«Para sermos bons pais, devíamos fazer como com os antibióticos: uma asneira de oito em oito horas»

Do que se queixam as crianças? Quais as suas reclamações? O que não gostam que os pais façam? Estas eram algumas dúvidas que Eduardo Sá tinha antes de preparar o seu mais recente título. O Livro de Reclamações das Crianças reúne protestos e lamentos, compilados pelo psicólogo, especialista em educação parental, que há mais de trinta anos ouve famílias… para tentar ajudá-las a ouvirem-se melhor. Uma grande entrevista de vida, da série “Ninguém Disse que Isto ia Ser Fácil“, em que se falou também de castigos, avós, professores e do poder do sexto sentido.

Entrevista de Paulo Farinha | Fotografias de Filipa Bernardo/Global Imagens

Este Livro de Reclamações das Crianças nasceu de reclamações reais que recebeu? Ou que foi recolhendo? Como foi esse processo até chegar ao livro?
Nasceu de reclamações que recolhemos. Sempre tivemos a ideia que as crianças não são tão distraídas como parecem. E que são acutilantes, minuciosas, com uma sensibilidade fora do vulgar. E tivemos a tentação de pegar naquilo que intuíamos todos os dias, quando estávamos com elas, e irmos conversar, diretamente, com grupos de crianças. Começávamos por «aquecer» os grupos e trocar algumas ideias e depois esperar que elas começassem a partilhar as reclamações que tinham.

Esse processo foi feito pelo Eduardo e pela sua equipa?
Sim, por pessoas da minha equipa. Não fui eu, diretamente, que recolhi estas reclamações.

E o que fizeram depois com a informação recolhida?
Pegámos numa mão cheia de reclamações [55] e ficamos quase incomodados com o que tínhamos. A fineza do pormenor, o lado duro de algumas observações, a maneira inacreditavelmente madura como elas descascavam os adultos e os punham a nu – quando nós às vezes achamos que elas estão sempre distraídas – surpreendeu-nos tanto que achámos que seria engraçado pegar em algumas dessas reclamações e responder-lhes como se fosse para elas… mas na verdade são para os pais delas.

«Os adultos deviam brincar mais com as crianças e não estarem sempre a pedir para nós não brincarmos tanto.», Leonor, 8 anos

Quanto tempo demoraram a recolher todas as reclamações?
Foram poucos meses.

Qual o intervalo de idades das crianças que ouviram?
Algumas com menos de 5 anos e outras com 8 ou 9. Não quisermos passar muito além disso, porque era como se estivéssemos a entrar no território dos adolescentes, que já é um campeonato diferente e em que as reclamações seriam muito mais robustas, com mais arabescos. Aquelas que temos no livro são completamente depuradas, quase assustadoras.

Veja o vídeo da entrevista completa:
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Algumas reclamações destas crianças falam de castigos, nomeadamente corporais. Outras prendem-se com a atenção (ou falta dela) que os pais lhes dão. Estas foram as que o surpreenderam menos?
Mais ou menos. Tenho medo da expressão «falta de atenção». É muito áspera. É quase uma afirmação com o dedo esticado. Há pais que dão muita atenção aos filhos sem sequer os conhecerem verdadeiramente. Portanto, às vezes não tem tanto a ver com a quantidade da atenção que dão, mas com o modo como os sentem e imaginam. E com a forma como, na infância dos filhos, conseguem sufragar a sua própria infância.

«Os adultos deviam pedir desculpa.», Adriana, 6 anos

E haverá casos em que aquilo que uma criança pode considerar falta de atenção, dificilmente o adulto responsável por ela será capaz de reconhecer como tal.
Sim, muitas vezes não reconhece. Quando as crianças são mais explícitas, dizem, de uma forma quase própria de um português de adolescente, que a mãe e o pai não percebem nada. Não quer dizer que não percebam de muitas coisas, mas onde os pais às vezes escorregam é no modo como vão daquilo que sentem nos filhos para as palavras que colocam no que sentem. E isso faz com que fiquem muito embaraçados. Foram ensinados a desqualificar demais o que sentem. Ora, os pais quando são intuitivos são de uma clarividência absolutamente desconcertante. Chego a ter medo, quando os pais leem muitos livros sobre parentalidade, que escutem muito pouco o seu sexto sentido, tão importante. Se escutarem mais o sexto sentido, os pais são notáveis.

