Na escola do melhor professor do ano, Rui é uma rock star

Depois de trinta anos de ensino, Rui Correia foi eleito o melhor professor do país. Há duas décadas que leciona numa escola das Caldas da Rainha onde os problemas socioeconómicos das crianças as fazem acreditar que não são capazes de ser bons alunos. Mas o stor Rui está a mudar as vidas dees.

Texto de Catarina Reis

A entrada da Escola Básica de Santo Onofre não deixa espaço para dúvidas: é aqui que encontramos o melhor professor do país. Rui Correia, 53 anos, tem o rosto escarrapachado em fotografias que enchem os vários corredores do estabelecimento de ensino das Caldas da Rainha. Uma delas está junto à porta principal, num pilar verde que guarda a seguinte descrição do professor de História e de Cidadania do terceiro ciclo: “o que faz do stor um stor especial não são as suas aulas, mas o modo como se relaciona com os seus alunos e colegas”. Mal chegou foi assolado pelo abraço ansioso de duas alunas de dez anos.

Um pé no primeiro corredor da escola e as boas-vindas calorosas multiplicam-se. Rui é recebido como uma verdadeira estrela de rock. “Parabéns” ou “olá, professor do ano”, vão dizendo colegas e alunos. Dos seis aos 14 anos, ninguém fica indiferente à sua passagem. E se a coragem falta para o abordar, lança-se um olhar atento e um sorriso tímido ao longe. Foi parando para agradecer e retribuir os abraços. Já passaram três dias desde a cerimónia em que foi anunciado como o vencedor do Global Teacher Prize Portugal, que elege o melhor professor do país a partir de nomeações de colegas e alunos. Ele foi o escolhido entre 200 candidaturas e dez finalistas de vários pontos de Portugal.

A campainha toca e Rui Correia dirige-se à sala, para uma das primeiras aulas que vai dar desde que recebeu o galardão. Os alunos do 7.º A estão empolgados e todos os dias têm preparado uma surpresa. No início da semana, deixaram um papel colado à porta onde o professor estava a dar aulas: “shhh… o N.º 1 está a trabalhar”. Esta quinta-feira, uma turma esperou-o na sala de aula com cartazes nas mãos e um banquete improvisado. A escola está em festa.

Os alunos estão empolgados e todos os dias têm preparado uma surpresa. No início da semana, deixaram um papel colado à porta onde o professor estava a dar aulas: “shhh… o N.º 1 está a trabalhar”.

As mãos ainda tremem quando se lembra da cerimónia desta segunda-feira, quando soube ter vencido o concurso para melhor professor do país. Confessa-se “de lágrima fácil”, por isso emociona-se quando recorda o momento. Há uns meses, ligaram-lhe da organização do Global Teacher Prize Portugal. “Você tem aqui recomendações para se candidatar a este programa e eu quero ler-lhe algumas, porque eu já chorei imenso com elas”, terá dito a pessoa do outro lado. Rui foi escolhido pelo seu método de ensino, reconhecido como “o melhor” entre a grande maioria dos seus alunos. Nos corredores, outros professores vão repetindo a mensagem, à medida que se cruzam com Rui: “foi tão merecido. Nós sempre soubemos”.

©Rui Miguel Pedrosa/GI

Nesta escola, desagua “a massa mais heterogénea de alunos” da região. Uns oriundos de famílias de classe média, outros de bairros problemáticos. A grande maioria chega de contextos socioeconómicos difíceis, muitos deles mentalizados de que ser bom aluno não é o seu destino e que a escola pouco ou nada pode fazer por eles. Por isso, o corpo docente procura sempre dar-lhes mais do que dita o plano de estudos. Para Rui, antes do humor e da exigência está, aliás, o sentimento de segurança. Estes são os três pilares para o sucesso escolar, garante. Aqueles miúdos têm de se sentir seguros ali. E ele ajuda a tornar isso possível.

Durante a aula, cada aluno tem três copos de papel sobre a carteira, os “copos semáforos”, que manuseia à medida que vai ouvindo. Copo verde à vista: está a compreender. Amarelo: está com qualquer dúvida. Vermelho: não está a perceber nada.

“Não há nada mais fácil do que ser pobre”, costuma dizer em cada receção a uma nova turma, no início dos anos letivos. “E estudar funciona (para evitar sê-lo). Estou a falar de não terem de se preocupar com dinheiro. Eu quero que vocês tenham isso. E estar aí sentado é um ótimo caminho para lá chegar”.

