Entrevista: «Como devo proteger o meu animal de estimação no verão?»

Sabia que deixar o seu animal dentro do carro, ainda que por breves instantes, pode levá-lo a sofrer um golpe de calor? Com as altas temperaturas que se fazem sentir deve proteger o seu animal. A alimentação e a hidratação são alguns dos aspetos a ter em conta. Mas há mais.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

O verão pode, por vezes, ser inimigo dos animais de companhia. A respiração mais acelerada é um dos sinais que o seu cão ou gato pode estar demasiado exposto às altas temperaturas. Nestes casos, o ideal é tentar arrefecê-lo e dar-lhe bastante água.

Thierry Correia, veterinário do departamento de comunicação científica da Royal Canin Portugal, explica que um dos principais erros dos tutores é deixar os animais dentro dos carros, ainda que por breves instantes, durante o verão.

O animal pode atingir uma temperatura corporal acima dos 40ºC e o seu mecanismo de arrefecimento já não consegue baixar ou manter a temperatura ideal, sofrendo um golpe de calor.

Existem várias formas de proteger o seu animal no verão e ajudá-lo a suportar o calor. O especialista explica quais.

Qual a melhor forma de proteger o animal de estimação no verão?
Ter sempre água à sua disposição para que possa beber a quantidade que quiser e sempre que tenha sede é bastante importante. Pode até colocar vários bebedouros nos locais que o animal frequenta, de modo a que o consumo de água seja facilitado e estimulado. A água deve ser sempre limpa e natural. A água gelada, apesar de ser boa para refrescar, pode levar a que o animal tenha um choque térmico.

O que mais podem os donos fazer?
Outra das medidas que deve ser tomada pelos tutores é garantir que o animal está sempre em locais frescos e arejados. Uma vez que os animais não transpiram, a única forma que cães e gatos têm de baixar a temperatura corporal é através do arfar ou do contacto com superfícies frias.

Que medidas são essenciais nesta altura do ano?
Uma das medidas que deve ser adotada pelos tutores é a alteração do horário dos passeios do animal. É aconselhável que se façam no início do dia e ao fim de tarde ou durante a noite. Independentemente do calor, as rotinas higiénicas do animal não devem ser alteradas, em especial se o animal for de pelo comprido.

«No caso de um animal sofrer um golpe de calor ou insolação, o tutor deve evitar entrar em pânico, pois pode stressar o animal e aumentar ainda mais a temperatura corporal do mesmo»

Há cuidados especiais a ter com este tipo de animais?
Por vezes é aconselhável que a frequência das escovagens seja maior, para ajudar na remoção dos pelos mortos, que são muitas vezes responsáveis pelo aumento da temperatura corporal. No caso dos cães pode ser recomendada a tosquia.

O que pode acontecer a um animal que fica demasiado tempo ao sol?
Pode sofrer um golpe de calor ou insulação, que ocorre quando a temperatura corporal do animal chega ou ultrapassa os 40 graus, fazendo com que o seu mecanismo de arrefecimento não consiga baixar ou manter a temperatura corporal. Esta é uma das situações mais perigosas que pode originar alterações cardiovasculares, nomeadamente a nível da circulação sanguínea e no próprio pH do sangue, bem como alterações respiratórias que podem levar à morte do animal.

O que devem os tutores fazer se o animal sofrer um golpe de calor?
No caso de um animal sofrer um golpe de calor ou insolação, o tutor deve evitar entrar em pânico, pois pode stressar o animal e aumentar ainda mais a temperatura corporal do mesmo. Deve tentar baixar-lhe a temperatura corporal dando-lhe banhos de água fria, colocando-o perto de uma ventoinha e hidratando o animal.

«Os animais devem ser alimentados nos períodos mais frescos do dia. O simples ato de ingerir o alimento produz calor»

De que forma é que a alimentação pode ajudar no combate ao aumento da temperatura corporal?
A escolha da alimentação do animal pode reduzir os riscos do aumento da temperatura corporal do mesmo. Os tutores devem dar aos seus animais de estimação alimentos húmidos, uma vez que, além de serem nutricionalmente ricos, fornecem mais água ao animal. É importante que o tutor dê ao seu animal alimentos que permitam uma digestão mais fácil.

O horário das refeições também deve ser alterado?
Os animais devem ser alimentados nos períodos mais frescos do dia. O simples ato de ingerir o alimento produz calor, provocando um aumento da temperatura corporal. Para evitar esta situação os tutores devem aumentar o número de refeições e dar menos quantidade de comida em cada uma delas, reduzindo o trabalho digestivo de cada refeição e estimulando a ingestão de água.

«Quando se viaja com o animal de estimação é preciso pensar no melhor acondicionamento durante o transporte»

Quais são os principais erros que as pessoas cometem com os animais no verão?
Um dos erros mais comuns e também mais desvalorizado é deixar o animal dentro do carro enquanto faz alguma tarefa, mesmo que seja rápida. Ainda que os tutores deixem o vidro aberto, o carro é um local que aquece muito rapidamente, podendo atingir temperaturas perigosas para o animal, o que leva frequentemente a que os animais sofram golpes de calor. Outro dos erros é o facto de se deixar os animais muito tempo sozinhos, sem acesso a água fresca. Esta situação ocorre com frequência com animais que vivem em ambientes exteriores.

Quando os tutores fazem viagens longas de carro com os seus animais que cuidados devem ter?
Quando se viaja com o animal de estimação é preciso pensar no melhor acondicionamento durante o transporte – é proibido por lei que os animais andem à solta no carro, devendo estes ser transportados numa caixa própria ou presos com um cinto de segurança adequado –, ter as vacinas e as desparasitações internas e externas em dia e levar os documentos do animal.

«Durante a viagem deve parar a cada duas horas para que o animal possa passear (no caso do cão) e beber água»

Mas deve haver algum tipo de preparação?
É uma boa ideia começar por fazer trajetos pequenos nas semanas antes e ver como o animal reage, perceber qual a melhor forma de gerir a ansiedade e o nervosismo e tentar que a experiência seja o mais agradável possível. Um período de jejum de 3 a 4 horas antes de iniciar o trajeto pode ser benéfico, uma vez que a ocorrência de vómitos durante o percurso é bastante frequente (há animais que têm mesmo de fazer medicação para o enjoo). Durante a viagem deve parar a cada duas/três horas, para que o animal possa passear (no caso do cão) e beber água. Deve também aproveitar as horas mais frescas do dia para fazer a viagem e ligar o ar condicionado para proporcionar uma temperatura agradável.

Existem sinais a que os donos devem estar atentos durante as temperaturas mais elevadas?
Devem estar atentos essencialmente aos sintomas que possam indicar que o animal está com calor ou que pode estar a sofrer um golpe de calor. Tremores, respiração rápida, letargia, ritmo cardíaco acelerado, alteração da saliva, desconforto, vómitos e falta de força podem ser os mais comuns. No caso de se detetar algum destes sintomas é importante que o tutor se dirija imediatamente a um médico veterinário.