Deisi Kusztra: “Há 48% de homens no mundo. Cabe às mulheres educá-los para a partilha de tarefas”

Pediatra de formação, especialista em políticas de família e saúde, Deisi Kusztra implementou medidas de proteção infantil e maternidade em África, Europa, Médio Oriente e América do Norte. Presidente da Organização Mundial da Família (OMF) – que decorreu esta semana em Lisboa – representa a instituição junto da ONU, da OMS e do Banco Mundial. Vive oficialmente entre São Paulo, onde tem casa, e Paris, onde está sediada a organização, mas passa a maior parte do tempo em aviões, a viajar entre conferências, reuniões, visitas de estudo ou ações no terreno. Uma entrevista sobre necessidades básicas das famílias, dignidade, igualdade de género, acesso a cuidados de saúde e gestão de dinheiro público.

Entrevista de Paulo Farinha e Carla Bernardino/Delas.pt
Fotografias de Filipe Amorim/Global Imagens

Decorreu esta semana a Conferência Internacional da Família, com uma declaração final – a Declaração de Lisboa, que será apresentada à Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro – aprovada por unanimidade. O que quer ou espera que saia, a nível concreto, destes três dias de cimeira em Lisboa?
O que gostaria mesmo de reforçar, principalmente na nossa declaração final, é que a educação começa em casa e na família. Por isso, as ações de educação tanto formal como a informal, tanto vocacional quanto a da mudança dentro do sistema educativo, têm de ser discutidas num nível local para que o ciclo da mudança comece.

Dos 17 objetivos globais para o desenvolvimento sustentável, que a ONU gostaria de ver implementados até 2030, qual aquele em que estamos mais atrasados para o bem estar das famílias? Acabar com a pobreza? Com a fome? Qualidade da educação? Igualdade de género?
Por enquanto, com apenas quatro anos desde que os objetivos foram traçados, é difícil dizer qual está mais atrasado. O conceito dessas 17 metas, e o que está na declaração, é que elas são indivisíveis e uma está sempre conectada com a outra. Não gostaríamos de dizer que este está mais adiantado ou aquele mais atrasado. Assim estaríamos a dividir. No entanto, a questão da pobreza é preocupante. Não temos conseguido, nem nos países desenvolvidos e muito menos nos países em desenvolvimento, lidar com ela. E mesmo que achemos que as coisas estão a caminhar, sabemos que a pobreza tem sido uma doença infecciosa. Quando um país tem um problema ou uma mudança política significativa, sabe-se que a crise económica vem atrás. E cresce o número de pessoas que entraram – algumas outra vez – na pobreza. As famílias estão no centro dessa questão.

Os 17 objetivos globais foram aprovados em setembro de 2015. Quase quatro anos depois, já há diferenças?
Definitivamente. Há quatro anos, quando se perguntava quem conhecia o quê e o que está a ser feito, ninguém sabia responder. Desta vez, um ano depois do início, já sabíamos que as pessoas conheciam. E isto ficou também claro nesta cimeira. Por isso, já se nota o impacto. É muito positivo.

“A melhor ajuda assistencial que se pode dar a uma família é garantir um emprego. Não qualquer um. Tem de ser um emprego decente, justamente remunerado. Por isso eu acho que todos esses problemas nascem da pobreza, primeiro, e da educação, depois.”

No domínio concreto, o que já está em marcha?
Estamos a discutir a educação e de que forma ela pode fazer a diferença a nível local. Um exemplo clássico passa pelo facto de estarmos a conseguir levar um grupo de presidentes de câmara e administradores locais às Nações Unidas, para a reunião do ECOSOC [Fórum político para o desenvolvimento sustentável, que terá lugar em julho, nos EUA], para dizerem o que se passa verdadeiramente na realidade e dar opinião. Falamos de factos muito concretos e que podem modificar em dois anos os rumos, principalmente, da educação e da mudança de atitude. Daqui a dois anos, iremos discutir a meta número 5, a da igualdade de género, e queremos também levar isso às autoridades locais, porque é ali que começa a semente que leva à mudança de atitude.

