Escola em casa: uma forma diferente de aprender

Para os menos entendidos na matéria pode ser uma estranha forma de aprender, mas para quem conhece e pratica, é uma opção que com o tempo se revela acertada. Tem aumentado o número de famílias que escolhem o ensino doméstico e, para descobrir os motivos, conversámos com pais cujos filhos estão nesta modalidade de ensino e com responsáveis por associações que lhes dão suporte.

Texto de Sofia Filipe

Entre o bastante gratificante, o caótico e o difícil. É assim que Catarina Mendes, 38 anos, define a experiência de ensino doméstico (ED) escolhida por si e pelo marido, Carlos, de 41 anos e gasolineiro de profissão, quando o filho mais velho, Rafael, atualmente com 13 anos, frequentava o ensino pré-escolar.

«Há dias que são fantásticos, mas outros muito complicados, mas temos o privilégio de presenciar o desenvolvimento dos nossos filhos. É impagável», comenta esta mãe que trabalha na área da educação.

ensino doméstico
Catarina Mendes e o marido, Carlos, escolheram para os cinco filhos, Lua, Leonardo, Flor, Francisco e Rafael a modalidade de ensino doméstico. E não estão arrependidos. [Fotografia de Henriques da Cunha/Global Imagens]
A família vive na Lourinhã e é constituída por mais quatro crianças, a Flor de 12 anos, o Francisco de 10, a Lua de 7 e o Leonardo de 6.

Foram vários os motivos que levaram os cinco irmãos a uma diferente forma de aprender. Catarina conta que começou por observar diversos fatores, como a necessidade que o Rafael tinha da sesta, mesmo com cinco anos.

Nessa altura, interrogou-se como seria na escolaridade obrigatória e, como era professora de ensino especial, assistia in loco «como o sistema transforma jovens brilhantes em “fracassos” por tentar adequar a criança à escola em vez de fazer o oposto».

No seu entender, «as capacidades extraordinárias são desvalorizadas, pois o que interessa é decorar matéria e responder acertadamente nos testes».

Como funciona o ensino doméstico

De acordo com dados do Ministério da Educação (ME), no ano letivo de 2015/2016, estavam 619 alunos, entre o 1.º ano e o 12.º ano, em ensino doméstico (lecionado no domicílio do aluno por um familiar ou uma pessoa que viva na mesma habitação) e 42 em ensino individual (ministrado por um professor diplomado a um aluno fora da escola).

No ano letivo anterior, eram 199 alunos em ED, uma modalidade «de carácter excecional para responder a solicitações de famílias que, por razões de mobilidade profissional ou motivos pessoais, optam por escolher os métodos de ensino para os seus filhos», segundo indicações do ME.

O percurso formativo é da responsabilidade do encarregado de educação e o aluno em ED está sujeito à avaliação e à certificação das aprendizagens. A título de exemplo, no ensino básico, terá de realizar as provas finais de ciclo e as provas de equivalência à frequência.

«Está para sair regulamentação do ensino doméstico, que poderá ter aspetos que poderão restringir bastante a liberdade da gestão do processo educativo das crianças dentro dos ciclos», comenta Catarina Mendes, garantindo que os seus filhos «até agora sempre passaram nas provas de equivalência à frequência, exceto a Flor este ano».

Geralmente, o dia desta família começa com «as crianças a tratar dos animais, depois iniciam um trabalho (umas vezes todos, outras só alguns), que pode ser estudo através de manuais ou escola virtual», diz a mãe dos cinco irmãos.

«Dedicam-se também a jogos de tabuleiro, fazem pesquisas e, entre outras atividades, desenvolvem projetos. Ultimamente, a Flor e o Francisco têm estado muito empenhados na confeção de roupas para Barbies», diz Catarina Mendes, referindo que a leitura é por norma a atividade em que todos participam juntos.

Um projeto à medida

O projeto Noarodgi surgiu em 2017, pela mão de três famílias de Cascais, que ambicionavam um espaço que facilitasse o crescimento e aprendizagem das crianças, aproveitando as valências de cada pai no apoio das atividades educativas, ao mesmo tempo que trabalhavam em regime de co-working.

O sonho realizou-se e foi mais além transformando-se, em maio de 2018, no núcleo de Cascais da ANPED – Associação Nacional de Pais em Ensino Doméstico. Carla Santos tem 33 anos, é mãe de Ódin (5 anos) e Aron (2 anos) e está envolvida nesta iniciativa desde o início com Xana Luz, de 38 anos, e mãe de Maria da Luz (5 anos) e Flor (1 ano).

