Esse e-mail que acaba de abrir não tem vírus. Tem germes

Quantas respostas automáticas tem recebido ao enviar e-mails de trabalho ultimamente? Em plena época de férias, a probabilidade de encontrar alguém «ausente do escritório até ao dia x» é bem mais elevada do que a hipótese de arranjar lugar para estacionar à sombra, sem parquímetro, no centro de Albufeira (ou em Tavira, que o Sotavento também já está cheio). As «out of office replies» são coisa antiga. O que é novo – ou só se começou a massificar há três ou quatro anos – é a frase seguinte nesses e-mails. «E com acesso limitado à internet.» Já não basta dizer que não estamos lá para responder àquele e-mail muito urgente por estamos a gozar de um direito legalmente salvaguardado. Temos de dizer que não estamos lá e não podemos responder porque estamos no cu de Judas, ou onde o diabo perdeu as botas, onde só há rede móvel quando o vento sopra na direção certa. E não, também não há restaurantes com wi-fi. E mesmo que haja, não sou obrigado a logar-me porque estou nas minhas férias, se querem que as interrompa para ajudar, paguem-me mais. Pronto.

Na ânsia de estarmos sempre disponíveis, sempre atentos, sempre conectados ao trabalho e aos colegas e ao backoffice e à central de vendas e à redação e ao mercado e ao cliente e ao serviço pós-venda e ao chefe e à equipa que precisa de nós, somos capazes de ter ido longe demais. E a grande rede global que nos quer dar um abraço fofinho para garantir que não perdemos absolutamente nada do mundo, mesmo que estejamos desligados, acabou por se tornar, às vezes, um polvo fedorento e metediço, com tentáculos pegajosos que nos ligam o telemóvel quando insistimos em mantê-lo no silêncio.

De acordo com a Marktest, haverá em Portugal, hoje, mais de cinco milhões de utilizadores de smartphone. Sessenta por cento dos portugueses com mais de 10 anos têm um aparelho esperto que, se não for bem utilizado, funciona como agente infiltrado dentro da nossa privacidade. Uma escuta. Dir-me-ão que é tudo uma questão de bom senso, que quem não quer não usa e pode chegar a casa e pousar o aparelho. Pois claro. E depois tem o chefe a perguntar porque não respondeu logo às sete da manhã ao e-mail enviado às três, ou o cliente a dizer que mandou uma encomenda à meia-noite e que se não viu, azar, já encomendou a outro.

É que parte do problema reside justamente no facto de isto ser contagioso. Estamos tão habituados a estar sempre disponíveis que esperamos que os outros estejam também. A toda a hora. Mesmo naquelas íntimas. De cada vez que recebo um e-mail cuja assinatura revela que foi enviado de um dispositivo móvel, não consigo deixar de pensar em que circunstâncias é que estaria o remetente. Estaria nu? Estaria na cama, com a mulher ou com o marido ao lado? Estaria na casa de banho? Sentado na sanita (não uso a palavra «retrete», tenham paciência)?

Não digam que isso são detalhes. Que estou a exagerar. Eu não quero que vistam um smoking ou calcem saltos altos para me escreverem mensagens, mas, com tanta conectividade, imagino sempre onde terá andado aquele e-mail antes de chegar a mim. Há estudos que o comprovam (sim, há gente a estudar isto): o ecrã de um telemóvel é a superfície mais suja que podemos levar para uma casa de banho – e sair de lá ainda pior –, tal a quantidade de germes que se acumulam naquele vidro manuseado por mãos que andaram por todo o lado. Se um em cada seis telemóveis está contaminado com uma bactéria fecal, garante a London School of Hygiene & Tropical Medicine, eu tenho razão para ficar a pensar. É que já não é só a minha privacidade e o meu direito ao sossego. É também a nossa saúde. Caramba, já que não vou ter sossego, ao menos lavem as mãos antes de me enviar um e-mail que acham que é urgente.