É pediatra e especialista em saúde pública. E no exercício das suas funções como presidente da World Family Organization (WFO) corre o mundo e já viu muitas realidades diferentes – o que é verdade no norte da Europa não se aplica na África subsaariana, por exemplo. Com isto em mente, o que a preocupa mais, quando falamos de saúde infantil ao nível mundial?
Os problemas de saúde infantil são, na realidade, fáceis de combater. O que falta, sobretudo, é informação, principalmente para as mães. E aí que a educação informal é muito importante. Sabemos que se a mãe for educada e souber como preparar o biberão, a água, a higiene da criança, como dar de mamar, etc, a mortalidade infantil diminui muito. Outra coisa importante é a vacinação. Temos agora essa moda: muitos pais não levam as crianças para vacinar porque pensam que as vacinas podem causar a doença. E aqui temos dois conceitos que chocam. Um é o pensamento – errado – que defende que, como toda a gente já foi vacinada, doenças como o sarampo estão erradicadas e não voltam. Isso não é verdade. O outro é isso de a vacina poder causar a doença. O que também é errado.

Em alguns sítios, não as há. Noutros sítios, não as querem. É uma new new age?
Sim. É uma new new age. E importa dizer uma coisa: a disponibilização de vacinas, hoje, é maior do que era há 40 anos. Nos países pobres, nos locais mais distantes, o problema não é não termos a vacina. O problema é como fazer chegar à vacina nesses locais. Uma vacina tem de ser bem acondicionada, na temperatura correta. Às vezes, desde que saí do local onde está até chegar ao local onde deve ser aplicada, a vacina perde-se. Isso é um grande problema de logística.

“Há 48% de homens no mundo. Estão na mão de mulheres desde que nascem e durante muitos anos. Cabe a elas educá-los, nesses tempos, para a partilha de tarefas. Nós criamo-los de uma forma e depois reclamamos por eles terem maus comportamentos em casa. É uma cultura que vem das nossas bisavós, avós, mães, porque elas não podiam dar aquilo que elas não conheciam. Mas agora as coisas são diferentes.”

Falou de mortalidade infantil. O que fazer para a diminuir? Os problemas não são todos iguais e as soluções também não, mas o que é prioritário?
Informação. Acima de tudo. Temos de falar de coisas que começam um pouco antes. Temos de falar de mortalidade perinatal. De mortalidade no momento no parto. De mortalidade neonatal [até aos 28 dias de vida do bebé]. E de mortalidade infantil [até 1 ano de vida]. A grávida precisa de cuidados. Para ela e para a criança. Se fizer um bom pré-natal, tem muitas probabilidades de ter um parto sem nenhuma intercorrência. Também pode ter tido um [período] pré-natal excelente e a criança estar bem, mas se no último momento tiver uma intercorrência grave e ela não tiver possibilidade de recursos humanos e equipamentos adequados para agir ali, esta mãe morre. E o bebé também. Por isso acho que informação é essencial. E meios adequados.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), há cerca de duzentos milhões de mulheres e raparigas no mundo que terão sido sujeitas a mutilação genital feminina. E três milhões de meninas estão em risco todos os anos. Como se erradica esta prática, registada em trinta países em África, no Médio Oriente e na Ásia? O que se pode fazer?
Eu não tenho muita certeza sobre esses números. Creio que não temos todos os dados. Há muitas tribos africanas, por exemplo, onde não há registo dessa prática, mas ela é comum. E o que podemos fazer é garantir educação. Informação. Se alguém, oriundo de uma comunidade onde isso é comum, emigrar, vai levar o hábito com ele para o novo país. Mesmo que seja ilegal e seja uma barbaridade. Por isso temos de informar. Mas o mais importante é o entendimento da família de que isso é uma prática que causa danos à menina e que não serve para nada.

Deisi Kusztra esteve em Lisboa para a Conferência Internacional da Família, organizada pela CITE e pela WFO, que preside.

