Teresa Paiva: «Estamos a criar pessoas privadas de sono que terão graves problemas de saúde»

Existe o sono dos justos ou as pessoas más dormem melhor? O sono perfeito está ligado ao amor e ao sexo? O que é dormir bem? Porque tentamos domar o sono? Como aprender a deixarmo-nos ir? Os mistérios do sono e Teresa Paiva andam ligados há 35 anos. A maior especialista portuguesa nestas patologias iniciou a carreira em 1983 e a escolha, na altura arriscada, acabaria por tornar-se uma paixão. A neurologista recebeu-nos no centro de Eletroencefalografia e Neurofisiologia Clínica, para falar do sono e de si, num dos raros momentos em que concede confissões pessoais.

Entrevista Alexandra Tavares-Teles | Fotografia Gonçalo Villaverde/Global Imagens

Quantas horas dorme por dia?
Com a minha idade (72 anos) sete, oito. Ou mais, se estou cansada.

E a que horas se deita?
Entre a meia-noite e meia-noite e meia. Portanto, levanto-me entre as 8:30 e as 9 da manhã.

Como saber se se está a dormir o tempo certo?
Se acordarmos bem-dispostos estamos a dormir o essencial. Há outros fatores: dormir o que se precisa, com horários regulares para isso, para comer e para trabalhar, andar ao ar livre, não levar problemas nem telemóvel para a cama.

A dificuldade matinal em levantar, bastante comum, resume-se a preguiça?
A preguiça faz bem e faz parte da vida ser um bocadinho preguiçoso, ouvir os sinais do corpo. Mas essa dificuldade pode querer dizer que se está a dormir de menos.

Nesses casos o que aconselha?
Que se durma mais 20 minutos.

Até ao século XVIII, as pessoas dormiam o primeiro sono, acordavam, conversavam, tinham relações sexuais, enfim, estavam acordados umas duas horas e iam, depois, dormir o segundo sono.

Após uma direta o que fazer – dormir durante o dia seguinte, ou esperar pela noite?
Não vou aconselhar. A menos que esteja alguém doente ou se vá salvar alguém ou se trabalhe por turnos, não se deve fazer diretas.

Já fez diretas como médica. O que preferia?
Pessoalmente, prefiro fazer a privação completa e esperar pela noite. Mas depende muito das características de cada um, não é uma regra absoluta e tem de ser vista caso a caso.

O que é «dormir bem»?
É acordar bem-disposto, sem dores de cabeça.

Qual é importância do espaço no sono? Como descreveria um quarto ideal? Tem televisor no quarto?
Não sou como o frei Tomás e, portanto, não tenho. Podemos dormir bem em choupanas, em cubatas, no chão. Os japoneses dormem em quartos minimalistas. O importante é que nos sintamos confortáveis.

Na decoração associa-se com frequência conforto a profusão de muitas almofadas e mantas.
(risos) Uma trapalhada que só serve para aumentar as alergias. Essencialmente, cada pessoa deve dormir num sítio de que goste. Eu adoro a minha cama de Lisboa.

Porquê?
Porque tenho o privilégio de ter um colchão duro e macio ao mesmo tempo. As pessoas fixam-se muito nos colchões ortopédicos duros por causa da coluna. Mas com a idade, o corpo torna-se mais sensível. Precisa de outro conforto.

E as paredes são de que cor?
É um quarto muito claro. Madeiras escuras mas colcha e cortinados brancos. Agora há mania do preto e castanho. Para quartos, não aconselho.

Uma das grandes diferenças entre dormir bem e dormir mal revela-se aí: as pessoas que dormem bem não se importam de acordar a meio do sono porque sabem que vão readormecer, para as pessoas que dormem mal, acordar a meio do sono é uma catástrofe.

Já agora, dorme-se melhor no inverno ou no verão?
Com o frio não se dorme bem. No verão, temos melhor disposição e humor. Em regra.

Quando não consegue dormir o que faz?
Conto histórias a mim própria. Na cama. Há pessoas que precisam de levantar-se, devem até fazê-lo. Eu não preciso. Uma das grandes diferenças entre dormir bem e dormir mal revela-se aí: as pessoas que dormem bem não se importam de acordar a meio do sono porque sabem que vão readormecer, para as pessoas que dormem mal, acordar a meio do sono é uma catástrofe.