«Queríamos criar uma associação, mas após contactos com a ANPED optámos por integrá-la. Não fazia sentido existirem duas associações com o mesmo propósito», comenta Carla Santos que é doula e secretária do conselho fiscal da associação.

Cada núcleo desta organização promove as suas próprias atividades dirigidas às famílias. «A nível nacional, a ANPED funciona de forma muito horizontal, estamos divididos por grupos (fiscal, leis, parcerias, eventos, etc.) e reunimos de 15 em 15 dias por Skype», indica Carla Santos.

Na mailing list nacional constam cerca de 80 famílias, já no núcleo de Cascais estão inscritas 25 famílias a que pertencem perto de 40 crianças, que podem participar nas ações desenvolvidas, sempre acompanhadas por um adulto que por norma é um dos pais.

«Temos o plano das viagens pelas famílias, cuja calendarização é trimestral e feita de forma rotativa por cada família. As atividades são escolhidas atendendo ao facto de segunda-feira ser o dia de piscina, da ludoteca ser às terças, na quinta-feira atividade física e às sextas atividades urbanas ou de natureza. Assim, cada família, com base neste molde, escolhe as atividades», esclarece Carla Santos.

«Guiamo-nos pelo ano letivo escolar, pelo que entre julho e setembro organizamos atividades mais livres, na praia e nos parques infantis, em detrimento das atividades intelectuais e de motricidade», completa e diz que a informação é veiculada por «passa palavra» e pela mailing list.

Embora seja um ensino mais livre, são famílias que também têm em consideração as metas curriculares do ME havendo uma enorme entreajuda. «Se, por exemplo, numa família uma criança tiver dificuldades na aprendizagem da Matemática, haverá um pai que poderá dar-lhe explicações. Fazemos uso das nossas valências e formação», diz Xana Luz, que contribui bastante com o seu know-how de educadora de infância.

Estas duas mães afirmam convictamente que vão continuar com esta modalidade de ensino, mas dão liberdade de escolha se os filhos quiserem ir para a escola.

De acordo com informações do ME, o pedido de ingresso no ED deve ser feito na escola da área de residência do aluno, através de um requerimento apresentado pelo encarregado de educação à direção da escola, sendo depois celebrado um Protocolo de Colaboração onde constam as responsabilidades de todas as partes quanto ao acompanhamento e avaliação do aluno.

Circunstâncias ditam a escolha

As motivações dos pais que optam pelo ED para os seus filhos são variadas, desde filosofia de vida até ao facto de não confiarem no método de ensino das escolas.

«Não é uma opção que surge do nada e pode nem ser para a vida, mas sim estar relacionada com circunstâncias. Algumas crianças estão em ensino doméstico porque têm dificuldades de aprendizagem ou de socialização, outras por terem perturbação do espectro do autismo», comenta Inês Peceguina, vice-presidente da MEL – Associação Movimento Educação Livre e investigadora na área da Psicologia do Desenvolvimento.

A ligação profissional à qualidade da educação suscitou, aliás, a reflexão e quando foi mãe do Sebastião há 8 anos foi sem qualquer dúvida que, com o marido, optou pelo ED e proporciona o mesmo percurso formativo para as duas filhas mais novas, Alice de 6 anos e Clara de um ano.

Natural de Beja, Inês Peceguina tem 38 anos, vive em Lisboa desde 2003 e confessa que na época de estudante «tinha sempre muitas perguntas que não colocava à professora ora por timidez ora por pensar que seriam pouco interessantes ou inoportunas». Hoje sabe que «não há categorias de perguntas, mas sim curiosidades, que o sistema tradicional não promove».

Na sua opinião, o ED exige uma disponibilidade enorme e muita atenção às necessidades educativas dos filhos que, por seu turno, têm tempo para reparar em certos pormenores e questionar sem medo. «Incentivo a que façam todas as perguntas que considerem importantes», diz, acrescentando que, apesar de ter acesso aos manuais escolares, não os segue, funcionando antes «por projetos baseados no interesse das crianças».

Na MEL, que conta com cerca de 60 famílias associadas com quotas em dia, tenta dar resposta às diversas questões dos pais que procuram apoio em diversas áreas, sendo o ED uma das principais.

«Divulgamos, informamos e apoiamos as famílias nas opções de ensino disponíveis em Portugal. O nosso propósito é ajudar a refletir para as famílias encontrarem novas soluções, bem como agir junto da tutela e esclarecer as escolas que nos contactam», diz Inês Peceguina, sublinhando que «ainda há um grande desconhecimento que conduz à falta de coerência no que respeita às práticas, mas existem escolas que encaram o ED de forma positiva e apoiam as pessoas que optam pela diferença».