Estamos a falar de um problema de saúde, que acarreta muitos riscos, e de uma questão de dignidade. Para aquela mulher e para a sexualidade dela e para uma vida adulta plena. Tudo em nome de uma tradição. Mas isso é difícil de mudar, em termos de mentalidade, em alguns países.
Sim, é verdade. E tem mais um risco, uma questão que raramente é falada: um risco de morte da mulher e do bebé no momento do parto. Principalmente se ela tiver um parto em casa ou não tiver acesso a equipamentos adequados.

E a amamentação, é uma preocupação? O marketing das empresas produtoras de suplementos, sobretudo nos anos 70 e 80 do século passado, ajudou a passar a mensagem de a amamentação não ser necessária. Sendo recomendada pela OMS, a quantidade de mulheres que não amamenta nos países desenvolvidos, substituindo o leite materno por suplementos, representa uma preocupação para a WFO?
Eu não tenho a certeza que as coisas sejam assim. Os médicos pediatras que trabalham na área de saúde pública veem diferentes circunstâncias que levam, ou não, à amamentação. A amamentação é, definitivamente, muito importante. E toda a mulher deveria, durante o [período] pré-natal conhecer os benefícios, saber como fazer, como tratar da dor, dos abcessos, distinguir a o choro de cólica do choro de fome do bebé, e tudo o mais que é importante. Por outro lado, encontramos muitas mulheres que se sentem extremamente culpadas porque, em algum momento, por algum problema, não conseguiram amamentar. Quando tanto falamos em direitos humanos, temos de falar também do direito da escolha após a devida informação. Isso é muito importante. E essa mulher que, por algum motivo, não vai poder amamentar, não pode sentir-se culpada.

Acha que há uma pressão para isso?
Existem situações genéticas, por exemplo, que levam a mulher a não poder amamentar. Ou o bebé pode ter uma alergia. Ou uma deficiência que não sabemos ainda. Ou uma intolerância à lactose. É muito, muito precoce rotular e atirar culpas para as empresas de suplementos.

Então, em países em desenvolvimento, onde a amamentação é a única fonte de alimento para recém-nascidos, essas intolerâncias ou alergias podem ser causa de morte.
E são. E não sabemos porque não há registo, não há informação. É fácil comparar entre países pobres e países ricos, mas é preciso saber se a informação é credível. Se é feita com critérios técnicos. E se se pode comparar. Mas isso não é por serem países pobres. Nos nossos países desenvolvidos também há falta de informação e de fidedignidade. Quem analisa os dados são pessoas e por vezes pode fazê-lo de forma incorreta.

“Para resolver todos os outros problemas, temos de começar pelo económico. Sem resolver isto, os fundos para suprir as carências sociais nunca serão suficientes. Um emprego – decente, justamente remunerado – e uma casa. O resto vem depois.”

Tem mais de trinta anos de gestão de projetos de saúde pública. Aprendeu a desconfiar dos números? A ter dúvidas, questioná-los…
Definitivamente. E todo o bom profissional que trabalha com planeamento estratégico – em especial na área de saúde – tem de desconfiar dos números. Primeiro há a questão da recolha – que pode ser errada. Depois, quem vai agregar ou desagregar os números recolhidos. E quem os vai tratar. E ainda é preciso pensar na distorção dos dados, uma realidade dos governos, porque não querem mostrar indicadores que estejam errados. Para planeamento estratégico, especialmente na área da saúde, é preciso desconfiar, procurar as fórmulas adequadas para fazer projeção e ainda calcular um fator de correção.

Falemos de igualdade de género. Como conseguimos mudar mentalidades para trazer cada vez mais os homens para a partilha de trabalho doméstico nas sociedades ocidentais? E como fazer para que se reconheça cada vez mais o trabalho não remunerado da mulher – e este seja também partilhado?
Educação. Há 48% de homens no mundo. E esses 48% estão na mão de mulheres desde que nascem e durante muitos anos. Cabe também a elas educá-los, nesses tempos, para a partilha de tarefas. Nós criamo-los de uma forma e depois reclamamos por eles terem maus comportamentos em casa. Nós, mulheres, temos de pensar com é que vamos criar os nossos filhos nesta cultura de igualdade para depois podermos cobrar. Em muitos casos, muitas mães exigem às filhas coisas que não exigem aos filhos. É uma cultura que vem das nossas bisavós, avós, mães, porque elas não podiam dar aquilo que elas não conheciam. Mas agora as coisas são diferentes. E graças ao life-long learning, à educação que se prolonga pela vida, as mulheres devem contribuir para que os meninos sejam criados de forma diferente.