Mas para ser de qualidade, o período de sono deve ser contínuo?
Esse é um mito. Até ao século XVIII, as pessoas dormiam o primeiro sono, acordavam, conversavam, tinham relações sexuais, enfim, estavam acordados umas duas horas e iam, depois, dormir o segundo sono. Muitas das pessoas que ainda acordam a meio noite fazem-no porque guardam ainda resquícios desse hábito. O sono único aparece apenas a partir da revolução industrial devido a falta de tempo. Aliás, veja, nas cavernas os homens tinham um sono muito interrompido, desde logo por causa do perigo. Nesse tempo, se não acordássemos durante a noite seríamos comidos por um bicho.

O sono é um ganho de tempo intelectual, emocional e físico. É durante o sono que as funções essenciais à cognição, à memória, à aprendizagem, à criatividade, ao equilíbrio emocional e ao equilíbrio do corpo são repostas e reorganizadas.

Esse sono era igualmente gratificante?
Tanto quanto é o dos cães e o dos gatos. Acordam e readormecem imediatamente.

Falemos de outros mitos. Ou convicções erradas.
Uma delas é a de que o sono não serve para nada, de que é uma perda de tempo. Ora o sono é um ganho de tempo intelectual, emocional e físico. É durante o sono que as funções essenciais à cognição, à memória, à aprendizagem, à criatividade, ao equilíbrio emocional e ao equilíbrio do corpo são repostas e reorganizadas. O sono é o equilíbrio, um estado altamente ativo que vem reequilibrar a vigília e preparar para o dia seguinte. Outro mito é a ideia de que não há limites. Ora, o nosso organismo tem limites marcadíssimos e, portanto, a pessoa vai fazer coisas que a levam ou à exaustão ou à infelicidade. Tudo na vida tem uma ponderação correta.

A necessidade de regras.
A necessidade das regras. Os nossos relógios biológicos têm de obedecer a determinados horários e padrões de regularidade. Há quem se deite todos os dias a horas diferentes, coma, durma, faça exercício quando lhe apetece. Isso é muito perigoso.

Ao contrário de outras funções, estamos sempre a tentar domar o sono. Quais são os perigos?
A função está muito bem organizada, não precisa da nossa interferência. Ao contrário, por exemplo, do andar, do comer ou de outras funções, no sono quanto mais se insistir pior se dorme. Exatamente porque está tão bem organizado. Temos de nos deixar ir.

Mas nem sempre deixamos.
Essa é uma das causas de insónias. Ensinar uma pessoa com insónia a dormir é ensiná-la a deixar-se ir. Repare: fazemos atualmente ao sono o mesmo que fizemos ao planeta terra, com os danos que se conhecem. O que se faz ao corpo não dormindo corretamente provoca danos que podem ser muito maus e irreversíveis.

Quais, concretamente?
Doenças terríveis, entre elas o cancro a demência. Para além dos acidentes.

Por isso, é perigoso deitar por sistema depois das duas da manhã, como é perigoso levantar sistematicamente às 4 da manhã. Pensar que não precisamos da luz do sol é um grave erro.

Dormir de dia achando que vale o mesmo do sono noturno é um perigo real?
Há, claro, pessoas mais matutinas e pessoas mais noctívagas mas não somos nem ratos nem morcegos. Somos humanos e os humanos são animais diurnos. Por isso, é perigoso deitar por sistema depois das duas da manhã, como é perigoso levantar sistematicamente às 4 da manhã. Pensar que não precisamos da luz do sol é um grave erro. Atualmente há uma enorme carência de vitamina D, vê-se nos doentes. E porquê? Porque as pessoas saem de casa ainda de noite, chegam a casa já noite e durante o dia estão fechadas em ambientes com luz artificial. E mesmo quando fazem atividade física fazem-no em ginásios, sob luz artificial. E as crianças já estão nesse processo.

Quão mal faz adormecer no sofá, a ver televisão? Esse sono traz alguma coisa de bom?
Esse sono vale e é preciso contar com ele – dormirá menos – mas a pessoa deve perceber que quando está com sono deve ir para a cama. Se se estiver muito cansada, uma dormidinha no sofá não traz mal ao mundo. Mas se isso acontece sistematicamente, das duas uma: ou há um problema de sono em excesso ou um mau hábito. Quanto à televisão, sendo por vezes soporífera, tem um outro lado muito negativo. Só noticia desgraças. Esse contacto com as tragédias, sobretudo nessa fase do dia – a evolução circadiana do nosso humor torna-nos mais pessimistas à noite – tem interferências muito negativas no sono.

