National Academy of Sciences dos EUA, ao contrário dos homens, as mulheres são mais felizes e saudáveis se não casarem e não forem mães. De acordo com as investigações do autor do livro Happy Ever After, os marcadores tradicionais de felicidade mudaram – e já não se prendem com o casamento e os filhos.

Há mulheres que não sentem o apelo. E então?

Para Joana Costa, de 38 anos, o conceito de felicidade nunca passou pelo casamento e pela maternidade. Recorda-se que na infância as colegas vibravam com as noivas e os bebés, mas tudo aquilo lhe passava ao lado. “Na adolescência, achavam que era revolucionária, mas agora percebem que é natural. Nunca tive o apelo maternal”, diz a marketeer, que já teve duas relações duradouras, mas nunca assumiu uma posição diferente. “O primeiro [namorado] estava completamente de acordo, mas o segundo achava que era uma questão de tempo até mudar de ideias”.

Joana Costa considera que até tem jeito para os mais novos. Costuma dizer que é “criança a vida toda – e as crianças não devem ser mães de ninguém”. É mãe de outra forma. “Vivo com um dos meus sobrinhos e com a minha irmã e os outros dois estão constantemente lá em casa. Sinto que sou mãe sem o ser. Daria a vida pelos meus sobrinhos”, conta a ex-jornalista, lembrando um velho ditado: “parir é dor, criar é amor”.

Há uns anos, num jantar de amigas, justificou a sua posição com o egoísmo. “Uma amiga que é mãe disse-me que talvez egoístas fossem as mães, que querem o amor dos filhos, mas eles não são delas, são do mundo. Nunca tinha pensado nessa perspetiva”. Não será, portanto, uma questão de egoísmo. “Será que é o peso de ter alguém a depender de nós? Não sei se será por aí, porque estamos numa fase da vida em que os pais dependem de nós”. De uma coisa está certa: “É uma coisa de momento. ‘Nunca’ é um advérbio temporal demasiado forte. Não sei se quando o relógio estiver a parar vou mudar de opinião”.

Segundo a investigadora Vanessa Cunha, “o projeto de parentalidade pode alterar-se”, pois “as decisões vão-se alterando em função das histórias de vida e das portas e janelas que a pessoa vai encontrando”. É uma decisão, frisa, “que pode ter fronteiras muito ténues”.

A necessidade de dar uma justificação

“As pessoas que não querem ter filhos sentem que têm que dar uma justificação aos outros”, diz a coordenadora do Observatório Familiar e das Políticas de Família. Um dos argumentos mais comuns, revela, é o do “apelo da maternidade, do relógio biológico”, o que mostra que “há uma representação biológica e essencialista da maternidade”.

Ressalvando que não ter filhos é mais uma questão involuntária do que voluntária, a investigadora diz que há quem não parta para esse projeto “porque não encontrou o parceiro, porque considera que a relação não era promissora, ou porque acha que a outra pessoa não tem condições para assumir o papel”. Uma outra justificação está relacionada com os requisitos que a maternidade implica: “Há pessoas que perspetivam a maternidade como algo de tão elevada responsabilidade, que requer tanto dos pais e das mães, que acham que não conseguem assumir esse papel”.

“A vida muda radicalmente. A nossa vida passa completamente para segundo plano. E por muito amor que lhe possamos dar, não lhe podemos dar saúde”.

É o caso de Diana, de 34 anos, que acredita que nunca estará “preparada para assumir a responsabilidade de ter um filho”. Já sonhou com um casamento feliz e com filhos, mas a chegada à idade adulta – e mais concretamente o nascimento da sobrinha – fez com que mudasse de ideias. “Era um bebé super desejado e ia correr tudo bem”, mas o parto complicou-se e a bebé não nasceu saudável como era suposto. “A vida muda radicalmente. A nossa vida passa completamente para segundo plano. E por muito amor que lhe possamos dar, não lhe podemos dar saúde”.

“Acho que nunca serei capaz de proteger o meu filho do mundo, das pessoas más, das injustiças, de tudo o que lhe pode acontecer. Como acho que nunca estarei preparada para isso, vivo bem com a minha posição”, justifica. Para Diana, a felicidade “não depende de uma criança”. “Não preciso de ser mãe para me sentir preenchida”. Mas, à sua volta, há sempre a esperança que ainda vai mudar de ideias: “Quando digo que não quero ter filhos, dizem-me que é porque ainda não encontrei a pessoa certa. Não tem a ver com isso. É sentir que nunca vou estar preparada para o que a maternidade implica”.

Há cada vez mais aceitação social

Para evitar discussões em família, Joana prefere não falar sobre este assunto com os pais. Já Joana Costa, diz que tem o apoio dos pais, que são católicos e defensores da família, mas respeitam a sua decisão. “Na minha família nuclear não há pressão. De resto, não ligo muito aos que os outros podem dizer”, conta a marketeer.

“que há mulheres que sentem, sobretudo em meios mais pequenos, onde é quase obrigatório a mulher casar e ter filhos”.

A posição de Joana Costa em relação à maternidade é conhecida publicamente. Recentemente, a ex-jornalista escreveu uma crónica para o P3 sobre este tema – “Sou menos mulher por não querer ter filhos?” – que motivou dois tipos de reações. “Houve pessoas que se sentiram identificadas e até enviaram mensagens privadas e outras com uma postura mais fechada, que fizeram comentários menos positivos”. Não sente pressão, assegura, mas percebe “que há mulheres que sentem, sobretudo em meios mais pequenos, onde é quase obrigatório a mulher casar e ter filhos”.

Na opinião de Vanessa Cunha, assumir a decisão de não ter filhos já foi mais mal visto na sociedade portuguesa. “Apesar de na cabeça das pessoas continuar a ser relevante o ideal dos dois filhos, há uma maior aceitação social das opções, das decisões que as pessoas tomam”, conclui a investigadora.

A nível internacional, há um movimento do qual fazem parte homens e mulheres que se recusam a ter filhos por questões ambientais, relacionadas com a sobrepopulação. “Defendem que não é bom por uma criança num mundo tão complexo”.

Até aqui falámos de casos em que as mulheres não têm planos de ser mães, mas há muitas situações em que não concretizam o projeto da maternidade por questões relacionadas com infertilidade. “Quando fazem pressão, as pessoas deviam lembrar-se que, embora não seja maldosa, não sabem quem está do outro lado. Não sabem se há algum problema, não conhecem as motivações da pessoa”, alerta Joana.