As mulheres são muitas vezes, do ponto de vista da desigualdade, o ‘elo’ mais fraco. Em que medida é que isto começa e se perpetua no seio da família?
Não tenho certeza se a mulher é mesmo a parte mais fraca. Muitas mulheres não descobriram quão fortes são. Na realidade, as sociedades veem-nas de forma diferenciada, quando olham de fora para dentro da família, e têm de olhar e ver o poder que elas têm nesse contexto familiar. Sem nós, mulheres, a casa, é muitas vezes, um caos, meias para um lado e para outro, dispensa vazia, portas de armários abertas, e os homens – e os filhos – só veem isto no momento em que não estamos lá. Nós mesmas não nos apercebemos disso e não transmitimos as atitudes que devemos tomar aos nossos filhos, para que as transmitam às gerações futuras. Muitas vezes, é na família que as mulheres não conseguem transmitir como devem ser vistas, e isso perpetua-se. Temos de, cada vez mais, transmitir a nossa força.

E como é possível fazer isso?
Primeiro, as mulheres têm de se ouvir mais a respeito do valor que têm e não do quanto elas são vítimas. Enquanto se falar em vitimização, ninguém vai mudar conceito a nosso respeito. Segundo, temos de nos convencer o quanto somos essenciais dentro de uma família. Terceiro, temos, de uma forma didática, passar por cursos de treino para que nos valorizemos dentro da família e, depois, passar essa mensagem de que somos e queremos ser essenciais, que temos a nossa vida fora de casa, no nosso trabalho Também temos de saber que a família é o nosso reino e ninguém nos vai substituir. Se olharmos para as estatísticas, elas ficam mais tempo viúvas do que os homens e isso já é um indicador do quanto nós mulheres somos essenciais dentro da família, principalmente na transmissão dos valores, da cultura, das atitudes, no amor à pátria.Somos essenciais principalmente no processo de transmissão.

E como se concilia tudo isto quando vemos, quer em Portugal, quer por exemplo no Brasil, de onde a Deisi é natural, os números crescentes de violência doméstica – que tem lugar dentro do lar, na família – e de femicídios, perpetrados muitas vezes por quem está mais perto das mulheres?
Temos de olhar para esse aumento da violência doméstica e para as circunstâncias em que acontece de duas maneiras: primeiro, sabemos mais hoje sobre violência doméstica porque existem mais registos; em segundo, as mulheres não eram incentivadas a fazer denúncias e os homens estavam habituados a essa propriedade, estavam habituados à ideia de que podiam fazer o que quisessem, que nada lhes iria acontecer.

Como se resolve isso?
A consciencialização da violência doméstica é um caso sério dentro da família, que é perpetrada pelas pessoas mais próximas, não só o marido, mas por vezes o pai ou os filhos crescidos. Temos agora a oportunidade de deixar isto registado. O segundo ponto é que a cada facto novo que ocorre, isso leva algum tempo a ser assimilado pela sociedade. Um facto novo gera a discussão, esta gera a assimilação e esta gera a mudança de hábitos e atitudes. E isso leva tempo. Ao falar disto, gostaria de sublinhar o seguinte: talvez a minha geração – tenho 67 anos – esteja a pagar o preço pelas mudanças de atitude que virão no futuro para as nossas filhas, netas, bisnetas. Mas este preço é uma imensa felicidade em pagar porque estamos a fazer parte da história da mudança da relação entre homens e mulheres, da relação da convivência familiar e a do relacionamento dessas duas áreas que são a família e a sociedade. Ao mesmo tempo, os governos começam a olhar e a tentar perceber como é que as políticas públicas podem ser implementadas em relação à família, olhando para o acesso ao nível local, porque é aí que as mudanças de hábitos e atitudes se operam mais rapidamente.

