Enfermeiros fora de série

Horários insanos. Noites sem dormir. Falta de tempo para a família. Falta de tempo para tudo. Felizmente para os enfermeiros, o amor à profissão que os desorganiza é também aquilo que lhes dá força para se tornarem inigualáveis no que fazem.

Textos de Ana Pago

 

ANANDA FERNANDES
Chamar a dor infantil pelo nome

Os pais sabem que a dor de um filho é das coisas mais difíceis de aceitar, mesmo sendo para bem deles. A enfermeira Ananda Fernandes, especialista em enfermagem de saúde infantil e pediátrica, sabe disso. “Os pequenos sentem dor em várias situações nos cuidados de saúde, mesmo quando não sabem expressá-la. Porém, essa dor era muito negligenciada até há pouco tempo, justamente pela dificuldade que temos em avaliá-la”, diz.

E foi isso que a professora da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra se propôs a fazer: debruçar-se sobre a dor até perceber como podia acautelar o sofrimento de um recém-nascido ao terem que picá-lo para lhe darem as vacinas ou tirar sangue. Em 2011, quando concluiu doutoramento, estava a defender uma tese sobre a eficácia do canguru materno, da sacarose e da chupeta na redução das respostas de dor dos prematuros à punção venosa.

O toque da mãe, o calor, o cheiro da pele, reduzem visivelmente a resposta do bebé aos estímulos dolorosos.

“O método canguru surgiu na Colômbia no início dos anos 80, quando os pioneiros viram que os bebés colocados em contacto materno, pele com pele, dispensavam a incubadora, tinham alta mais cedo e morriam menos”, explicagem Ananda Fernandes, estimulada pela enfermagem pediátrica e por este trabalho de gestão da dor, apesar do permanente contacto com o sofrimento, com gente desamparada, até com a morte.

“Por cá, o método existe desde essa altura graças ao pediatra Torrado da Silva, que trabalhava com a Colômbia e o trouxe para as unidades neonatais.” Não sendo usado em regime contínuo, apurou que o toque reduz na mesma a resposta do bebé à dor e continua a trabalhar ativamente na gestão do sofrimento na criança e adolescente – é a primeira enfermeira a tornar-se presidente (até 2020) do Grupo de Interesse Especial sobre Dor na Criança, da Associação Internacional para o Estudo da Dor, cargo que até hoje só foi ocupado por médicos e psicólogos. “É a nossa deixa para descolar da América do Norte e internacionalizar mais os estudos na área da dor pediátrica.”

 

JOSÉ VILELAS
Emoções em saúde no topo do mundo

Em criança, José Vilelas pensou que queria ser jornalista para poder comunicar com os outros. Ou fazer televisão, pelas mesmas razões – se depois era conhecido ou não, tanto lhe fazia. Chegou até a considerar uma profissão na moda: sendo requisito conhecer as pessoas para vesti-las na essência, então o aspeto humano está lá todo, não são só folhos e rendas. Acabou por optar por enfermagem. Ainda bem.

“Por influência de familiares enfermeiros, fui parar à enfermagem e apaixonei-me por ela. Descobri por acaso uma vocação que me podia ter passado ao lado”, diz o atual diretor da área do ensino de enfermagem na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, em Lisboa. E sim, teria sido uma pena, já que se tornou um dos autores mais citados a nível internacional pelos artigos científicos sobre emoções em saúde e pediatria, segundo a Academia – uma instituição da Universidade da Califórnia, EUA, que monitoriza os trabalhos de investigação publicados em todo o mundo.

“Na enfermagem fazemos muitas coisas, mas depois não existe visibilidade e caem no esquecimento.”

“O problema, na enfermagem, é que fazemos muitas coisas, mas depois não existe visibilidade e caem no esquecimento”, diz o professor. No seu caso, não é de andar por aí a exibir medalhas. Nem sequer sabe bem como isto aconteceu, embora um reconhecimento deste gabarito, quase uma espécie de Óscar para a pesquisa científica, saiba sempre bem.

“Em 2008, ao concluir o doutoramento, fui para a unidade de investigação na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa à espera de integrar uma linha de pesquisa na área da pediatria”, conta o especialista em saúde infantil, que sempre preferiu o ensino à prática. Há dois meses convidaram-no também para a unidade de investigação na Escola Superior de Enfermagem do Porto, onde espera iniciar uma linha de pesquisa idêntica direcionada para as emoções. “Não somos máquinas. Na enfermagem ou na vida passa tudo por nos adaptarmos à pessoa que temos à frente.” Exatamente como ele gosta.