As más notícias também ajudam a relativizar e nesse sentido podem ser positivas.
Podiam ajudar mas não é o que acontece. Há uma enorme tendência para fazer de um problema banal o mais terrível problema. Veja, no ranking mundial de felicidade a maior parte dos países europeus está nos primeiros 20 lugares. Portugal aparece no 77º lugar.

Que devemos fazer ao longo do dia para ter um sono reconfortante e reparador?
Começar a manhã a apanhar sol. O sol da manhã é fantástico. É um anti-depressivo gratuito. Andar a pé e apanhar sol mata dois coelhos de uma cajadada – fazem muito pela saúde em geral e pelo sono em particular. E ter horários. Para acordar, para comer, para fazer exercício, para trabalhar e, muito importante, para acabar de trabalhar. É fundamental definir os limites.

Alguém que trabalhe por turnos nunca saberá o que é dormir bem?
As pessoas que trabalham por turnos têm de perceber duas coisas fundamentais: que estão sujeitas a algo que não é natural; que, por isso, têm de ter muitos cuidados. É como se fossem atletas de alta competição. É-lhes exigido um desempenho muito mais complexo.

Uma das características das doenças do sono é serem ubiquitárias. E é essa associação de várias doenças que torna o tratamento complexo. As doenças do sono não são fáceis de tratar.

Fala-se muito de sono. É uma área em que estamos melhor?
Num aspeto: há mais pessoas a trabalhar em sono, há mais pessoas a reconhecerem que têm doenças do sono e o diagnóstico é feito mais precocemente. Em relação aos hábitos, não estou assim tão otimista.

Quais são os maiores problemas com que se depara no consultório?
Hipersónias (distúrbio do sono caracterizado por sonolência excessiva durante o dia e/ou sono prolongado a noite) de origem no sistema nervoso, e narcolepsias (perturbação neurológica crónica caracrizada pela diminuição da capacidade de regulação do ritmo de sono e de despertar com sonolência inapropriada e irresistível) são em determinados casos gravíssimas. Também alguns problemas existenciais e físicos graves. Os maus hábitos, que deixam vidas completamente estragadas e com riscos muito graves para a saúde, como deitar e levantar muito tarde. Esse é de resto um problema de difícil tratamento porque trata-se de doentes que não conseguimos agarrar. E as insónias, que são maioritárias, as apneias do sono e as pernas inquietas. Uma das características das doenças do sono é serem ubiquitárias. E é essa associação de várias doenças que torna o tratamento complexo. As doenças do sono não são fáceis de tratar.

E os doentes, são fáceis?
Eu fico aqui muito cansada. Vejo casos muito graves mesmo, muitas vezes no fim da linha.

Que sinais devem levar-nos a procurar um médico?
Não dormir bem mais que três vezes por semana durante 3 semanas. Ressonar, ter comportamentos violentos ou disparatados durante a noite, a ausência de horários.
Quando provocada, a privação de sono leva à morte ao fim de quanto tempo?
Cerca de duas semanas. Um rato morre ao fim de uma semana. Mas não se consegue fazer privação de sono. Só provocada.

Marcelo Rebelo de Sousa serve de exemplo em muitas áreas mas não nos hábitos de sono

Falemos dos comprimidos para dormir.
A existência de um tratamento específico para uma doença é algo de muito bom, de maravilhoso. Dito isto, há muitas insónias que não se tratam com medicamentos. Bem pelo contrário. Algumas precisam de remédios em doses pequenas mas a maior parte das vezes quanto mais comprimidos se tomam menos se dorme.

Atualmente usa-se e abusa-se dos fármacos?
Sim, Portugal é um dos maiores consumidores europeus em remédios para dormir; pior: os portugueses gastam milhões por ano em remédios para dormir sem receita médica. Começa a haver cuidado com a prescrição de benzodiazepinas pelos riscos que comportam para a memória, mas a prescrição ainda é elevada e há muito consumo crónico resultante de prescrições antigas. Ora, o essencial na insónia é fazer modificações nas crenças relativas ao sono e no estilo de vida.

Conseguir finalmente dormir bem deve ser um alívio tremendo. Que retorno recebe dos doentes?
Os doentes ficam mais bonitos, com a pele mais bonita, com os olhos mais brilhantes. Os doentes são muito amigos no geral. Ninguém trata toda a gente, e quando ouvir alguém dizer que trata toda a gente está com certeza perante um aldrabão, mas tenho manifestações fantásticas de gratidão dos doentes.