“É preciso respeitar a forma como cada família recebe este conhecimento e toma decisões dentro da sua casa, que é o seu domínio. Depois disso, temos de aceitar as diferenças. Preocupa-me a rotulagem. Porque uma família é assim, a outra não tem de ser igual. Cada família é uma família e tem de ser respeitada.”

Nesta matéria da violência, o que podemos esperar da agenda 2030 que está em discussão na cimeira que terminou hoje em Lisboa?
Em 2000, estabelecemos as metas do milénio que tinham como horizonte 2015, e que, na realidade, não se alcançaram. Esta realidade ensinou aos nossos países e a quem lida na área internacional que se não chegar ao nível nacional e local, as metas não vão ser alcançadas. Outra vez. Por isso, a agenda 2030 inclui o ponto numero 11, que vem dizer que precisamos de localizar as ações e criar sociedades sustentáveis e comunidades fortes. Agora estamos a ir um pouquinho mais longe. Queremos que o nível nacional inclua o local porque as famílias moram nos municípios. São os autarcas e os gestores locais que têm mais possibilidade e que, dentro da agenda 2030, têm maior capacidade para agilizar e implementar a execução das ações porque estão a envolver os verdadeiros beneficiários destas ações, as famílias.

Tem uma visão geral das famílias no mundo como poucas outras pessoas. Ora, nos países onde os cuidados de saúde primários estão assegurados, onde temos saúde, habitação, água potável, segurança, etc, o que a preocupa mais? O papel do homem na família? A licença parental? As mães adolescentes?
O que me preocupa, mais do que tudo, é o problema económico. Para resolver todos os outros, temos de começar por este. Volto a reforçar isto porque é mesmo importante. Sem resolver isto, os fundos para suprir as carências sociais nunca serão suficientes. Um emprego, uma renda e uma casa. O resto vem depois. E também me preocupa a forma como o conhecimento e as informações e as políticas são transferidas e aplicadas de um nível nacional para um nível subnacional, daí para o local e do local para as famílias. É preciso respeitar a forma como cada família recebe este conhecimento e toma decisões dentro da sua casa, que é o seu domínio. Depois disso, temos de aceitar as diferenças. Por isso fico tão preocupada com a rotulagem. Porque uma família é assim, a outra não tem de ser igual. Cada família é uma família e tem de ser respeitada.

É um problema das sociedades contemporâneas modernas, esse de tentar nivelar toda a gente – e todas as famílias – por igual. E de as arrumarmos em prateleiras?
Sim. Em todo o lugar. Nas comunidades mais tradicionais isto acontece menos do que nas modernas. Nas sociedades modernas trazemos uma série de informações diferentes para o seio da família e muitas vezes é difícil escolher, filtrar, selecionar o que é mais importante. E o que deve ser regra ou pode ser flexível. E isso traz problemas, até intergeracionais, dentro das famílias. Hoje temos muitos estímulos, com tanta tecnologia e informação, e isso às vezes é difícil de gerir. Por exemplo: para a minha mãe, a hora de comer era sagrada. Eu eduquei a minha filha, quando ela era adolescente, a deixá-la ver televisão durante a refeição às vezes. Depende. Cada família é uma família.

Os países têm realidades diversas, assimétricas, entre si. Em que regiões do mundo é mais urgente operar?
Poucas pessoas se dão conta, particularmente em conferências internacionais, de tudo aquilo que se discute e principalmente quando essas conferências têm lugar em países mais adiantados, que não estamos a cobrir todo o universo de mulheres ou de famílias que necessitariam desse treino. Não saberia dizer realmente como vamos alcançar isto, e é um ponto que nos angustia muito. Ora, quando sei que não posso chegar um determinado país, ou a uma região desse território, ou a uma tribo em que a cultura e as tradições são diferentes, digo para mim mesma: sou uma só para um espaço-tempo muito pequeno. O que tenho de fazer é incentivar que outras continuem o trabalho, porque o mundo é dinâmico. Espero, sinceramente, que possamos ter uma homogeneidade maior no mundo e que tanto as famílias, quanto as mulheres possam alcançar o que realmente precisam.