O poder do dedo que adivinha.
Sem dúvida. Os pais podem ser inacreditavelmente intuitivos, mas depois parecem censurar-se e fica ali uma terra de ninguém em que querem ser bons pais – que é tudo aquilo que devia ser proibido quando queremos ser pais.

Essa auto-imposição de querer levar a medalha de melhor pai pressiona-os muito?
Eu acho que os pais fazem poucas asneiras. Para se aproximarem dos bons pais, deviam fazer como fazemos com os antibióticos: uma asneira de oito em oito horas. Se ainda não o estão a fazer, não percam a esperança.

«Não gosto que o pai feche a porta à chave quando eu estou de castigo.»
Gonçalo, 5 anos

Dizia há pouco que apesar de responder às crianças, na verdade aquelas respostas são para os pais. Que conselho se dá a um pai de uma criança que se queixa de lhe baterem? Ou de lhe darem pontapés. Essa reclamação impressionou-me bastante.
É muito difícil sermos pais. Nunca estamos preparados para isso. E eu entendo que muitas vezes há vidas tumultuosas, com condições inacreditavelmente más. Muitos pais vivem com empregos precários, a relação amorosa que têm porventura nunca foi amorosa, têm famílias que são mais fontes de encargos e dores de cabeça do que sítios onde se pode respirar. Por vezes os pais, espremidos por todos os lados, reagem de forma impulsiva. Não estou a pôr pó de arroz em cima de quem faz isso…

Mas com isso desaguam nos filhos uma série de questões.
É evidente que, quando um pai chega a um extremo desses, está a hipotecar de uma forma tremenda, quase irreparável, todo o crédito que um filho lhe dá.

Está a falar de um pontapé, de castigos corporais. Ou de fechar um filho à chave. Se o medo vem do próprio pai ou mãe, que deviam proteger e acarinhar o filho e garantir uma bolha de segurança para ele, as coisas ficam complicadas de gerir na cabeça de uma criança.
Quando os pais são, eles próprios, ameaçadores, a fonte do perigo, começamos a desconfiar da própria sombra. Se não temos claro o bem e o mal, a determinada altura passamos a desconfiar de todas as pessoas que se chegam a nós, mesmo que o façam por bem. Portanto, esses pais atentam contra a vida das crianças muito mais do que imaginam. Obviamente que quando se chega a um extremo desses, os pais não têm as condições indispensáveis para ter uma criança à sua guarda.

«Fico triste quando a minha mãe me dá uma tareia. Ela está sempre a dizer que eu me porto mal. Mas eu não acho.», Clara, 6 anos

Recolheu estas queixas em grupos de crianças. Também recebe algumas destas «reclamações» em contexto de consulta?
Esse é o meu dia a dia.

Uma coisa é escrever um livro, na esperança que seja lido pelas pessoas e que elas fiquem a pensar no que leram. Outra é dizer isso cara a cara. Que conselho, indicação se dá a um pai nesses casos? Como se diz a um pai «não deve bater no seu filho»? «Não deve fechar o seu filho à chave.»
Como se explica a um pai que pode estar a comprometer, num gesto desses, toda a vida que um filho lhe pode dar e todas as oportunidades de redenção que este traz à sua vida?

Tem de dizer isto muitas vezes aos pais?
Não.

E quando tem de o dizer, que tipo de reações recebe?
Depende da maneira como dizemos. Mas não me sinto nada mal a dizer isso.

Quando uma família chega pela primeira vez com um filho menor a uma consulta consigo, quais são as principais preocupações que trazem? Défice de atenção? Hiperatividade? Não conseguem dialogar com o filho?
Não, não. Muito raramente. Às vezes é a relação com a escola, outras é a sensibilidade que têm em relação à falta de «luz» que nalgumas circunstâncias sentem no olhar deles, às vezes é a dificuldade em perceber até onde podem exigir e a partir de quando devem condescender. Não me pedem para fazer magia ou para ajudar o filho a ter mais atenção e esquecer tudo o resto à volta.