A AULA DO SÉTIMO ANO COMEÇA e todos os meninos e meninas que enchem a sala não tiram os olhos do professor. Da sala de professores, Rui traz vários copos (verdes, amarelos e vermelhos), uma ampulheta, quadros brancos (grandes e mais pequenos), folhas cor salmão (antigamente conhecidas pelos alunos como “as folhas amarelas”, agora esgotadas) e uma embalagem com “pauzinhos” de gelado personalizados com os nomes inscritos. É tudo o que precisa para manter os alunos sempre atentos, embora encare a distração com naturalidade. Aliás, acredita que “faz parte dos processos de aprendizagem”.

Esteja ele a falar sobre os meandros da era industrial ou de arte renascentista, a cada 15 minutos de aula Rui pede que os alunos escrevam nas “folhas amarelas” um resumo do que aprenderam – às vezes individualmente, outras em pares. As melhores composições seguem para um blog que criou para os estudantes. Durante a aula, cada um tem três copos de papel sobre a carteira, aos quais o professor chama “copos semáforos”, manuseados por eles à medida que vai lecionando. Copo verde à vista: estão a compreender. Amarelo: estão com qualquer dúvida. Vermelho: nada lhes está a fazer sentido. Em caso de copos amarelos à vista, mesmo que apenas um, Rui não para a aula mas reformula espontaneamente a forma como explicou o tópico que deu azo a dúvidas. Se a cor vermelha salta à vista, a aula é interrompida para que possa repetir o que está a ser difícil de assimilar.

Rui recusa-se a passar uma aula inteira aos comandos. “Por que é que eu hei de estar uma aula inteira só a falar de um assunto qualquer, por muito interessante que seja? Isso não vai acontecer. Eles não vão estar interessados este tempo todo. Tenho alunos que são capazes de ficar uma semana a ouvir-me, mas eu não quero dar aulas a 75% da turma, eu quero dar aulas para toda a gente.”

Para isso criou estratégias para obrigar todos os alunos a serem participativos. Todos, não apenas “os do costume”, como acontece tradicionalmente. Consigo, leva sempre uma embalagem com “pauzinhos”, cada um com um nome escrito. Quando faz uma pergunta, tira à sorte um desses e o nome que surgir é o da pessoa que terá de responder. O objetivo é que sintam que têm de estar focados o máximo de tempo possível, para que consigam sempre responder. “Quero que eles estejam constantemente na ponta da cadeira”, como que à espera de serem chamados.

PARA ESTE PROFESSOR, a perceção do quanto podem os alunos estar a gostar do tema também é relevante para o sucesso das suas aulas. Para isso é que servem os quadros brancos que distribui por cada aluno, para que possam escrever, num adjetivo, o que acharam daquela aula.

Até os testes deste professor fogem da norma. Raramente há folhas envolvidas neste dia, apenas uma pequena tela branca com um QR code, um para cada aluno, em que cada uma das arestas tem letras inscritas – A, B, C e D. No quadro da sala, surge uma pergunta e as hipóteses de resposta. Por escolha múltipla, os alunos respondem, colocando virado para cima o lado do QR code com a letra da que consideram estar certa. Depois de todos terem decidido, Rui circula pela sala com o seu telemóvel a digitalizar a resposta de cada um. No final da aula, as notas já são conhecidas por todos.

“Não há nada mais fácil do que ser pobre”, costuma dizer às novas turmas no início de cada ano letivo. “Estudar funciona (para evitar sê-lo). Estou a falar de não terem de se preocupar com dinheiro. Eu quero que vocês tenham isso. E estar aí sentado é um ótimo caminho para lá chegar”.

A campainha da escola volta a tocar… mas nenhum estudante deixa fugir o olhar do professor. Nem eles sabem bem a razão que os faz tão interessados no que Rui tem para lhes ensinar. “O professor dá a matéria e fica na nossa cabeça, não sei porquê. Há outros professores que parece que dão a matéria a despachar.” Ao seu lado, João explica que tem tudo a ver com o facto de o professor ser “natural, ele mesmo”. Uma colega completa a ideia: “não é como um segurança que fica ali a vigiar”. E um remata: “se calhar não posso dizer que é o melhor do mundo, mas é muito bom professor”.

Nesta aula, falou-se de tudo, até de amor (sim, amor). Porque Rui Correia acredita numa “escola de afetos”.