Na Europa, que medidas concretas podemos esperar?
Tivemos uma sessão muito produtiva sobre mulheres migrantes. Temos de olhar para as famílias de migrantes que chegam não como concorrentes, mas como elementos que podemos agregar. Temos de olhar e pensar que todos podemos fazer ações de inclusão, porque não estamos a dar atenção adequada. E que não é só consentir que a família e a mulher venham aos nossos países, mas saber como as vamos incluir, transmitir-lhes a nossa cultura e absorver a deles para que isso seja uma troca.

Há ações concretas já definidas?
O nosso plano de ação para o próximo ano – e que temos de passar ao ECOSOC primeiro – passa pela questão da família. Temos de começar a ter ações que se voltem para a inclusão sobre as mulheres e adolescentes, em algumas países consideradas crianças. O que as mulheres, as crianças-meninas representam, o que a família em conjunto pode fazer e, olhando para as políticas públicas, o que pode ser posto em marcha.

“Quando um país tem um problema ou uma mudança política significativa, sabe-se que a crise económica vem atrás. E cresce o número de pessoas que entraram – algumas outra vez – na pobreza. As famílias estão no centro dessa questão.”

Falamos muito de crianças e primeira infância, mas as famílias têm cada vez mais pessoas de idade avançada. O envelhecimento dos nossos pais e avós é uma preocupação, mas regista-se muito abandono de idosos, com pessoas que vão para lares de terceira idade e se sentem completamente sozinhos. Isso é sobretudo um fenómeno de países desenvolvidos, certo?
Sim, sem dúvida. Em algumas comunidades africanas, a convivência intergeracional é grande. A responsabilidade das famílias recai sobre as crianças mas também sobre os idosos. E a opinião dos mais velhos é muito valorizada. Mas, nas sociedades modernas, os idosos precisam de um determinado bem-estar que nós, com as nossas vidas, não temos possibilidade de garantir. Não só porque não estamos em casa, mas também porque não temos dinheiro para pagar a alguém para cuidar deles. E aí nasceu esta indústria de locais onde as famílias podem deixar os idosos enquanto estão a trabalhar. É verdade que a necessidade existe e a possibilidade também. Mas a ideia não é levar um idoso e esquecer-se lá dele. E quando isso começou a acontecer, a solução passou a ser um problema. Nasceu o abandono de pessoas mais velhas.

O abandono hospitalar, então, é ainda mais flagrante e dramático.
É. No Brasil, o meu país, temos um sistema de saúde gratuito, constitucionalmente. E como não é obrigatório as pessoas irem a este ou aquele hospital, isso dá brechas. Muita gente leva o idoso de uma cidade para outra, onde é internado, e depois desaparecem.

Como se combate isso?
A principal coisa que pode combater isto é a redução da pobreza. Volto a este tema. Porque quem é pobre não pode escolher. E faz coisas dessas. Quando se fala de dinheiro público e de saúde grátis, temos de pensar que isso não existe. Não há dinheiro público. Isso é um mito. Existe o seu dinheiro, o meu dinheiro, que é privado, que nós damos ao governos para ele nos dar o retorno. E às vezes não vem. Essa filosofia tem de ser mudada. A melhor ajuda assistencial que se pode dar a uma família é garantir um emprego. Dar emprego. Mas não qualquer um. Tem de ser um emprego decente. E tem de ser justamente remunerado. Por isso eu acho que todos esses problemas nascem da pobreza, primeiro, e da educação, depois.

Sendo de origem brasileira, como olha para as considerações sobre a família do novo executivo? Em que circunstâncias estão agora as mulheres e as famílias?
Elas estão diferentes. Um dos nosso pilares dentro da WFO é o de que temos de respeitar o que é legal em cada país e aquilo que a família, tenha ela a forma que tiver, decidir que é melhor para ela. Por outro lado, também temos a nossa obrigação e missão de deixar à escolha daquilo que achamos que podia trazer benefício para o núcleo familiar. Quando olho para mim mesma, sinto-me desafiada. Todos os dias quando me cruzo com algum problema e opinião diferente – por vezes até agressão de uma opinião – sinto-me desafiada.