 

ZILDA ALARCÃO
Reiki para ajudar na quimioterapia

Dizer que todos os seres vivos contêm, recebem e emitem energia pode soar a discurso místico aos que desconfiam desta técnica de cura alternativa. Tal como a ideia de deixar fluir a energia universal através das mãos, com ou sem contacto, para ajudar a debelar as fragilidades físicas e emocionais causadas pela doença. Mas é tudo verdade, garante a enfermeira Zilda Alarcão, responsável pelo projeto pioneiro no país, oficialmente em vigor no Hospital de São João do Porto desde 2012, que permite aos doentes hemato-oncológicos fazerem reiki para atenuar os efeitos da quimioterapia.

“Descobri o reiki por intermédio de uma amiga que estava sempre a insistir para eu experimentar. Iria ajudar-me a gerir melhor o stress hospitalar, e realmente assim foi.” Em 2005 já Zilda trabalhava em reiki com uma clínica particular que lhe mostrava que sim: a terapia tinha um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. “Em 2006, quando pedi à comissão de ética do hospital de São João (onde era enfermeira supervisora, entretanto reformada) se me deixava avançar com uma investigação séria durante dois anos, em que faria reiki duas vezes por semana aos doentes com quimioterapias mais agressivas, eles aprovaram o projeto por unanimidade e com louvor.”

Com o reiki, os doentes melhoravam a autoestima, a ansiedade e a resistência contra vómitos e outros efeitos da quimioterapia.

Enquanto Zilda estudava o potencial do reiki na oncologia (com os dados a serem tratados pelo especialista em estatística Jaime Fonseca, reikiano como ela), os doentes melhoravam a autoestima, a ansiedade e a resistência contra vómitos e outros efeitos da quimioterapia. “Em 2011, ao serem apresentadas as conclusões preliminares, a Ordem dos Enfermeiros anunciou o reiki como uma prática importante nos cuidados de enfermagem”, lembra a mentora. Em setembro de 2012, escudados por um protocolo entre a Associação Portuguesa de Reiki e a Associação de Apoio aos Doentes com Leucemia e Linfoma, voluntários passaram a assegurar sessões de uma hora, uma vez por semana, beneficiando 78 doentes num total de 764 terapias realizadas.

JOÃO SILVA
Doentes assistidos à distância

Aquilo que a muitos parece ficção científica – a tecnologia a adaptar-se às necessidades do doente, não o contrário – é o pão nosso do enfermeiro João Silva. “Cuidar é muito importante, por isso escolhi dedicar-me ao doente crítico a achar que aí fazia mais falta”, diz o especialista em enfermagem médico-cirúrgica. Durante três anos coordenou os Cuidados Intensivos da Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM). Mas em junho de 2017 a telemedicina trocou-lhe as voltas.

“Em 2014, cinco centros hospitalares e unidades de saúde iniciaram um projeto de vigilância de 15 doentes à distância, todos com diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) de risco elevado”, recorda. Cada hospital organizava-se como quisesse: a ideia era evitar os internamentos e urgências destes doentes vulneráveis. “No caso da ULSAM, como não há internamento de pneumologia e o Dr. Rui Nêveda [pneumologista responsável pelo projeto] não tinha como fazer assistência 24 horas, acabou a recorrer à equipa de enfermagem que eu coordenava.”

“Em três anos e meio reduzimos as urgências em 50% e cortámos os internamentos em 70%.”

Juntos, iniciaram a teleassistência contínua: controlavam os alarmes e os parâmetros por computador, e faziam intervenções por telefone, orientando o doente. “Se houvesse mais tosse ou secreções, prescrevia-se antibiótico.” Se deixava de ser controlável por teleassistência remetiam-no para a urgência. Nunca antes. “Em três anos e meio reduzimos as urgências em 50% e cortámos os internamentos em 70%”, orgulha-se o enfermeiro. Em dezembro de 2017, face aos resultados, a ULSAM criou o Centro de TeleSaúde do Doente Crónico, que João dirige. Hoje tem 85 doentes monitorizados, de um total de 105 que já passaram pelo programa.

“As pessoas estão a entender melhor a doença, a ficar autónomas”, diz. Em breve, o plano é incluir os 299 doentes com DPOC de risco elevado no distrito de Viana do Castelo, mais outros com insuficiência cardíaca, diabetes, hipertensão. Além de envolver uma equipa de proximidade com nutricionista, psicólogo e enfermeiros de saúde pública e reabilitação antes de alargarem o modelo ao resto do país. É a montanha a ir a Maomé, como deve ser.