«Gostava de estar mais tempo com a minha mãe. Eu estou na escola, depois no ATL. E, depois, vou para casa e espero que ela chegue. Depois jantamos. Mas, logo a seguir, vou para a cama. E é sempre assim.», João, 10 anos

E outras situações mais duras? O que se diz a uma mãe ou um pai cujo filho fala em suicídio? Recebe muitos casos desses?
Muito raramente. Repare, quando um adolescente está com a vida virada do avesso, com as notas a constiparem-se, o corpo a crescer de forma incontrolável, olhar o espelho e não se reconhecer na imagem devolvida, a mãe e o pai sem perceberem que às vezes ele precisa de se esconder atrás do cabelo, por mais que demore muito tempo por dia a despentear-se milimetricamente, é razoavelmente comum que tenha um desabafo do género «estou farto desta vida». Ou «a minha vida é uma porcaria», o clássico dos adolescentes saudáveis. Mas o sofrimento humano não se traduz dessa forma tão preto no branco. Claro que às vezes há adolescentes mais crescidos que de alguma forma jogam com a morte, quando se transformam em anoréticos, por exemplo. Mas isso implica um sofrimento tremendo e implica da parte dos pais uma dificuldade imensa em saber até onde podem gerir tudo isto.

Bastante perdidos, suponho.
A determinada altura acabam por ser pais sob coação. Se fazem qualquer coisa que passe um limite, eles têm ideia que há um precipício pelo qual todos acabam por cair.

Procuram-no mais para dar orientação aos filhos ou tranquilidade aos pais?
As duas coisas. Não é possível acompanhar as crianças sem ajudar os pais. Acho que os pais às vezes precisam de alguém que, de uma forma simples, os ajude a fazer uma síntese que eles não conseguem fazer. A esmagadora maioria dos pais é de uma humildade fora do vulgar. Às vezes, timidamente, põem-se em questão e sentem que deram uma ajuda para que as coisas se tornassem o que tornaram. A verdade é que quando os pais são chamados à atenção para os pequenos pormenores e para as peças de encaixe, são de uma sabedoria fora do vulgar e apanham a onda com facilidade.

E os avós, também procuram ajuda para conseguir lidar melhor com os netos?
Os avós são a reserva natural da bondade humana e têm o grande capital de já terem feito tantas asneiras com os filhos – de tal forma que às vezes os querem proteger de fazerem as asneiras que eles fizeram, coisa a que os filhos não reagem muito bem. Por isso os avós ficam numa espécie de fogo cruzado. Sentem que estão mais perto do mapa do tesouro do que os pais, mas estes não aceitam os palpites, e por isso entram ali numa espécie de mal estar. Mas, regra geral, a esmagadora maioria dos avós são de uma prudência fora do vulgar. E às vezes, quando procuram ajuda, é precisamente para ajudar os filhos – de uma maneira até que estes não entendam.

É mesmo preciso uma aldeia para educar uma criança?
É. Quanto mais pessoas representativas tivermos na nossa vida, mais versáteis, mais abertos, mais sábios nos tornamos. E acho importante que nunca percamos isso de vista, porque estamos a caminhar exatamente no sentido contrário. Os pais e os filhos vivem muito fechados uns sobre os outros e esquecem que os bons professores fazem parte da família e que às vezes há um tio, um primo, uma avó ou um avó que, todos juntos, acabam por trazer contraditório a muitas coisas que, se dependessem só dos pais, corriam o risco de estar um pouco fora do lugar.

A entrevista destas páginas é um excerto da conversa com Eduardo Sá. O trabalho completo faz parte da série de entrevistas «Ninguém Disse que Isto ia Ser Fácil» e pode ser visto no vídeo acima.

Falou dos professores, elementos essenciais nesta tribo. Vivemos tempos complicados, quer na sala de aula quer perante as dificuldades e constrangimentos no exercício da profissão. Tem muitos professores entre os seus pacientes?
Eu conheço e convivo com muitos professores, nas mais diversas circunstâncias. E quando me confronto com as condições de trabalho da maior parte deles, com o que lhes é exigido, com a falta de respeito de quem os dirige… é tudo tão absurdo que eu acho que os professores só podem ser pessoas estranhas. Sobretudo porque adoram ser professores. E ainda têm de lidar com alguns pais que não são pessoas educadas, quanto mais razoáveis. Se fôssemos medir o retorno que têm, teriam todas as condições para dizer «não, obrigado». Os professores quando se sentem adorados por um aluno, comovem-se de maneira inacreditável.

