Estão à espera de um filho? Parabéns. Ah, é o segundo? Bom, então boa sorte.

Eu estava no quarto da miúda a vesti-la. A minha mulher entrou. Vinha da casa de banho, trazia um teste de gravidez na mão. E vinha a sorrir. Eu arregalei os olhos. «A sério?!» Peguei naquilo com uma mão enquanto com a outra tentava que a criança não se baldasse do fraldário abaixo. Dois traços. Olhámos um para o outro, sorrimos, eu passei-lhe um braço sobre os ombros e puxei-a para mim. «Vamos mesmo meter-nos nisto?», perguntou? Ela não queria uma resposta com reflexão ou uma troca de ideias. Queria só que eu dissesse que estava feliz e que ia correr tudo bem. «Estamos lixados, mas vamos a isto.» Na verdade, a palavra foi outra.

Foi mais ou menos assim, há três anos. A Madalena tem agora 2 anos e pouco, a Carolina 3 e meio. E sim, ainda estamos lixados – a outra palavra continua a fazer mais sentido aqui. Ainda temos a vida de pantanas, ainda adormecemos em todo o lado, ainda temos refeições interrompidas dezenas de vezes, ainda gritamos muito todos os dias. Às vezes com elas. Muitas vezes um com o outro. Ah, e temos consciência de que ainda esta procissão vai no adro.

Por que carga de água acham as pessoas que ter um filho dá cabo do casamento? E que ter dois pode ser um cocktail perigoso para provocar uma separação? Bom, para começar… porque é verdade. Ter filhos pode ser a mais extraordinária experiência emocional por que alguém passa na vida, mas é também um teste do caraças à capacidade de resistência. E alguém que ache que um filho reforça uma relação mais do que a ameaça é um ingénuo do caraças. E não tem amigos com filhos. Duas pessoas que continuam casadas depois da chegada das crianças não são sinal de que são imunes a crises. São, sim, um sintoma de que conseguiram superá-las. À custa de quê, isso é lá com eles.

Claro que há uma série de fatores a ter em conta: ajuda externa de avós ou tias, tempo para si próprios sem ser todo para a família, filhos que adormecem às 20h00 e ferram a noite toda, empregos amigos das famílias, etc. E, claro, a própria personalidade das crianças e dos pais. Mas mesmo com alguns ou todos estes elementos, a verdade é que a coisa dói que se farta. Têm dúvidas? Vão à internet. Está lá tudo. O certo e o errado. O útil e o inútil. E até o fútil. E o idiota, também. Se juntarem «marriage» e «children», o Google oferece 556 milhões de sugestões de leitura em inglês sobre casamentos e filhos. Mais carateres do que o vosso cérebro – e o vosso tempo de vida – consegue suportar sobre a forma de gerir o vosso descanso, o vosso sexo e a vossa sanidade mental ao mesmo tempo que introduzem nas vossas vidas questões como fraldas, sestas, birras, amamentação, choques hormonais, horários de refeições, horários para dormir, filmes infantis, trabalhos de casa, puberdade, adolescência. Só para referir algumas. Se acharem que são coisas a mais para ler e que antes de conseguirem dar conta disso tudo vão divorciar-se (ou divorciar-se justamente porque passam a vida a ler coisas para evitar uma separação), experimentem pesquisar as palavras em português. Com «casamento» e «filhos» são só 14 milhões de conjuntos de bitaites.

Vale a pena assustarem-se com isto? Sim. É conveniente lerem alguma coisa antes? Só por curiosidade. E justifica o esforço? Depende – de vocês e dos vossos filhos. Como se evita a separação? Não se evita. Se tiverem de se separar, isso vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Os filhos vieram só dar um empurrãozinho. E vocês vão tornar-se melhores pessoas? Sem dúvida. Nem que tenham de ser uns anormais primeiro. Depois chegam lá. Parabéns.

[Publicado originalmente na edição de 3 de abril de 2016]