Esta clínica, dos objetos aos móveis e às plantas, podia ser a casa de cada um.
Esse é mesmo o conceito. É uma casa doméstica, poderia ser a casa de qualquer um. Quero os meus doentes fora dos ambientes frios, tão comuns aos hospitais.

Estatísticas do sono em Portugal. Que números temos?
A última estatística é nacional (continente e ilhas) e relativamente recente, o Epi-Reuma, dirigido pelos professores Helena Canhão e Jaime Branco. Numa amostra de mais de 5 mil indivíduos (5436), verificou-se que a média de dormir nacional é inferior a sete horas (6,6h) – o que é assustador – e que a percentagem de pessoas que dormem menos de 5 horas é muito elevada (20,7%). Números que fazem tocar muitos alarmes.

Dormir pouco engorda. O grande problema da privação de sono é as pessoas acharem que fazem o que outros não conseguem fazer. Esquecem, porém, que vão pagar muito caro.

Tempos modernos, ou seja, a ideia de que dormir é perder tempo, dinheiro e até forma física. Há quem roube horas ao sono para ir correr de manhã.
Vão correr às escuras, o que é um disparate. Essa questão da atividade física é preocupante. Há adolescentes que praticam desportos ao fim do dia, por vezes até às 10 da noite. Uma barbaridade que daqui a uns anos será considerada maus tratos. Repare que essa atividade ocorre sob forte intensidade luminosa, em ginásios e piscinas, numa altura do dia em que deviam estar a preparar-se para dormir. E essa preparação para dormir deve ser feita com baixa luminosidade, tal como acontece na natureza. Precisamos de tranquilidade antes de irmos para a cama. Vejam os cuidados do Cristiano Ronaldo e olhem para os grandes génios da era pós-industrial. Einstein dormia 10 horas, Darwin dormia oito, mais a sesta, e Beethoven, oito horas seguidas.

Para os que se preocupam com a forma e trocam o sono pelo exercício – dormir pouco engorda?
Engorda. O grande problema da privação de sono é as pessoas acharem que fazem o que outros não conseguem fazer. Esquecem, porém, que vão pagar muito caro. Primeiro, não dormem porque não querem, depois não irão dormir por não serem capazes, ou porque têm uma data de doenças.

«Recarregar» ao fim-de-semana é sistema?
Pode ser bom para umas pessoas, mau para outras. Sobretudo, pode indicar que há privação de sono. Se ao fim de semana se dormirem duas horas mais que à semana há uma privação de sono. Se forem três horas, a privação é grave. E os números são preocupantes: cerca de 18 por cento de jovens adolescentes com 14 anos têm 3 horas de diferença entre o fim de semana e a semana. E cerca de 20 por cento têm duas horas. Ao nível dos comportamentos de risco e da aprendizagem, alguma cosia vai correr mal a estes miúdos.

E depois há Marcelo Rebelo de Sousa, que dorme 4 a 5 horas por noite.
Há sempre uma pequena percentagem de pessoas excecionais. Marcelo Rebelo de Sousa serve de exemplo em muitas áreas mas não nos hábitos de sono (risos)

Em Portugal acorda-se demasiado cedo?
Portugal é o país do mundo que se deita mais tarde, sendo que se levanta à mesma hora dos outros. Ora, deitar tarde e levantar cedo não é uma boa mistura. Estamos a criar pessoas privadas de sono que vão ter problemas gravíssimos de saúde. Tal como a obesidade, é um caso de saúde pública.

Há um mistério no sono que é muito apelativo. Quando comecei andavam os grandes investigadores à procura da função do sono, veja lá.

É mais difícil tratar as crianças ou lidar com os pais?
Há pais que colocam nos filhos o peso do que não fizeram e gostariam de ter feito. E daí resultam por vezes cargas horárias que crianças e adolescentes não aguentam e que resultam em esgotamentos. Eu sei que corro o risco de os pais não voltarem à consulta mas não abdico de deixar os alertas todos. E de lhes dizer que aquelas crianças, quando chegarem à faculdade, vão ter grandes dificuldades.

Que implicações pode ter uma doença do sono numa família?
Para além de ubiquitárias, as doenças do sono são muito disruptivas da estrutura familiar. Uma doença do sono tem implicações muito sérias na família.

Os jogos virtuais são outro problema crianças e adultos. Que aconselha?
Tenho muito cuidado com as proibições e, portanto, há uma negociação caso a caso. Mas diria que mais que duas horas durante a semana e três durante o fim de semana não faz bem.

