Era uma vez o sexo

«Como é que explicarias a uma criança de 7 anos o que é o sexo?» A pergunta aterrou na minha caixa de e-mail há uns dias, vinda de uma amiga, mãe de dois rapazes, que se viu confrontada com a questão do filho. Pior: com o mais novo, de 4 anos, a assistir na primeira fila àquela cena de «mãe-embaraçada-a-tentar-não-por-os-pés-pelas-mãos-enquanto-se-lembra-das-palavras-certas».

A resposta que acabou por dar manteve a situação controlada, pelo menos por enquanto: «Tu és um menino, és do sexo masculino. A mãe é menina, é do sexo feminino». Não sei quanto tempo é que a solução vai resultar, mas, entretanto, dá tempo para alguns pedidos de ajuda aos amigos, na preparação para as perguntas que virão dentro de alguns dias/semanas. «E se fosses tu, o que terias dito?», perguntou ela.

«Querido Guilherme,

Em breve vais aprender na escola o que é o sexo e como funciona o sistema reprodutor, explicado de forma simples pela tua professora. Sem complicações. Mas há outra coisa que um dia vais descobrir por ti. Aquela técnica para fazer bebés é muito boa e dá muito prazer. É mesmo das coisas que mais prazer dá aos crescidos. Mas nem sempre tem a ver com bebés. Às vezes os adultos gostam de sexo só porque é bom. Normalmente é feito dois-a-dois, quando gostam muito um do outro. Costuma envolver beijinhos e festinhas, implica sorrisos e, em muitos casos, inclui também suspiros. Só se faz com pessoas de quem se gosta muito, nunca se deve fazer obrigado e provoca no final uma sensação tão boa, tão boa, que nem sequer conseguimos repetir nos próximos minutos. Porque se estivéssemos sempre a repetir, deixava de ser especial. E era cansativo à brava.

Se quiseres uma comparação para ver que isto é mesmo bom, imagina que durante uma hora, mais coisa, menos coisa (se tiveres sorte e fores bom), podes comer uma data de chocolates, gomas, batatas fritas ou outros alimentos que fazem mal mas sabem bem, enquanto a televisão está ligada para veres os desenhos animados que te apetece e tu podes brincar com o tablet da mãe. Tudo isto ao lado de uma cama elástica ou de um castelo insuflável, onde podes saltar, se te apetecer, e de uma piscina com água quente onde não precisas de usar touca. Nem sequer calções. Se houver mais alguma coisa de que gostas muito e só podes fazer de vez em quando, podes encaixar nesta hora. Desde que isso te dê muito, muito prazer. Ou cócegas.

Sabes, Guilherme, os professores, pedagogos, psicólogos e teóricos da educação dizem que não se deve explicar a uma criança da tua idade mais do que o necessário. Que só devemos dizer o que tu queres saber na hora, sem grandes divagações. Ainda bem. Porque, se não fosse assim, teria de te falar também de outras coisas que associamos ao sexo.

Como o amor, por exemplo. De tudo o que há no mundo, é aquilo com que os adultos mais se baralham e está, teoricamente, ligado ao sexo porque quando gostamos muito de alguém, quando amamos, gostamos do sexo com essa pessoa. Mas o amor é diferente. O amor faz-te sentir bem durante períodos maiores. Faz-te sentir orgulhoso. Como quando tens um «Muito Bom», recebes um brinquedo novo e no dia seguinte vão começar as férias. Ou seja, é bom, mas sabes que amanhã vai ser ainda melhor. O problema do amor é que às vezes também tem coisas más, apesar de saberes que elas são necessárias. É como os brócolos. Sim, o amor é como os brócolos. Tu sabes que fazem bem, mas sabem mal naquele momento. Mas não deixam de ser bons. Confuso? Nem tu imaginas…

O que é chato, no amor, é que vais verdadeiramente descobrir o que é essa coisa tão boa no dia em que alguém te deixar magoado com isso. Sei que parece uma contradição, mas um dia vais perceber. Para já, fica só com a parte boa. A do sexo.»

[13-10-2013]