Em dias de chuva, o que conta não é isso

Tinha um cabo de madeira que foi escurecendo com o tempo, fruto da transpiração, das quedas, do uso. A ponteira grossa, com um anel escuro na extremidade, tocada de muitos anos a bater no alcatrão e na calçada portuguesa. A lona azul, debruada com uma tira de tecido mais clara. A mola, manual, já não segurava a estrutura das varetas fechada. E depois, claro, o forro com que eu adorava surpreender boleias de ocasião: um céu ovalado de fundo de mar, com um azul celeste onde nadavam alguns peixes bem desenhados, quase ilustrações científicas, criados por quem sabe distinguir espécies e habitats . Aquele era, mesmo, o mais belo chapéu-de-chuva da história dos chapéus-de-chuva.

Recebi-o em 1998, quando trabalhei na Expo ’98. Ideia da Maria Gambina ou do José António Tenente, que desenharam as fardas para a exposição mundial, fiquei encantado com o objeto assim que mo deram. Acabei por só usar uniforme durante a primeira semana do evento, depois de convencer o meu chefe que a farda não era mais-valia para as minhas funções, mas o chapéu já ninguém mo tirava. Foi assim até há cerca de uma semana.

Quinze anos depois, perdi o chapéu-de-chuva de estimação . Não sei se o deixei num táxi, se ficou esquecido num café, se saí do metropolitano de mãos a abanar. Só dei pela falta dele no início da semana. Quando precisei, claro. Gastei um par de horas na altura, e minutos intermináveis depois disso, a refazer os dias anteriores, mas de nada serviu. Nas centrais de táxis para onde telefonei só tinham sombrinhas de senhora esquecidas.

Convenhamos: eu estava a pedi-las. Se gostamos mesmo de uma coisa e temos medo de a perder, não a usamos no dia a dia. Pode até ser uma prova de respeito para com o objeto, mas neste caso, quem anda à chuva, molha-se – mesmo!

E o que tem isto a ver com relações, afetos, comportamentos e emoções? Se pensarem num objeto de estimação, que na última década e meia me acompanhou, com uso mais ou menos frequente, que ficou durante verões nas bagageiras dos três carros que tive entretanto e que passou por vários locais de arrumação nas quatro casas em que vivi, que emprestei pontualmente e que nunca me esquecia de pedir de volta… bom, então é fácil de perceber.

Mas… e a surpresa reside aí... a tristeza de ter ficado sem o chapéu não foi proporcional ao orgulho de ter mantido durante 15 anos uma coisa que se perde ou estraga com frequência. Quer dizer, fiquei chateado, claro. Mas não doeu tanto como pensei. Não só porque fui o único responsável pela perda, o que me impediu de ter um alvo para canalizar a irritação, mas também porque dei por mim a pensar que se tratava de… um chapéu-de-chuva.

Damos demasiada importância a uma série de coisas que continuamos a transportar ao longo dos anos. As memórias, as palavras que ficaram por dizer, os assuntos que ficaram pendentes, os remorsos, a culpa, o pedestal em que colocamos alguém, a porta que fechámos com mais estrondo do que a situação exigia, ou a outra, a que deixámos sempre entreaberta, na esperança longínqua de ele ou ela um dia resolverem regressar… tudo isso pesa. E atrasa-nos. Ou bem que fazemos com toda essa bagagem alguma coisa de útil para a nossa vida, ou então deitamos tudo às urtigas e despojamo-nos do que não interessa, de uma vez por todas.

Com esta história do chapéu-de-chuva, além de ter descoberto que uma sombrinha rosa-choque provoca sorrisos nas mulheres que passam, aprendi que conseguimos ser pessoas mais descomplicadas e mais disponíveis para o que verdadeiramente interessa, se tivermos menos fatores de distração. Até porque, nos dias de chuva grossa de sentimentos, não são os acessórios que nos vão salvar da borrasca.

[03-11-2013]