Estão a ver esse adolescente que têm em casa? Cuidado: ele está a olhar para vocês

«Quero agradecer-lhe. Só depois de ler a sua crónica é que percebi que a minha relação não era normal. E fui embora.» As palavras saíram-lhe de rajada, os olhos ficaram mais brilhantes, de húmidos, o corpo ensaiou um movimento para se ir embora. Mas depois esperou um pouco. Um segundo. Dois. Talvez a ver se eu dizia alguma coisa, se reagia. E lá me saiu. «Estás melhor agora? Sentes-te mais feliz?» Ela acenou, sorriu. Ainda acrescentou: «Ele nunca me bateu. Mas não era preciso. Aquilo já era violência.» E depois sim, foi-se embora.

Aconteceu hoje. E fez-me sentir, ao mesmo tempo, pequeno mas tão cheio.

A 23 de junho de 2013, publiquei na NOTÍCIAS MAGAZINE uma crónica que se tornou viral. Intitulada «O teu namorado de 16 anos não é nervoso, é uma besta», abordava as relações de namoro violentas, o ciúme, a invasão de privacidade que representa alguém pedir a password de uma conta de e-mail ou Facebook, a devassa que é espiolhar as mensagens de telemóvel alheias em nome de um «amor» que «nada tem a esconder», o perigo que representa um aperto num braço, uma voz mais alta, um comentário sobre uma peça de roupa escolhida. Dirigida a rapazes e raparigas em idade adolescente, mas também, indiretamente, a pais e professores – razão pela qual foi lida e partilhada dezenas de milhares de vezes – alertava para comportamentos agressivos, físicos ou verbais. Não sou especialista no tema e, sobre relações abusivas, não sei mais do que o que acompanho na comunicação social. Mas, nos últimos três anos, graças a essa crónica e outras dentro da mesma temática que escrevi, tenho sido chamado a falar sobre o tema com estudantes do segundo ciclo e do secundário.

Hoje aconteceu novamente. Mas nesta manhã, na Escola Secundária Padre Alberto Neto, em Queluz, foi diferente. Hoje eram cerca de duzentos alunos dos 10º, 11º e 12º anos reunidos num auditório cheio para ouvir falar e debater um assunto que não é fácil de abordar. Não só porque alguns se reveem naquilo e podem não gostar, mas também porque outros encontram ali uma confirmação de que não estão sozinhos a enfrentar este tipo de comportamentos. Há mais quem passe por aquilo, há mais quem abuse e seja abusado.

E depois havia aquele inquérito… Três alunos do 12º ano apresentaram as conclusões de um estudo que os próprios conduziram junto de colegas através de um inquérito que elaboraram. Eram 25 perguntas sobre «O amor na adolescência», o tema que dava título a três folhas agrafadas em que três dezenas de miúdos terão vertido a intimidade. Como qualquer inquérito de opinião para efeitos sociológicos, era anónimo. Limitaram-se a colocar as cruzes nos quadrados da sua escolha e a responder com letra maiúscula às perguntas de resposta aberta sobre a forma como a educação transmitida até agora pelos pais lhes influenciou a vida amorosa, porque é que a relação amorosa dos progenitores é uma referência ou o que deve haver numa relação entre duas pessoas para ter sucesso.

As perguntas estavam lá. E as conclusões no ecrã: 65 por cento reconheciam que a relação amorosa dos pais é uma referência e 56 por cento admitiam que a educação que lhes foi transmitida até agora lhes influenciou os relacionamentos amorosos. O que eles fazem é influenciado pelo que veem em casa. Estava ali, preto no branco, por aqueles estudantes à minha frente.

Hoje, perante aqueles miúdos que me fizeram perguntas como «O que devo fazer se achar que a minha amiga é vítima de violência?» ou «Acha que continuamos a ser muito machistas?», tive a confirmação do que já sabia, mas agora com rostos e nomes. Eram eles, ali, entre os 15 e os 17 anos, a dizer que replicam o que ouvem e veem, mas também que já conseguem ter a capacidade para fazer os seus próprios juízos e concluir o que é ou não é normal. O que é ou não é correto na relação com o outro. Hoje, à frente de jovens que serão adultos dentro de muito pouco tempo, percebi melhor ainda que temos uma responsabilidade do tamanho do mundo a educá-los para serem pessoas decentes. E a dar o exemplo para isso.

[Publicado originalmente na edição de 22 de maio de 2016]