Esta crónica não é uma crónica. É um desabafo.

Fazendo uma retrospetiva das 99 crónicas escritas, percebo que escrevi enquanto psicóloga, tal como me foi pedido, mas também enquanto Rute. A Rute mulher, filha, irmã, mãe e amiga.

Esta é a centésima crónica que escrevo para o DN Life e, por isso mesmo, não pode ser apenas mais uma. Hoje falo-vos de mim.

Há quase dois anos fui convidada para escrever semanalmente e confesso que o agradecimento e entusiasmo inicial depressa deram lugar a algum medo e ansiedade. E se eu não conseguir? Onde irei eu encontrar assuntos relevantes para quatro crónicas por mês? E se não corresponder às expectativas? E se eu falhar? No fundo, os meus medos e inseguranças que vou conseguindo disfarçar e que geram um enorme sentido de responsabilidade e de peso em cima dos ombros.

Escrevi sobre os maus tratos e os bons tratos às crianças, talvez o principal foco destas crónicas. Escrevi ainda sobre o (enorme) desafio que são as relações de casal e em como manter a chama acesa apesar da passagem do tempo. Sobre a amizade, o suicídio, a adolescência e a parentalidade. Olhando para trás, penso que tentei ainda dar alguma visibilidade a realidades mais escondidas, abordando temas desconfortáveis e menos falados, como a violência sobre os homens, o abuso sexual cometido por mulheres, os pais e as mães que matam os seus filhos, as relações extra-conjugais vistas nas suas diferentes perspetivas, a chamada alienação parental e as suas dinâmicas, o que sentem as pessoas refugiadas e tantos outros temas… tivemos ainda a célebre crónica sobre quem queria casar com a minha vaca, assumindo a crítica a um programa de televisão que me valeu alguns elogios… e outras tantas ofensas…

Fazendo uma retrospetiva das 99 crónicas escritas, percebo que escrevi enquanto psicóloga, tal como me foi pedido, mas também enquanto Rute. A Rute mulher, filha, irmã, mãe e amiga. Penso que dei sempre algo de mim em cada crónica e em cada reflexão que fiz. E quem me conhece melhor sabe que assim é. Em muitas crónicas escrevi a pensar em casos concretos que fui conhecendo ao longo do tempo e que me marcaram de alguma forma. Noutras pensei em pessoas amigas ou familiares e, noutras tantas, acabei por projetar o que eu própria penso e sinto.

Algumas crónicas foram particularmente difíceis de escrever, ativando em mim tristeza, frustração, raiva ou medo. Na Amareleja cuida-se de quem se ama, um hino ao amor e à dedicação incondicional dos cuidadores informais e uma homenagem ao meu tio e à vila dos meus pais. O Natal enfeitado de tristeza é, afinal de contas, o meu Natal, desde que o meu pai morreu e outras pessoas importantes deixaram de estar presentes neste ritual. E quando escrevi sobre as mães perfeitas e as mães reais pensava, afinal, nos meus próprios receios em não ser uma boa mãe.

Ao longo da vida tenho também perdido algumas pessoas e era nelas que pensava quando escrevi sobre as pessoas que morrem apenas para nós. Algo que cria um estranho sentimento de vazio e de receio ao mesmo tempo. Emoções que se refletem também na carta que escrevi para mim própria, quando estiver a morrer. No fundo, acho que tenho medo de envelhecer e não dar o devido valor a tudo o que vivi e senti ao longo da vida.

E um dia fui jantar fora e escrevi sobre o casal da mesa do lado. Um casal que chamou a minha atenção por traduzir tudo aquilo que eu não quero que aconteça comigo. Uma relação amarga e superficial, temperada de críticas e acusações, olhares frios e sorrisos forçados.

Penso ainda que perdemos muito tempo focados em banalidades e acabamos por não dizer aquilo que realmente merece ser dito. Temos desculpas por pedir, agradecimentos e declarações de amor por fazer e outras tantas coisas que permanecem entaladas na garganta, teimando em não sair. É preciso dizer o que ainda não foi dito.

Vou continuar a escrever enquanto psicóloga, é certo, mas também enquanto Rute. Porque há dentro de cada um de nós dimensões indissociáveis e admito a minha dificuldade em retirar daquilo que escrevo uma dimensão mais vivencial. Aquilo que penso, que sinto e que quero. Espero continuar a contar convosco nesta jornada.

Acompanhem-me também no meu canal de Youtube com vídeos dirigidos a crianças e jovens, às famílias e aos profissionais. Espero por todos!