Eric Klinenberg: «Onde existir riqueza e direitos das mulheres, existe mais gente a viver só»

O sociólogo norte-americano Eric Klinenberg, autor do livro Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone, considera que o aumento de pessoas a viver sozinhas em todo o mundo civilizado é uma revolução. E nós quisemos saber porquê.

Entrevista de Catarina Pires

No seu livro defende a ideia de que viver sozinho é cada vez mais uma escolha e que essa tendência é em si uma grande revolução social e demográfica. Escreveu-o há sete anos. As suas conclusões mantêm-se? O que mais tem contribuído para essa revolução?
Sim, a tendência de viver sozinho continua a crescer, globalmente e nos EUA. É crucial para esta mudança a segurança económica – dada tanto pelo mercado como pela proteção social -, mas também a crescente independência das mulheres. Quando as mulheres ganham acesso ao mercado de trabalho e controlam seus corpos e as suas vidas, aumenta o número de mulheres a morar sozinhas. Onde quer que encontre riqueza e respeito pelos direitos das mulheres, encontrará pessoas a escolherem viver sozinhas.

Mas viver sozinho continua a ser visto como um destino indesejado e triste. Porquê?
Temos opiniões profundas sobre viver sozinho como um fracasso social – e por boas razões. Por toda a história humana, viver sozinho era extremamente invulgar e fonte de vergonha. Só se tornou comum nos últimos 65 anos. Portanto, o nosso entendimento cultural está aquém da nossa experiência vivida. Está a mudar rapidamente, mas não completamente.

O que me preocupa é a forma como a sociedade lida com os casos em que viver sozinho não é uma escolha, mas sim uma luta e um sofrimento.

Que mudanças sociais, de comportamento (e outras) esta revolução implica?
Transforma as expectativas. A ideia de que vamos casar e viver em família toda a vida adulta deixa de ser norma. Acontecerá com algumas pessoas, é claro, mas milhões de outras passarão por diferentes fases da vida: sozinhos, juntos; juntos, sozinhos. Às vezes a experiência é emocionante, às vezes é cansativa e difícil. Se fores uma jovem profissional de sucesso, viver sozinha é diferente do que se fores uma viúva idosa ou uma recente divorciada. O contexto é importante. E o que me preocupa é a forma como a sociedade lida com os casos em que viver sozinho não é uma escolha, mas sim uma luta e um sofrimento.

Em sociedade envelhecidas como as ocidentais, também há cada vez mais solidão e isolamento.
Sim, as sociedades em todo o mundo estão a envelhecer muito rapidamente, mas não temos alojamentos adequados nem sistemas de assistência e apoio para milhões de pessoas que envelhecem sozinhas. Temos que redesenhar as políticas sociais e os lugares em que vivemos – edifícios e cidades – para melhor atender às necessidades dessa sociedade secreta de pessoas que vivem e morrem sozinhas.

A tecnologia torna mais fácil planear as coisas, mas no fim do dia as ligações mais significativas são cara a cara.

Mas estar sozinho não significa (ou não tem de significar) estar isolado. Esta é uma das suas conclusões. A tecnologia é a chave para facilitar a vida a quem vive sozinho?
Não, é parte disso. As pessoas que moram sozinhas costumam morar perto de outros na mesma situação. Há bairros com muitos solteiros e uma vida social e pública ativa e alargada. A tecnologia torna mais fácil planear as coisas, mas no fim do dia as ligações mais significativas são cara a cara.

O seu livro desmistificou a ideia de viver sozinho, mostrando que não é necessariamente um «drama». Poderá o reverso da medalha ser que se «romantize» de mais a ideia?
Na verdade, acho que não. O valor cultural do casamento e da família continua a ser extraordinariamente poderoso e não acho que muita gente romantize a ideia de viver vida sozinho. No meu livro, conto histórias de pessoas que vivem sozinhas com sucesso, mas também muitas histórias dolorosas de gente que luta para ter uma vida funcional. Não sou pregador de nenhuma ideia e não quero mudar a forma como as pessoas vivem suas próprias vidas. Eu até sou casado, tenho filhos pequenos e estou muito feliz por estar com eles. Sou sociólogo e o meu objetivo é aprofundar a nossa compreensão sobre esta incrível mudança social. Se desmistificar a ideia de viver sozinho tornar as pessoas menos críticas e abrir caminho para melhores políticas, tanto melhor.

As pessoas que moram sozinhas deixam-nos desconfortáveis, mesmo que sejam felizes. Quando tentamos ajudá-los, estamos ajudar-nos a lidar com nossa própria dor.

Sim, talvez assim não estivéssemos sempre a tentar arranjar namorado para a amiga solteira ou não nos incomodasse tanto alguém a jantar sozinho ou a viajar sozinho ou o que seja.
Sim, estar sozinho continua a ser estigmatizado porque muita gente está presa às ideias tradicionais do que constitui uma vida boa. Por outro lado, tendemos a projetar as nossas próprias ansiedades nos outros. As pessoas que moram sozinhas deixam-nos desconfortáveis, mesmo que sejam felizes. Quando tentamos ajudá-los, estamos ajudar-nos a lidar com nossa própria dor.

Das entrevistas que fez, quais as vantagens e desvantagens de viver sozinho, sentidas pelas pessoas?
Dá-lhes a liberdade de fazer o que querem, quando querem e de viverem nos seus próprios termos. Pode dar-lhes uma sensação de controlo. E, paradoxalmente, morar sozinho pode ajudar as pessoas relacionarem-se, ou refazerem ligações, com os outros de uma forma mais positiva. Mas é claro que também pode ser solitário e triste, especialmente para quem não quer viver sozinho, mas ainda não encontrou ou não consegue encontrar a pessoa certa com quem viver. E isso pode ser particularmente nefasto para pessoas doentes ou frágeis.