Estas são as listas que vale a pena fazer

Conhece bem o seu marido? A sua mulher? Conhece bem os gostos, manias, preferências, fobias, medos e vaidades? Sabe qual é o programa de rádio que ele ou ela gosta de ouvir de manhã? Sabe qual é o prato preferido dela? A quantidade exata de leite do galão perfeito? E qual o livro de sempre? A citação preferida? O filme da vida? E o local perfeito, em casa – sim, na sua casa– onde ele ou ela gostam de se refugiar? Sabe que há um refúgio em sua casa, não sabe?

Nos tempos do online de consumo rápido e dos artigos que temos de poder ler em menos de cinco minutos, entre uma viagem de metro e uma ida à casa de banho (sim, toda a gente leva o telemóvel para a casa de banho, não são só vocês), a internet está cheia de listas que nos ajudam a organizar as ideias. Também há listas tontas, palermas, que apenas nos ajudam a organizar os sites que não vale a pena consultar, mas isso é outra conversa. A verdade é que, para quem quiser procurar, há por aí umas quantas listas que garantem que o segredo para uma relação perfeita passa por saber aquela exata quantidade de coisas e segredos sobre a pessoa com quem partilha o presente e pensa partilhar o futuro. Pelo menos o futuro próximo.

Reparem que conhecer bem a outra pessoa não significa saber tudo sobre ela. Há coisas que não é suposto sabermos – as que pertencem ao domínio do pessoal, do íntimo, que guardamos para nós e queremos que ali fiquem, só nossas, e só partilhamos se nos apetecer, e ninguém tem nada que ver com isso. Conhecer bem o outro significa, sobretudo, saber observar. E saber fazer as perguntas certas para saber mais – sem ser abelhudo. Mas o que é mesmo importante, o que pode mesmo marcar a diferença, é utilizar esse conhecimento, esse conjunto de informações tão sistematizadas e organizadas, para fazer qualquer coisa que seja útil.

De que serve dizerem que sabem temperar o risoto de cogumelos no ponto certo, como ele gosta, se só fazem risoto de cogumelos uma vez por ano? De que adianta saber qual a medida certa de cintura, se nunca vamos comprar uma saia para ela? Ou se apenas o fazemos no dia de aniversário? Qual a importância de saberem que ela detesta azul ou que ele gosta de meias lisas, que ela não gosta de perfumes doces ou que ele prefere o café sem açúcar, que ela cortou o cabelo na semana passada ou que ele mudou de after-shave, que ela usa sempre protetor 40 ou que ele jamais usaria uma T-shirt amarela…? De que serve isso tudo se nunca se deram ao trabalho de escrever, num postal piroso, numa carta longa, em trinta post-its amarelos ou numa mensagem do Facebook, que sabem tudo isso? Que estão na posse desse saber acumulado, porque souberam ver, registar e usar quando foi preciso? Para quê saber tanto sobre o outro, se nunca arranjamos maneira de lhe dizer que estamos atentos. Deus nos livre das relações perfeitas, mas, de vez em quando, vale a pena consultar uma dessas listas que andam pela internet a vender romances ideais. Podem bem ser o ponto de partida para organizarmos uma outra lista. E bem mais importante: a lista de coisas que não sabemos sobre o outro mas gostaríamos de saber porque isso vai fazer de nós amantes melhores. E, sobretudo, pessoas melhores.

E, no fim do dia, quando as crianças já estiverem na cama e o sono estiver a chegar, quando os carros passarem com menos frequência na estrada ao fundo e a
cozinha já estiver arrumada, quando o cão já foi à rua e o lixo já foi despejado, depois de dizerem tudo o que sabem sobre o outro…
aí sim, é altura de dizerem tudo o que gostariam que o outro soubesse sobre vocês.

[09-03-2014]