Deveria haver apoio psicológico gratuito para professores?
Eu não acho que os professores sejam casos clínicos. Eles estão é sujeitos a uma injustiça quase diária, porque lhes são colocadas metas que às vezes não têm pés nem cabeça. As pessoas que pensam a educação passam por cima deles como se fossem um adereço, sem perceberem que a reforma de educação não se faz a partir de ideias de gabinete, mas antes com boa formação de professores. Se o ministério tivesse uma atitude mais decente perceberia que os psicólogos na escola não podem existir para quatro ou cinco mil crianças. Fazem sentido é na retaguarda dos professores, para ajudar a mexer neste aluno desta maneira e a explicar a matemática àquele de outra diferente. Se isso fosse assim, tudo mudava. Por isso acho que ninguém quer mudar a educação porque ninguém leva a sério os professores.

Os professores fazem parte do grupo de super-heróis de que as crianças precisam?
Quando os professores não se deixam engolir por esta batotice que são os rankings, quando percebem que têm metas curriculares mas que são muito mais indispensáveis quando trazem histórias para dentro das salas, quando, mais do que ensinar as crianças a dar respostas, as ensinam a pôr perguntas, não tenho dúvidas que são super-heróis. Tão indispensáveis que ficam a par dos pais, porque pegam nos nossos filhos pela mão, conduzem-nos e abrem-lhes avenidas na cabeça de forma tão bonita que não percebo como não se consegue ter a gratidão de que eles precisam – da tutela aos diretores de agrupamento.

Também ajuda os pais a entender melhor os professores?
Sim. Às vezes andam zangados uns com os outros. Os professores fazem comentários em relação aos pais na sala de professores que não são justos. E os pais fazem comentários ao jantar em relação a um ou outro professor que não são o melhor exemplo à frente de um filho. Ambos querem o mesmo, mas escutam-se muito mal uns aos outros. Parecem ouriços assustados aos abraços.

Deveria haver terapia de casal para pais e professores?
(risos) Eu preferia que as pessoas conversassem mais. E isso não acontece nas escolas. As reuniões de pais com professores são, na esmagadora maioria das vezes, o melhor exemplo do que não deveria acontecer. Para que as pessoas se conheçam, deixem de ter receio umas em relação às outras e partilhem o conhecimento de uma mesma criança sob pontos de vista diferentes. As reuniões de pais e professores são demasiado protocolares e burocráticas, sem alma, tudo o que uma escola não deveria permitir que acontecesse.

Continua a achar que só nos tornamos verdadeiramente pais ao segundo filho?
(risos) Sim, acho. Porque o primeiro filho é sempre uma criança em perigo. Porque se cruzam muitas histórias no nosso primeiro filho. Cruza-se a nossa infância, cruza-se a infância que não tivemos mas desejávamos ter tido, cruzam-se os filhos que nós imaginamos ter… E isto a multiplicar por dois. O primeiro filho é uma espécie de entreposto de tantas histórias. De tal maneira que é quase difícil o filho mais velho ter ali uma clareira para dizer «agora tenham paciência, vou ser só como eu quero ser».

O primeiro filho é uma espécie de cobaia?
O primeiro é o que tem o álbum do bebé absolutamente irrepreensível, as roupas mais magníficas, que anda não pensou sequer em começar a chorar e a mãe já lá está de plantão para o que der e vier.

Eduardo Sá Livro de Reclamações das Crianças
Livro de Reclamações das Crianças, Eduardo Sá, Ed. Lua de Papel, 157 pgs, 11,20 euros

Esta conversa com Eduardo Sá faz parte da série de entrevistas NINGUÉM DISSE QUE ISTO IA SER FÁCIL, sobre família e relações, conduzidas pelo jornalista Paulo Farinha. Com psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, terapeutas de casal, educadores, enfermeiros, pediatras, juízes, professores e outros profissionais que ajudam a entender as histórias do dia a dia dos filhos que estão a crescer, dos pais que estão a envelhecer, da relação que parece à deriva ou da família que não escolhemos mas com a qual temos de lidar. Veja aqui outros vídeos.