Como foi com as três filhas? Casa de ferreiro, espeto de pau?
Na altura, trabalhava no hospital, fazia bancos, os meus pais já eram idosos, não tinha família que me ajudasse. Foi um pouco duro. Socorri-me de excelentes empregadas domésticas, duas, que ajudaram muito. A minha filha mais velha nasceu prematura, portanto, mamava de hora a hora, de dia e de noite. Não foi fácil. A minha filha do meio teve refluxo esofágico, dormia mal, também não foi fácil. A minha filha mais nova sempre dormiu muito bem – era a chamada Maria dormidina.

E com os netos?
Comigo dormem muito bem. Conto uma história, dou um beijinho e ficam na cama. A única coisa que faço de diferente é ficar no quarto ao lado. A minha casa tem dois pisos e não consigo ficar no de baixo. Portanto, eles sabem que se precisarem a avó está ali. As minhas filhas ficam muito ofendidas porque eu digo que em minha casa eles dormem muito bem.(risos)

Talvez porque não tenham a mesma sorte.
Não sei. Na casa delas, não interfiro.

Há pessoas que acham nunca têm culpa e outros que a sentem por tudo e por nada. A má consciência pode dar insónias mas as preocupações dão muito mais.

O sono das mulheres é diferente (e ainda mal conhecido)?
É. Porque as mulheres, e as fêmeas em geral, têm particularidades – a menstruação, a ovulação, a gravidez, a menopausa, são algumas delas -, que complicam o desenho de estudo. Depois, porque há doenças que tem uma especificidade pelo género – a insónia, por exemplo, é mais frequente mas mulheres e nos idosos. Já a apneia é mais frequente nos homens. Aliás, todos os tratamentos da apneia têm sido ensaiados em função dos homens o que dificulta o tratamento da doença nas mulheres. Depois ainda, porque as mulheres têm hoje uma vida muito diferente da que tinham há 50 anos. São mães, profissionais, estão sob enorme violência cultural, estética (vejam-se os saltos altos que tão mal fazem mas a que as mulheres aderem porque as torna sexy) e emocional – a mulher tem de ser boa em tudo. Estamos a criar super-mulheres que, naturalmente, irão ser deprimidas.

E com sentimentos de culpa.
A violência da exigência de desempenho. As mulheres têm sempre a culpa de tudo o que acontece de menos bom na família. Muitas mulheres vão para a cama matutar no que têm de fazer de manhã. No que têm de comprar ou cozinhar ou nas necessidades dos filhos. Ou então fazer coisas bizarras.

Como por exemplo?
Passar roupa a ferro, fazer limpezas, cozinhar ou comer compulsivamente (se bem que também há homens a fazer isso). Depois, há as crises epiléticas noturnas. Tive há uns anos uma doente que já tinha ido à bruxa, e tinha crises epiléticas.

Pesadelos, crises epiléticas prestam-se a isso.
O sonho ou o pesadelo pode ser em certas circunstâncias uma crise epilética; isso exige comprovação laboratorial. Não vai lá com bruxas.

O sono em contextos de violência também é necessariamente problemático, não é?
Os abusos sexuais na infância e na adolescência são casos muito graves com consequências para o resto da vida, com insónias, hipersónias, depressões. A violência doméstica, física ou psicológica, também tem claras repercussões sobre o sono: é dormir com o «inimigo».

Como é o sono de quem vive num contexto de violência doméstica? Nunca mais há tranquilidade?
Nunca mais. Haverá uma insónia grave e quadros de stress pós-traumático, com pesadelos.

Tem mais doentes homens ou mulheres?
Tenho muitos homens e muitas mulheres.

Hoje, fala-se abertamente das questões do sono?
As mulheres contam histórias mais compridas.

A pessoa que dorme a seguir à prática sexual ter-se-á envolvido mais na relação. Por outro lado, há no ato sexual uma transcendência que pode provocar uma paz interior. Talvez por isso seja considerado o sono mais feliz.

Existe o sono dos justos ou as pessoas más dormem melhor?
Há pessoas que acham nunca têm culpa e outros que a sentem por tudo e por nada. A má consciência pode dar insónias mas as preocupações dão muito mais.

O sono perfeito está ligado ao amor e ao sexo?
A pessoa que dorme a seguir à prática sexual ter-se-á envolvido mais na relação. Por outro lado, há no ato sexual uma transcendência que pode provocar uma paz interior. Talvez por isso seja considerado o sono mais feliz.