Carla Cardoso, 42 anos, e Marco Martins, 38 anos, vivem em Matosinhos e da parte do Agrupamento escolar a que os filhos, Jorge e Pedro, pertencem não tiveram «nenhum problema ou entrave».

Este casal garante que «a inscrição em ED foi feita pacificamente e desde então está tudo a correr bem», muito embora tivessem passado por um período de adaptação inicial, a «aprender a aprender em casa. Foi um ano em que andámos um pouco à deriva». O ano letivo em causa foi o de 2015/2016, tinha o Jorge 6 anos e o Pedro 10 e andavam no 1.º ano e 5.º ano, respetivamente.

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Carla Cardoso apoia o estudo dos filhos Jorge e Pedro, que passaram há dois anos para o ensino doméstico [Fotografia de Pedro Granadeiro/Global Imagens]
Hoje, Carla afirma que «não há arrependimento da decisão» e explica que o ED era «uma ideia que já vinha a acarinhar há anos, mas que por falta de apoio adiou. «Até ao ponto em que soube que tinha de pôr em prática, independentemente do que pensassem ou dissessem».

Assim, além da necessidade de ajudar o filho mais velho que tinha dificuldade na aprendizagem, esta mãe, ama de profissão, aponta também alguns fatores que «não ajudam, como sejam os conteúdos programáticos excessivos e complexos de algumas disciplinas, as turmas grandes e a falta de paciência dos professores. Além disso, os próprios alunos andam desmotivados e a competição que é estimulada provoca stress e não é benéfica».

O filho mais velho conseguiu as «melhores notas de sempre no seu percurso escolar e ganhou confiança e autoestima» e o mais novo, embora só tenha estado um ano no pré-escolar, «não teve boa experiência, pois não reagia bem ao modo de estar na sala de aula e ao facto de ser incentivado a desenhar como as outras crianças».

O método usado por Carla Cardoso é muito parecido com o da escola e assegura que «tendo outras obrigações que não só ensiná-los, é mais fácil e tranquilo para nós esta forma de aprendizagem».

ensino doméstico
João Guerra é pedopsiquiatra no Centro Hospitalar do Porto

Contra

João Guerra é pedopsiquiatra do Centro Hospitalar do Porto e acredita que apesar de haver vantagens do ensino doméstico, estas podem não superar os inconvenientes. Aponta assim algumas desvantagens do ED:

  • Limitação inevitável em termos de interação com os pares, apesar de algumas famílias terem uma boa organização e convívio com irmãos, familiares e amigos;
  • Organização e capacidade de auto-regulação, sendo que nem todas as famílias conseguirão planear uma rotina adequada e ser sempre criativas para aproveitar as experiências do dia a dia em momentos de aprendizagem;
  • Necessidade de abertura e flexibilidade no ingresso de uma criança na escola, por sua vontade, sem constrangimentos.

«Em situações de má adaptação ao sistema de ensino pode ser tentador enveredar por esta opção, mas é mais importante melhorar a adaptação que perpetuar um evitamento e agravar as dificuldades no futuro», exemplifica o pedopsiquiatra, que considera importante estimular a discussão acerca do sistema de ensino e fomentar mudanças desejadas quer pelas crianças e respetivas famílias, quer pelos professores.

Ensino Doméstico
Marta Marques é psicóloga educacional e investigadora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.

A favor

Na opinião de Marta Marques, psicóloga educacional e investigadora do Projeto IDEA (Investigação de Dificuldades para a Evolução na Aprendizagem) na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, «as escolas devem colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem e os mecanismos para o fazer são cada vez mais evidentes. Porém, o ensino doméstico dispõe de um conjunto de ferramentas que o permite fazer com maior consistência». A saber:

  • É possível aprender e desenvolver conhecimentos fora do currículo oficial, atendendo sempre às aprendizagens essenciais;
  • A permanência na sala de aula é no mínimo 5/6 horas por dia e os tempos de brincadeira cada vez mais reduzidos, tendo reflexo ao nível da autoconfiança física, autoestima ou exploração da criatividade. Em ED, a criança tem mais tempo para se conhecer e para se relacionar com outros, pois o período investido na aprendizagem é muitas vezes assumido como integral;
  • Participação ativa dos pais no processo educativo dos filhos, sem muros, horários de atendimento ou reuniões de avaliação. Contudo, deve ser partilhada com profissionais da área da educação ou pais que também tenham filhos em ED.

«O ensino doméstico não deve representar-se como uma modalidade de fuga à dificuldade, mas sim como mais uma alternativa possível para as famílias, que de forma apoiada e consciente poderão investir nesta modalidade de educação», diz a psicóloga.