DESDE QUE RECEBEU O PRÉMIO Global Teacher Prize Portugal, na cerimónia de revelação do vencedor, Rui repetiu várias vezes: “Eu não sou o melhor professor do país, eu represento ou bons professores, apenas”. Aliás, garante que não precisa de sair da sua escola “para encontrar melhores” do que ele. Como o Paulo, bibliotecário, mas a quem Rui vê como “professor”. “Este é que é fora de série”, faz questão de dizer.

Quanto ao título que ganhou – “como uma fita de miss que agora carrego ao peito”, diz a brincar – “parece tudo um mau filme americano”, desabafa. “Daqueles em que está tudo tão bem que só estou à espera de ver quando vai correr mal”, desabafa.

Nascido em Viseu – Emas figueirense de gema” [da Figueira da Foz] – Rui Correia decidiu que seria professor por volta dos 17 anos, recorda. Muito por influência de vários professores que lhe marcaram o percurso como estudante, quer pelo carisma que transportavam para dentro da sua sala, quer pela forma humana e natural com que lidavam com os alunos.

©Rui Miguel Pedrosa/GI

Mas o que ele queria mesmo ser era músico… ou poeta. “Eu sabia que teria de me dedicar a qualquer coisa cultural. Gostava muito de jazz e de poesia, mas viver disto nesse Portugal antigo parecia uma coisa muito irrealista”.

Ainda toca guitarra nos tempos livres e até tem uma banda de jazz. Mas o destino jogou a favor da educação, para onde rumou quando ingressou na faculdade: primeiro para um curso de História científica nos Açores, depois para um outro de História versado no ensino. “Não era grande aluno”, por isso só conseguiu vaga em Ponta Delgada. Garante, contudo, que foi um mal que chegou por bem. “Foi o melhor ano da minha vida, incrivelmente construtor, onde me defini muito como pessoa”. Dá aulas há trinta anos, vinte dos quais passados na Escola Básica de Santo Onofre, onde permanece.

Da sua sala partiram várias relações duradouras com alunos. Foi até padrinho de casamento de alguns. E houve quem tivesse sido acolhido na casa do próprio professor quando a vida familiar se complicou. Foram os mesmos que ajudaram Rui a ser recomendado para o prémio de melhor professor do ano.

Rui recebeu trinta mil euros para investir num projeto educativo. Ainda não definiu exatamente o que irá desenvolver, mas como é adepto das aulas ao ar livre, a aplicação do dinheiro poderá passar por aqui.

A música e a poesia, todos continuam a reconhecer-lhe. Quando há festa, os alunos fazem questão de fazer soar uma qualquer faixa de jazz na sala. E nos exercícios de aula – ou nano-projetos, como o professor os chama – há poemas que se tornam paredes da própria escola. Mas é o ensino que lhe corre nas veias, admite. Tanto o apaixona que ainda hoje começa todas as aulas com “um nervoso miudinho”.

Rui recebeu trinta mil euros para investir num projeto educativo. Ainda não definiu exatamente o que irá desenvolver, mas como é adepto das aulas ao ar livre, a aplicação do dinheiro poderá passar por aqui. Ganhou uma certa aversão a mesas de sala de aula, pela pouca flexibilidade que dá às dinâmicas de grupo e até já andou a estudar soluções de imobiliário. Mas o melhor mesmo, diz, é contar com o exterior. “Acredito em mandar a turma toda para a rua, não um aluno”.

GLOBAL TEACHER PRIZE

Esta foi a segunda edição do Global Teacher Prize Portugal, um prémio que elege o melhor professor do ano e que em 2018 elegeu Jorge Teixeira, professor de ciências do ensino secundário público, em Chaves.
A presente edição contou com mais de duzentas candidaturas e acima de 1500 recomendações submetidas por alunos, colegas e encarregados de educação, que resultaram na nomeação de dez finalistas (seis mulheres e quatro homens) de diferentes zonas do território nacional, de 18 distritos do continente e das regiões autónomas.
O júri do concurso foi presidido por Álvaro Laborinho Lúcio e Afonso Mendonça Reis (membro do painel da edição mundial e fundador da edição nacional). Também os jurados Pedro Carneiro (representante da comunidade científica), Sara Rodi (representante dos encarregados de educação), João Brites (representante dos alunos) e o professor universitário e psicólogo Eduardo Sá fizeram parte da decisão que deu o prémio ao professor Rui Correia.