Começa a dedicar-se ao sono em 1983. Uma escolha arriscada.
Basta dizer que quando fiz a primeira apresentação de um doente do sono, no serviço toda a gente riu à gargalhada. O sono acabaria por se tornar uma paixão.

Porquê?
Há um mistério no sono que é muito apelativo. Quando comecei andavam os grandes investigadores à procura da função do sono, veja lá.

Riram-se então.
É, riram-se e sempre fui muito criticada na neurologia. Dizem que me dedico à «soft neurology»: primeiro, as dores de cabeça (montei a primeira consulta de cefaleias do país) e depois o sono. Algo que não sendo major interfere na vida de todos decisivamente.

Antes do 25 de Abril, em 1971, organizou uma greve dos médicos. Porém, depois do 25 de abril, nunca aderiu. Gosta de ser do contra?
Gosto de pensar pela minha cabeça. E há diferenças. Primeiro, antes do 25 de abril, essas greves foram greves nacionais, era a doer, de tal forma que os meus colegas e eu fomos expulsos do hospital e da carreira da função pública (depois reentrámos). Segundo, a luta era pelas carreiras médicas, era uma luta positiva. Atualmente, é catastrófico não existirem carreiras médicas, desde logo porque sem carreiras médicas nos hospitais não há esquemas de formação estabelecidos. Isso sim, devia ser combatido mas não, ultimamente as greves faziam-se por razões económicas que só prejudicam os doentes e fazem o estado poupar algum dinheiro em salários. Mas há uma esperança de mudança de atitude no movimento «O lado B do SNS».

Quem era a jovem que organizou a greve?
Uma boa aluna, com um enorme gosto pela leitura, coordenadora do curso, casada há já dois anos (1969). Uma menina bem comportada e infeliz. Levei muitos anos até à conquista da felicidade.

Porquê?
Um casamento que foi uma catástrofe, apesar de só ter durado dois anos. No ano da greve, ele vivia em Inglaterra e eu fiquei, para acabar o internato. Foi a descoberta de uma atividade política que nunca tinha tido. Cresci.

Como lidava com a falta de liberdade?
Citando Simone de Beauvoir, era «une jeune fille rangée». Nascida numa família muito conservadora, filha de um general, com um avô e dois irmãos militares. Uma menina que só saía com «chaperon». Que criou um sarilho quando não quis casar pela igreja e recusou usar o apelido do marido. Mas que ainda casou em Seteais, com pompa e circunstância no dia mais infeliz da sua vida.

Divorciou-se. Não deve ter sido nada fácil.
Uma coisa violenta. Mas tive um advogado que se chama Jorge Sampaio. Sabe, na minha vida, tive sempre umas forças a fazerem-me mal e outras a defenderem-me.

Uma «proteção»?
Sinto-me altamente protegida de coisas terríveis que me têm acontecido.

Em 2013, sobreviveu a uma explosão de gás, numa casa vizinha.
Não morri por um triz. A minha casa ficou destruída. Lado bom da «coisa»: fiquei com janelas novas.

Quando se está com as mãos atrás das costas e com uma pistola apontada à cabeça, a sensação é de desrealização e de profunda injustiça. Mas a minha denúncia da falta de segurança das agências bancárias, que na altura eram assaltadas regularmente, ajudou muitos bancários.

Anos antes, foi tomada como refém num assalto a uma dependência bancária. Vê sempre o lado bom do mal?
Sabermos tirar proveito do bom mas também do mau que nos acontece é muito importante. Aprender a relativizar. Quando se está com as mãos atrás das costas e com uma pistola apontada à cabeça, a sensação é de desrealização e de profunda injustiça. Mas a minha denúncia da falta de segurança das agências bancárias, que na altura eram assaltadas regularmente, ajudou muitos bancários, homens e mulheres obrigados a viver em stress e a calarem-se para não prejudicarem o nome do banco. Porque o banco não tinha problema com o assalto: as seguradoras pagavam. A minha denúncia contribuiu para que se criassem outras condições de segurança.

E depois tem o Alentejo, que é uma paixão e onde está a desenvolver um projeto relacionado com o sono.
Chama-se Sleep and Nature, é uma conceção minha, baseada no equilíbrio da natureza e na importância de transferir esse equilíbrio para o nosso corpo. Quer no contacto com a natureza, quer usufruindo de uma alimentação saudável, da fruta e dos legumes produzidos sem químicos a animais criados sem hormonas. Um hotel do sono que abrirá daqui a um ano.

Porque o nosso mal continua a ser sono?
Exatamente.