O Brasil não está mais perigoso para as mulheres e para as famílias hoje em dia, depois da eleição de Jair Bolsonaro e da nomeação da ministra Damares Alves?
Talvez não compartilhe dessa visão do que às vezes sai na imprensa. As coisas não são bem assim. Encontrei-me uma vez com a ministra da família, Damares Alves, e estão a começar um governo que só tem quatro meses e que veio de uma base que ninguém esperava, após um ciclo de vinte anos com uma outra ideologia, com outras posturas. Por isso, quando digo desafiante falo de cada país que muda de posição, e sabemos que há muitos no Mundo que estão a mudar. Primeiro, é preciso dar tempo ao tempo. Segundo, não é tudo aquilo – e acontece muitas vezes comigo – que sai na imprensa, por vezes está distorcido.

O que saiu distorcido?
Não estou a falar de um facto preciso. Uma coisa é trabalhar tecnicamente, como fazemos aqui, outra coisa é estarmos a torcer para o lado A, o lado B ou o lado C. E aí é dado só um olhar.

Mas um país que acaba de aprovar a lei das armas, que as concede a tantos e com um aumento tão grande de cartuchos disponíveis por ano, por pessoa…. isto não é um perigo para as famílias?
O que eu sei dizer definitivamente é que, no Brasil, as famílias foram desarmadas e os bandidos não. Quero também dizer que não sou a favor, falo apenas de um termo de comparação. Durante os últimos quarenta ou cinquenta anos, quem está armado no Brasil? Quando moramos lá, sabemos o que acontece no dia-a-dia e, por vezes, não é isso que é divulgado. Não vamos armar, mas vamos desarmar quem está armado. É uma situação muito complicada, realmente precisamos de tempo para ver as consequências de tudo isso. Volto a dizer, não sou a favor do armamento das pessoas, mas, dentro do que me sinto desafiada, gostaria sim de ver o desarmamento.

“A Organização Mundial da Família foi criada em 1947. Depois da II Guerra Mundial, muitos países deram atenção a este tema e criaram ministérios da família. Hoje temos 187 países filiados mas muitas políticas nesta área estão ainda por adotar.”

E há tempo para esperar?
Dentro da análise de cada país, devemos ter sempre uma série histórica e daí dizer se devemos esperar ou não. Agora, desde que o mundo é mundo, em todas as mudanças que tiveram lugar – de qualquer coisa ou até de uma simples plantação para ver se vai haver fruto ou não –, infelizmente, o tempo é o nosso senhor. Temos de, em tudo o que fazemos, ter a paciência e a consciência de que resultados rápidos nunca são consistentes.

Quantas viagens faz por ano, no exercício das suas funções, visitando diferentes realidades?
No ano passado, em dois meses eu fiz dezoito viagens.

Está à frente da WFO desde 1997, o seu mandato termina em 2021 e já garantiu que não se recandidata. O que falta ainda conquistar para as famílias, em termos de políticas governamentais?
Quero que o nível local seja muito bem preparado para atender às necessidades das famílias nas áreas económica, social, cultural e, principalmente, na fraternidade. E que o nível local seja incluído nas decisões internacionais e nacionais. Repare, a WFO foi criada em 1947 e, depois da II Guerra Mundial, passamos por um período de grandes flores, com muitos países a darem atenção a este tema e a criarem ministérios da família. Hoje as coisas são diferentes, temos 187 países filiados, mas o que importa mais do que tudo é que as políticas nesta área, as family friendly policies sejam adotadas e que o sejam ao nível local. Não importa se são ministérios, secretarias de estado ou comissões. O que importa é que se adotem medidas para proteger as famílias. Cada família. Em cada realidade. Nomeadamente em países que já não dão prioridade a esta área. E que se veja o lado delas antes de se fazer a política. Porque é fácil mandar fazer coisas atrás de uma mesa, num ministério, mas o importante é ouvir quem está do lado de lá.

A Conferência Mundial da Família foi organizada em Lisboa pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e na Empresa (CITE).